"Não é preciso ser moçambicano para ficar preocupado"

Selma Uamusse, cantora moçambicana radicada em Portugal, falou ao DN sobre Mão dada a Moçambique, iniciativa para recolher donativos para ajudar as vítimas do ciclone Idai. Na terça-feira, no Capitólio, em Lisboa, mais de 40 artistas dão um concerto.

Ao perceber a dimensão da tragédia vivida em Moçambique após a passagem do ciclone Idai, Selma Uamusse não podia ficar de braços cruzados e rapidamente foi perceber como podia ajudar. Foi perceber que instituições estavam no terreno, o que estavam a fazer, falou com elas. Pensou no que ia fazer e decidiu organizar um concerto. Rapidamente se associaram a ela artistas que contactou e outros que tiveram a iniciativa de a contactar. A gestão do Capitólio, em Lisboa, disponibilizou o espaço e a RTP, de parceiro que ia só publicitar o evento, passou a transmiti-lo. Assim nasceu em poucos dias a iniciativa Mão dada a Moçambique, que vai decorrer terça-feira, dia 2, naquele espaço da zona do Parque Mayer. O culminar do evento será um concerto, pelas 21.00, que junta mais de quatro dezenas de músicos, entre os quais Selma Uamusse, Conan Osíris, Salvador Sobral, Rodrigo Leão, Sara Tavares, Márcia, Dino D'Santiago, Cristina Branco, Luísa Sobral, Gisela João, Joana Alegre e Héber Marques.

"Ao longo dos anos em Portugal tenho feito muitas colaborações com muita gente e, mais do que isso, tenho muitas amizades no círculo musical. As pessoas que fazem parte deste cartaz, mais do que serem muito talentosas, mais ou menos conhecidas do que outras, são minhas amigas. Foi muito fácil juntar estas pessoas todas porque elas são todas minhas amigas. Mais do que um concerto de angariação de fundos é um concerto para dar voz às instituições que sei que estão a trabalhar em Moçambique e que, no fundo, nos dariam um pouco um parecer de como é que as coisas se podem fazer, não só agora, mas nos próximos tempos, na reconstrução e no apoio às populações na província de Sofala", disse este domingo ao DN Selma Uamusse, cantora natural de Maputo, com 37 anos, 31 dos quais passados em Portugal.

"Não tenho família na Beira, a família é toda da zona sul de Moçambique, entre Inhambane e Maputo. Há alguns que vivem no Chimoio, que foram ligeiramente afetados, por via da falta de eletricidade, de comunicações, mas nada semelhante ao que aconteceu às pessoas na Beira", especifica Selma Uamusse, que no ano passado, pela primeira vez em muito tempo, passou o Natal, altura em que faz anos, em Moçambique. A cantora lançou, em setembro de 2018, o seu último álbum, Mati, palavra que na língua changana significa água. Água - e potável - é talvez o bem mais escasso por estes dias na zona afetada pelo ciclone Idai. A falta dela leva à proliferação de muitas doenças. Na Beira, capital da província de Sofala, segunda maior cidade moçambicana, o grau de destruição foi calculado na ordem dos 90%. O número oficial de vítimas mortais adiantado pelas autoridades de Moçambique é, nesta altura, de 501. Mati, a música que dá o nome ao álbum, não é, porém, o tema que Selma Uamusse vai cantar. "Quis que este espectáculo não fosse muito centrado em mim. Vou cantar Hope, que é uma canção que fala sobre esperança, esperança para um país que tem sofrido tanto com tantas situações de fragilidade".

Selma Uamusse já organizou, no passado, outros concertos de solidariedade, como por exemplo um pela liberdade do ativista angolano Luaty Beirão, em novembro de 2015, outro pelas vítimas da guerra em Aleppo, na Síria, em dezembro de 2016. Além do concerto e do evento que será transmitido pelas várias plataformas da RTP, do Capitólio para o mundo, esta terça-feira, "ajudámos também a criar uma linha de chamadas de valor acrescentado e abrimos uma conta que é especial e é feita por via do Ministério da Administração Interna (MAI)". Houve aqui uma torrente de gente e de instituições que quiseram ajudar, nota a cantora, pois "as pessoas não querem ficar como meros espectadores do que está a acontecer em Moçambique" e "não é preciso ser moçambicano para ficar preocupado".

Os bilhetes para assistir ao concerto custam 20 euros, mas existem também os bilhetes-donativo, sem ir ao concerto, de 20 e 30 euros. Neste momento, indicou a cantora, já foram vendidos cerca de 600 bilhetes para ver o concerto numa lotação de 1000 lugares em pé no Capitólio. As organizações que vão beneficiar das receitas recolhidas em toda esta campanha são oito: AMI - Fundação de Assistência Médica Internacional, Cáritas Portuguesa, Cruz Vermelha Portuguesa, Médicos Sem Fronteiras, Associação HELPO, Fundação Girl Move, a ACRAS - associação cristã de reinserção e apoio social e a Iris Relief. Na terça-feira, ao longo do dia e à noite, estas organizações vão ter representantes "a explicar aquilo que estão a fazer, no terreno, em Moçambique. Quais são as diferentes avaliações. Todas elas têm espetros muito específicos. A Cruz Vermelha por exemplo tem maior capacidade do que outras mais pequenas como a Girl Move ou a HELPO. Todas as instituições estarão a dar a cara para explicar o que é que estão a fazer e todas elas assinaram uma carta de compromisso, que é pública, no sentido de uma gestão idónea que farão com as receitas que irão conseguir por via desta iniciativa Mão dada a Moçambique", realça a cantora, que está nomeada na categoria de Artista Revelação para a 1ª edição dos Play - Prémios de Música Portuguesa, entregues, dia 9, no Coliseu em Lisboa.

Selma Uamusse sublinha que a gestão dos donativos vai ser submetida a alguma auditoria independente. "Para além da conta que é propriedade do MAI, existe um auditor externo a esta iniciativa, que dá conta dos valores que são recebidos e da própria distribuição dos mesmos, sendo que todas estas instituições assinaram uma carta de compromisso e todas elas apresentarão relatórios sobre o que vão fazer com o dinheiro que for recebido. É uma iniciativa o mais transparente possível. Não passa por uma gestão minha. É feita por via desta auditoria e por via do MAI. Tentamos que seja um processo transparente e credível porque as pessoas, como é natural, têm questões em relação a saber como é que o seu dinheiro é utilizado e ficam, muitas vezes, inquietas com a utilização indevida que os seus donativos possam ter".

Questionada sobre se alguma relutância em ajudar tem que ver com a má imagem de que Moçambique gozava ultimamente por causa do chamado escândalo das dívidas ocultas, a cantora moçambicana pensa que não é só isso, pois poderá haver outras razões. "Eu acho que existe desconfiança sobre uma série de coisas, nomeadamente em relação a iniciativas que houve cá em Portugal, como as dos incêndios. Em relação a Moçambique, o que até se tem falado mais é num perdão de uma parte da dívida, em vez de injetar mais dinheiro no país. No que respeita em particular a este processo, Mão dada a Moçambique, na questão da transparência, nada tem que ver com processos fora desta iniciativa. Quer sejam processos cá em Portugal ou lá em Moçambique. Para mim, enquanto processo de vida, é essencial que as pessoas possam confiar. Daí que eu não tenha centralizado esta iniciativa num só músico ou numa só instituição. Gostava que as pessoas percebessem que têm várias opções de escolha e que, se vão fazer um donativo agora, se calhar podem continuar a acompanhar as instituições com que mais se identificam. Portanto, a transparência tem que ver com o meu caráter, com o caráter das pessoas que estão envolvidas comigo nisto, que desejamos ao máximo fazer bem mas de uma maneira que as pessoas possam confiar. Nós fazemos a nossa parte. Esperamos que as outras pessoas à volta também".

Selma Uamusse realça que há um longo trabalho a fazer na zona afetada pelo ciclone Idai em Moçambique, mesmo depois de os holofotes da imprensa, seja ela escrita, televisionada ou outra qualquer, se virarem para outras paragens. "É preciso garantir que a ajuda não vai sair, é preciso ter esperança num futuro melhor", afirma, sublinhando que esta a mensagem que quer passar.

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