Morreu Agustina Bessa-Luís, a escritora que marcou a nossa literatura

O anúncio da morte da escritora Agustina Bessa-Luís não surpreendeu pois os últimos anos da sua vida foram vividos em suspenso da realidade devido à doença que a afetou. O funeral é esta terça-feira.

A primeira palavra que vem à cabeça quando se recorda Agustina Bessa-Luís é "escritora". Depois, é impossível não se pensar em "Porto". A seguir "Sibila", o seu terceiro livro, no qual a protagonista tem o dom de influenciar a vontade dos que a cercam. Quase que se poderia dizer desta capacidade da personagem que se assemelha à da própria escritora, já que a ninguém passava despercebida tal era o modo como a sua personalidade se impunha em qualquer espaço.

Agustina Bessa-Luís morre aos 96 anos, a meia centena de quilómetros da Vila Meã que a viu nascer a 15 de outubro de 1922, depois de ter assistido e participado em muitos acontecimentos das últimas décadas da sociedade portuguesa. Tal como acontecia no romance Sibila, onde ao narrar grande parte de um século da história do país, 1850 a 1950, uma época que se tornava um arquivo de factos que lhe proporcionaram muitas histórias da História. Que desfazia qualquer parecença com o título da sua primeira obra de 1948, a novela Mundo Fechado, porque, apesar de muito do seu mundo se situar em grande parte no cenário do Douro e do Minho, abriu-o a narrativas fascinantes como seria As fúrias (1977), a contos em A Brusca (1971), a romances históricos como A Monja de Lisboa sobre Maria da Visitação (1985), a biografias como a de Santo António (1979) ou Marquês de Pombal (1981), a ensaios como os de Dostoievski e a peste emocional (1981) ou Camilo e as circunstâncias (1981), a várias peças enquanto dramaturga como Garrett: O eremita do Chiado (1998), a oito adaptações ao cinema por Manoel de Oliveira e uma de João Botelho, a autobiografia O Livro de Agustina (2002), o relato de viagem Embaixada a Calígula (1961) e ainda na literatura infantil, como Dentes de rato (1987), entre outros títulos em cada um destes géneros.

O estilo de Agustina pertencia, segundo classificava o pensador Eduardo Lourenço, à corrente neo-romântica, em muito influenciado pela obra de Camilo Castelo Branco. Mas a sua vida também continha inúmeros episódios que rivalizavam com as invenções daquele escritor, afinal o seu pai deixara a família de lavradores e com 12 anos de idade emigrara para o Brasil. Aí, fez fortuna, tendo regressado e iniciado uma vida profissional nas áreas do espectáculos e do jogo que também inspiraram a escritora. Por seu lado, a mãe descendia de uma espanhola de Zamora. Como os pais mudavam de residência frequentemente, Agustina encontrou a paz na infância e na adolescência nas férias que passava na região do Douro, na casa do avô, que tinha uma boa biblioteca. Grande leitora dos clássicos franceses e ingleses, rapidamente o romance a seduz, sendo que se dedica às experiências na escrita ainda muito nova. Designadamente com dois romances em que usa o pseudónimo de Maria Ordoñes, intitulados Ídolo de Barro e Deuses de Barro.

Também no casamento a sua vida é diferente, pois casa em 1945 com o homem que lhe respondera a um anúncio que pusera no jornal em busca de uma pessoa culta para se corresponder. Como Alberto Luís estuda Direito em Coimbra, viverão aí alguns anos, mais três em Esposende e depois, para sempre no Porto.

Tão diferente da maioria dos autores nacionais, também o foi no ritmo de publicação, pois era raro o ano em que não editava um ou mais livros. A sua longa obra faz a escritora receber a maioria dos importantes prémios literários nacionais para as obras, o primeiro, Delfim Guimarães, em 1953, e o último, o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores, em 2001, a par de mais treze distinções. Enquanto escritora também ganhou vário prémios, o primeiro em 1975, o Adelaide Ristori, do Centro Cultural Italiano de Roma, e o mais recente, em 2005, no Festival Grinzane de Cinema, em Turim, entre outros seis entretanto.

Além da literatura, a autora pertenceu ao conselho diretivo da Comunidade Europeia de Escritores em 1961 e 1962, foi diretora do jornal O Primeiro de Janeiro entre 1986 e 1987, responsável pelo Teatro Nacional D. Maria II entre 1990 e 1993, e membro da Alta Autoridade para a Comunicação Social, além de pertencer às academias de Ciências, Artes e Letras de Paris, da Brasileira de Letras e das Ciências de Lisboa.

Como que num coroar da sua carreira, em 2004, foi-lhe concedido o Prémio Camões. Justificação: "o júri tomou em consideração que a obra de Agustina Bessa-Luís traduz a criação de um universo romanesco de riqueza incomparável que é servido pelas suas excepcionais qualidades de prosadora, assim contribuindo para o enriquecimento do património literário e cultural da língua comum".

A escritora estava desde julho de 2006 ausente da vida pública devido a questões de saúde. Antes, publicara o seu último livro: A Ronda da Noite. Uma coisa é certa, sem Agustina Bessa-Luís, a literatura portuguesa ficou hoje muito mais pobre.

O funeral da escritora sai esta terça-feira, às 16:99, da Sé Catedral do Porto para o cemitério do Peso da Régua, Vila Real, onde decorrerá uma cerimónia privada, revelou hoje o Círculo Literário Agustina Bessa-Luís.

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