Uma casa de fados onde é impossível fazer silêncio

O palco de fado do Nos Alive é um oásis no meio da confusão. Os jovens Pedro Seabra e Teresinha Landeiro apresentaram-se aí, no mesmo espaço onde amanhã atua Jorge Palma.

Em português, Christine e Mark percebem pouco mais do que "obrigado" e "bom dia". Ontem aprenderam mais uma palavra: "fado". Antes das seis da tarde, enquanto Miguel Araújo tocava no palco principal dos Nos Alive e Juana Molina ocupava o palco Sagres, este casal de ingleses aproveitou para ir espreitar o EDP Fado Clube, que é um dos palcos secundários do festival, e assistir à atuação do fadista Pedro Seabra. "Não estamos a perceber nada, mas estamos a gostar", admite Christine, de 26 anos. "É a primeira vez que ouvimos fado, não conhecíamos nada de música portuguesa." Nas curtas férias que estão a passar em Portugal, além de ir ao Nos Alive, Christine e Mark tencionam passear por Lisboa e ir à praia. Talvez se entusiasmem com esta experiência e decidam ir também a uma casa de fados. "Veremos", ri-se ela.

No palco estava Pedro Seabra, o cantor de 25 anos que se tornou conhecido quando, no final do ano passado, participou no concurso televisivo The Voice. "Este é um dos meus festivais preferidos. Venho sempre cá ver os outros músicos, por isso é bom estar aqui hoje no palco", confessou o jovem fadista que, depois de assistir ao concerto de António Zambujo, também naquele palco, ainda ficou no festival para ver os Arctic Monkeys.

A sala - porque este palco é uma sala, fechada, tentando imitar (vagamente) o espírito de uma casa de fados - tem lotação para 400 pessoas e embora não estivesse cheia, estava bastante composta. Lá dentro, com ar condicionado, e sob o olhar dos ícones do fado, cujas fotografias estão espalhadas pela parede (de Amália a Marceneiro), é possível esquecer, por meia hora, a confusão do festival.

"Claro que há sempre barulho e pessoas a entrarem e a saírem mas é um palco muito giro e cosy", comentava Pedro Seabra no final da sua atuação. Estava satisfeito. Nos dois sets que apresentou procurou mostrar um repertório que pudesse ser apelativo para todo o tipo de público. "Isto é um festival, não é o mesmo público de uma casa de fados", justificou. Além dos seus músicos habituais, Pedro trouxe o irmão, Salvador Seabra, baterista dos Capitão Fausto, para fazer a percussão, e ainda o teclista Tomás Franco, o que lhe permitiu fazer uns arranjos um pouco diferentes.

Além disso, interpretou dois temas em espanhol - algo que podemos esperar também no seu primeiro disco, que está neste momento a preparar. "Tenho família em Espanha e vivi lá cinco anos, por isso para mim é normal", explica, Quanto ao disco, que só deverá ser lançado no próximo ano, está a ser produzido pelo músico Diogo Clemente e será editado pela Sony.

Teresinha Landeiro já é uma repetente

Depois de Pedro Seabra e António Zambujo, no dia de ontem, hoje, a programação deste palco abriu com Teresinha Landeiro, uma jovem de 22 anos que, curiosamente, já é uma repetente: esteve aqui há dois anos, como convidada de Ana Sofia Varela. "Mas vir em nome próprio é sempre uma responsabilidade maior", comentava Teresa após o primeiro set. Porém, quem a viu a cantar, de sorriso nos lábios e mão na anca, a puxar pelo público, não notou qualquer peso na sua atuação. Teresinha começou a cantar fado aos 12 anos e é uma das artistas habituais na casa de fados Mesa de Frades, por isso sabe bem como enfrentar o público - mesmo que seja um público mais difícil, como é o do Nos Alive.

"Ainda pensámos que seria necessário cantar um fado mais conhecido, uma Lisboa Menina e Moça ou assim, mas não foi necessário. Praticamente só cantei canções do meu disco e correu muito bem, o público aderiu e isso deixa-me muito feliz", explica a fadista. O disco, lançado pela Sony há duas semanas, chama-se Namoro e é mesmo o culminar de um longo namoro de Teresinha com as letras que ela escreve desde a adolescência e com os fados (quase todos fados tradicionais, há apenas três músicas novas) que a acompanham desde sempre. "Ao princípio tinha uma certa vergonha de mostrar as minhas letras mas depois passou", conta.

Teresa ainda pensou seguir Medicina mas quando percebeu que para isso teria de ir para a Covilhã mudou de ideias e está atualmente a estudar Gestão em Lisboa: "Foi o momento em que eu percebi que não queria desistir da minha carreira no fado. Não sei como isto vai continuar, mas para já estou aqui." E está muito bem. Teresinha Landeiro vai voltar ao palco do Nos Alive às 19:25.

Pode ainda ver no EDP Fado Café
Sexta-feira:
20:50 e 22:35 - Buba
Amanhã:
17:30 e 19:10 - Marta Pereira da Costa
20:35 e 22:35 - Jorge Palma

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