Morreu a fadista que nunca deixou de cantar

A fadista morreu hoje aos 95 anos. Irmã mais nova de Amália Rodrigues, diz que nunca sofreu com a sombra da irmã. Tinha medo de morrer, mas sabia-o uma inevitabilidade. Então, "que seja o mais tarde possível"

"É com um enorme peso no coração, que vos dou a notícia da partida da minha Celestinha, da nossa Celeste. Hoje deixou uma vida plena do que quis e sonhou, amou muito e foi amada, mas acima de tudo, foi a pedra basilar da nossa família, da minha mãe, da minha tia, dos meus irmãos, sobrinhos e filhos, somos todos orgulhosamente fruto do ser humano extraordinário que ela foi", escreveu Diogo Varela Silva na rede social Facebook, remetendo para mais tarde informações adicionais.

A fadista Celeste Rodrigues, irmã mais nova de Amália, morreu esta quarta-feira aos 95 anos.

"Sou aventureira, gosto de saltar o muro e ver o que está do outro lado", dizia em abril de 2017 numa longa entrevista a Bernardo Mendonça, do Expresso, no podcast A Beleza das Pequenas Coisas. Talvez por isso, aos 94 anos tenha aceitado o convite de Madonna e foi passar o réveillon daquele ano a casa da cantora em Nova Iorque. A artista planetária conhecera Celeste Rodrigues na Mesa de Frades, em Alfama e juntas cantaram "Can't help falling in love" de Elvis Presley.

Esta foi uma das muitas aventuras da vida da irmã mais nova três anos de Amália Rodrigues. Uma relação que se fortaleceu tinha Celeste cinco e Amália oito anos, após o reencontro da família em Lisboa.

"Desde que me conheço, ouvi música"

Maria Celeste Rebordão Rodrigues nasceu em Alpedrinha, Fundão a 14 de março de 1923. Era a única sobrevivente de uma família de dez irmãos, cinco rapazes e cinco raparigas - das quais Amália era a mais velha. Aos 5 anos Celeste muda-se para Lisboa com a família. Fixaram-se inicialmente em Campolide, porque o pai tinha um contrato numa sociedade de recreio local. O pai tocava instrumentos de sopro - cornetim, saxofone, trompete. A mãe, cantava folclore da Beira - adorava a terra dela e nunca se adaptou à mudança. "Desde que me conheço, ouvi música", dizia na entrevista ao Expresso.

Nessa altura, Amália já vivia em Lisboa, com os avós. Foi o reencontro das irmãs (Amália deixara o Fundão, tinha Celeste ano e meio) e a partir daí andaram sempre juntas. Celeste reconhece que as irmãs eram parecidas, embora com sensibilidades diferentes. Garante que não sofreu com a fama da irmã: "nem ela se preocupou nunca em ser a minha sombra nem eu em ser uma sombra dela", disse na mesma entrevista.

Começou a trabalhar aos nove anos. Foi contra a vontade dos pais mas Celeste quis ajudar a família. Primeiro empregou-se numa fábrica de conservas, seguiu-se uma de bolos e, depois o Mercado da Ribeira, onde já trabalhava a mãe, a vender fruta que chegava do Fundão. Estive na Ribeira até aos 12 anos. Trabalhava numa banca de artesanato, porque falava inglês, que aprendera com um amigo do pai. Tal como a irmã, apenas fez a instrução primária.

Veja aqui a vida de Celeste em fotos:

Começou a cantar fado aos 22 anos, já Amália cantava há seis anos. Foi na Adega Mesquita, no Bairro Alto, onde havia fado aos sábados ao almoço. As irmãs Rodrigues eram presença assídua. Celeste acabaria por vencer a timidez e, um dia, alinhou numa desgarrada: "lá cantei uma quadra". Estava lá o empresário de Amália, Zé Miguel, dono do teatro ABC no Parque Mayer (que naquela altura se chamava Casablanca), que a contratou.

Celeste diria que nunca sonhou ser artista. "Aconteceu-me tudo de improviso". Depois de ter sido apanhada na desgarrada da Adega Mesquita, foi aprender a cantar com a guitarra, para saber os tons. Estreou-se no Casablanca, com um empurrão para entrar no palco e vencer a timidez. Teve a irmã como madrinha e a casa cheia. "Ela tinha uma voz ótima fantástica, a minha [voz] não é desagradável, deixo dormir toda a gente, é meiguinha", disse ao Expresso.

Em 1945 foi para o Brasil. Fez um papel na revista Bossa Nova e na opereta Rosa Cantadeira, nas quais entrava também a irmã Amália. Por lá andaram um ano. Na década de 50 regressaria ao Brasil, onde atuou na rádio, na televisão e no restaurante de Tony de Matos.

Veja o vídeo da homenagem aos 90 anos:

Nos anos 50 grava o seu maior êxito, Olha a Mala. "Deixei de ser a irmã da Amália. Passei vai ali a Olha a Mala", diz na mesma conversa. Foi um enorme sucesso durante mais de uma década. Entre a sua discografia de mais de 60 discos.

Cantou 12 anos na Parreirinha de Alfama, dez na Taverna do Embuçado. Chegou a ter uma casa de fados com Varela Silva (A Viela), que deixou ao fim de quatro anos.

"O fado não se pode explicar, sente-se"

O primeiro grande amor foi aos 17 anos com o cavaleiro tauromáquico José Casimiro. Chegaram a viver juntos mas, prestes a casar, zangaram-se separaram-se. Nessa altura conheceu Varela Silva. O ator incitava-a a retomar a anterior relação mas acabariam por se casar, tinha Celeste 32 anos. Tiveram duas filhas. Separar-se-iam mais tarde (Varela Silva casou-se depois com Simone de Oliveira). Celeste teve três netas, um neto e quatro bisnetos - uma casa sempre cheia, dizia a fadista.

O neto Diogo Varela Silva, realizador, é seu admirador assumido. Em 2016 realizou Fado em Si, um musical em fado, com Kátia Guerreiro, Camané e a avó, Celeste Rodrigues, rodado em Alfama. Mas este é apenas um dos trabalhos que dedicou ao fado. Em 2010 assinara o documentário Fado Celeste, sobre a avó, que estreou no Doc Lisboa 2015, assinalando os 70 anos de carreira da fadista. "O fado não se pode explicar, sente-se", disse a avó filmada pelo neto.

Em 2005 aceitou o desafio do encenador Ricardo Pais e subiu ao Palco do Teatro Nacional São João, no Porto, no espetáculo Cabelo Branco é Saudade, espetáculo sobre fado, onde interpretou Meu Corpo, de Ary dos Santos. A Bernardo Mendonça disse "cantar torna as pessoas mais bonitas".

Em junho de 2012 recebeu o grau de Comendadora da Ordem do Infante D. Henrique das mãos de Cavaco Silva.

Nunca parou de cantar e, aos 78 anos, descobriu a pintura numa noite de insónia,

Gostava de ver montras, de se arranjar e de comprar roupa. Reconhecia em conversa com Maria José da Costa Félix ser "um bocadinho coquete", no livro Envelhecer sem Ficar Velho (Oficina do Livro, 2013).

Foi uma das primeiras fadistas a internacionalizar-se e era a fadista portuguesa há mais tempo no ativo. Continuava a cantar com regularidade no Café Luso, no Bairro Alto. Na Mesa de Frades, outra casa de fados lisboeta, em Alfama, conhecera Madonna, com quem cantou numa sessão em dezembro de 2017. Nesse ano, a cantora americana, acabada de se mudar para Lisboa, convidaria Celeste Rodrigues para passar o ano na sua casa em Nova Iorque. Celeste atravessou o oceano para a festa, aos 94 anos. "Não gosto de morrer, mas reconheço que todos temos de morrer", disse a Maria José da Costa Félix. "Já que não há hipótese de lhe fugir, que seja o mais tarde possível!"

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