O Homem-Aranha volta com espírito retro

O popular super-herói da Marvel está de regresso às salas de cinema portuguesas em versão animada, com muita energia, cor e engenho visual.

A margem para a imaginação já não é muito grande, mas ainda assim parece que se descobriu o que podia estar a faltar ao universo cansado e repetitivo dos super-heróis: tão simplesmente, um regresso às origens. Back to basics. Que é como quem diz, um regresso à linguagem característica da banda-desenhada, desde o traço visual à mensagem humana e inspiradora - esta que se foi esbatendo ao longo de tantas sequelas cinematográficas, para restar pouco mais do que o chamado entretenimento, recheado de ação. A cartada do novo Homem-Aranha: No Universo da Aranha está então nesta frescura q.b. do desenho animado que combina a sofisticação do digital com uns vestígios gráficos retro, claramente no intuito de satisfazer uma certa nostalgia de fã, e despertar a curiosidade dos mais novos.

Assinado por um trio - Bob Persichetti, Peter Ramsey e Rodney Rothman -, esta animação com selo Marvel devolve-nos à teia do aranhiço mais famoso de Nova Iorque para contar a história de Miles Morales, um adolescente que, tal como Peter Parker, foi picado por uma aranha radioativa e começa a ter os sintomas próprios da maleita... Acontece que, naturalmente, o seu caminho vai-se cruzar com o do "original" Spider-Man, mas também com uma trupe de "duplos" oriundos de outras dimensões, como a Spider-Woman Gwen Stacy, o cartoon Spider-Ham (ou Peter Porker), uma personagem de anime com um robot-aranha, e o avatar Spider-Man Noir (com a voz mais genial do elenco: Nicolas Cage). A missão do rapazinho de Brooklyn é portanto resolver a fratura espácio-temporal que gerou o encontro insólito destas personagens. Algo complicado, diga-se de passagem, para quem está ainda a adaptar-se aos seus novos e misteriosos poderes.

É nesta narrativa de iniciação que o filme se centra, com humor bem doseado aqui e ali, acabando o enredo por complicar-se no que toca aos preciosismos científicos. Aí reside o problema, que de resto é bastante comum: já quase não se consegue simplificar o sentido de uma aventura juvenil. Mas diga-se a favor deste Homem-Aranha, que a dinâmica e vibração colorida do desenho libertam uma criatividade que estava presa nos códigos cinzentos da imagem dita real (com muito de digital, claro). Aqui a técnica da animação permite fôlego e sensações visuais, um psicadelismo extraído das formas - nas cenas de ação -, que em tudo serve os propósitos da experiência do grande ecrã.

Estreado ainda no rescaldo da morte de Stan Lee, o criador do Homem-Aranha, o filme não podia deixar de lhe prestar uma simbólica homenagem. Seguindo a tradição dos seus cameos, a figura de cabelos brancos surge atrás do balcão da loja onde Miles Morales vai comprar um fato barato do super-herói. No momento de pagar, pergunta se o traje lhe servirá, ao que Lee responde com um sorriso sábio: "acaba sempre por servir"...

Homem-Aranha: No Universo da Aranha terá também uma versão dobrada, com vozes de, entre outros, Nuno Markl, Diogo Beja e Daniela Melchior.

** Com interesse

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