"Os Sopranos": 20 anos depois da série vem aí o filme

A série da HBO estreou há precisamente 20 anos e revolucionou a ficção televisiva mostrando uma galeria de personagens "densas e ambíguas" lideradas pelo chefe da máfia Tony Soprano.

Há 20 anos, o mafioso Tony Soprano sentou-se pela primeira vez na cadeira do consultório da psicóloga Jennifer Melfi. Pai de família extremoso mas nem por isso muito fiel, Tony estava a ter dificuldade em lidar com a pressão de liderar uma organização criminal na New Jersey dos anos 90 ao mesmo tempo que mantinha as aparências nas festas da escola dos miúdos, ser responsável por murros, tiros, desvios e "lavagens" ao mesmo tempo que tinha os seus próprios traumas de infância mal resolvidos. Acabou por sucumbir ao stress e ser encaminhado pelo médico de família para aquele consultório psiquiátrico onde o encontramos no primeiro episódio da série Os Sopranos, exibido nos EUA na noite de domingo, 10 de janeiro de 1999.

Criada por David Chase e produzida pelo canal de cabo HBO, a série acabaria por se tornar um sucesso mundial. Teve seis temporadas, com um total de 86 episódios. O último foi para o ar a 10 de junho de 2007. Ao longo desses oito anos, a série ganhou 21 Prémios Emmy e 5 Globos de Ouro (incluindo o de Melhor Série Dramática), além das muitas nomeações e variadíssimos outros prémios. Em 2013, o Sindicato dos Argumentistas Americanos elegeu Os Sopranos como a série mais bem escrita de sempre. Em 2016, a Rolling Stone colocou-a entre os 100 melhores programas de televisão de todos os tempos.

20 anos depois, Os Sopranos ainda são notícia. Na quarta-feira, o elenco e restante equipa reuniram-se em Nova Iorque para celebrar o aniversário e um dos assuntos mais falados foi o filme que está a ser preparado: com o título The Many Saints of Newark, será uma prequela da série e a ação irá decorrer nos anos de 1960, explorando as tensões raciais entre os afro-americanos e os italo-americanos de New Jersey.

O ator Alessandro Nivola irá interpretar o papel de Dickie Moltisanti (daí, os "muitos santos" do título"), que será o pai do Christopher Moltisanti (na série interpretado por Michael Imperioli). Dickie foi o mentor de Tony Soprano e o seu nome é muitas vezes referido na série. No filme, que está a ser escrito por David Chase e será realizador por Alan Taylor (que, além de ter realizado alguns dos episódios da série original também tem a sua assinatura em episódios de Mad Man e A Guerra dos Tronos, por exemplo), Dickie Moltisanti será o protagonista. O jovem Tony Soprano também irá aparecer, embora a história não se centre nele.

A apagar as velas estiveram, por exemplo, Edie Falco (que interpretava o papel de Carmela, a mulher de Tony) e Lorraine Bracco (que fazia a psicóloga), assim como Michael Imperioli (Christopher Moltisanti), Tony Sirico (Paulie), Robert Iler (A.J.), Steven Van Zandt (Silvio Dante) e outros dos "mafiosos". Na reunião só faltou James Gandolfini, o ator que interpretou Tony Soprano e que morreu em 2013 com 51 anos.

Memórias de quem viu

Fernando Vendrell, realizador que tem neste momento em exibição na RTP1 a série 3 Mulheres, lembra-se bem de acompanhar todas as semanas Os Sopranos: "O que me impressionou foi a forma tão frontal como Tony Soprano, o protagonista, sendo uma personagem com detalhes bastante negativos e vil, se familiarizou com os espectadores", diz. "Nesse aspeto acho que a série criou um processo quase subversivo de identificação entre o espectador e uma pessoa - humana, sem dúvida - mas com princípios morais e sociais questionáveis. Acaba por ser um pouco vanguardista."

No seu ponto de vista a série "tem desempenhos notáveis e uma escrita fabulosa" e foi isso que fez com que passasse fronteiras, mas Fernando Vendrell acha "que essa pequena situação de subversão ligada ao personagem principal e aos personagens dos Sopranos foi um terreno ganho, muito forte, em sectores que nos EUA são às vezes muito moralistas, e onde [existe] a questão do politicamente correto. Nos tempos que correm quase que podíamos pensar que há um território nas séries que foi aberto por esta série, em que de repente estamos próximos de assassinos, serial killers, e dá-nos a entender de uma forma muito mais complexa o ser humano".

Também em Portugal estávamos, nessa altura, "a descobrir os nossos pequenos ladrões, os problemas ligados às autarquias, as pequenas corrupções... A série quando apareceu em Portugal começou a ter alguns laivos de verosimilhança com o país real como estava a despontar nos media e, portanto, percebemos todas estas manipulações", afirma o realizador.

Na sua conta de Instagram, o humorista e argumentista Nuno Markl deu logo de manhã os parabéns à sua série favorita: "Cada episódio é um filme, todos os episódios juntos são um romance, perfeito do primeiro ao último capítulo. É sobre máfia, mas é sobre nós - sobre famílias, sobre amor, ódio, ganância, sobre o quão perturbador somos enquanto espécie, sobre a humanidade analisada ao milímetro. E é tão cómica. E trágica. E, por vezes, assustadora", escreve.

O argumentista Nuno Artur Silva, ex-administrador da RTP, também é um dos fãs de Os Sopranos e considera que esta série "inaugurou o período de televisão de alta qualidade que vivemos até hoje": "Já havia, antes, sinais dessa ficção televisiva adulta de qualidade, por exemplo, nas produções britânicas, como Reviver o Passado em Brideshead, ou em projetos autorais de comédia, como os de Lucille Ball. Mas na ficção dramática isso era raro. Penso que a primeira vez que identifiquei essa marca autoral foi na série A Balada de Hill Street, de Steven Boscho. Com Os Sopranos, na HBO, começa, de facto, o domínio do argumentista sobre o produtor na televisão", explica.

"É um formato que não cede à formatação tradicional das séries. Com ele passamos da lógica do folhetim para a lógica do romance", diz Nuno Artur Silva. "Temos ali um anti-herói e personagens densas, ambíguas, com dilemas, que não têm aquela limpeza que é habitual na televisão." Na viragem para o ano 2000, enquanto o cinema americano caminhava para a progressiva infantilização, dominado pelo universo dos videojogos e dos super-heróis, "porque são as crianças e os jovens que saem de casa para ir ao cinema", explica, "a televisão, pelo contrário, tornava-se mais adulta", com cada vez mais projetos destinados a um público adulto e exigente.

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