Histórias de LX. "Este espetáculo é um grito dos lisboetas"

Os turistas, a gentrificação, os despejos, os buracos na rua, as promessas vãs dos políticos - está tudo em "Histórias de LX" , espetáculo do Meridional que se estreia esta quarta-feira no Teatro São Luiz

Há senhoras à janela e terraços solarengos, há esplanadas com turistas e sem-abrigo que dormem num banco de jardim, há ratos, varredores de rua, empregadas domésticas, jovens que vão para os copos, turistas que arrastam os seus trolleys pela calçada portuguesa, restaurantes chiques e políticos em campanha, travestis, pedintes e turistas, já disse que há turistas?, casas para arrendar e para vender, velhotes que são despejados, gente a fazer running, gente que vai com pressa para o trabalho, bicicletas e trotinetas, buracos na rua e despedidas de solteira, o rio, os elétricos e turistas à procura do sinal de GPS. Lisboa, ela mesma, está no palco do Teatro São Luiz a partir desta quarta-feira, com o espetáculo Histórias de LX, do Teatro Meridional.

A ideia surgiu há mais de dois anos quando o grupo sediado em Marvila começou a sentir os primeiros efeitos da gentrificação no seu bairro e faz ainda mais sentido hoje em dia, explica a encenadora, Natália Luiza: "Vivemos em Lisboa um processo acelerado de gentrificação e hoje em dia muitas pessoas já têm um relação de profunda ambivalência com a cidade, porque gostam da cidade mas está a tornar-se insuportável viver aqui, isto está a ultrapassar-nos", lamenta.

Ao longo de 1 hora e 25 minutos passam por aquele palco 125 personagens - tal como os 125 anos que o Teatro São Luiz está a celebrar. São pequenos piscares de olho, como explica Miguel Seabra, codiretor do Meridional, mas que não pretendem desviar a nossa atenção do que é realmente importante: este é um espetáculo sobre Lisboa e é também um alerta, para os políticos, antes de mais, e para todos os que aqui moram. É, se quisermos, um espetáculo político: "Temos, de facto, um ponto de vista e queremos que seja claramente expresso", diz Natália Luiza. "As pessoas têm muito medo de falar, há uma cultura de excesso de compromisso, mas nós queremos dizê-lo aqui: há uma identidade da cidade que é preciso conservar, contrariamente aos valores económicos. A economia não pode ser o motor de tudo isto, é vital que as pessoas se sintam bem a habitar a cidade que é delas, e isso começa a não acontecer." O dinheiro que a cidade ganha com o turismo é importante mas não pode valer tudo, defende.

"Há duas Lisboas. Há uma Lisboa que hoje é no rés-do-chão das avenidas, que tem a ver com design, que tem a ver com lógicas estéticas e alimentares, e uma outra Lisboa, envelhecida, que cria outro nível no espetáculo, nos andares de cima, que é para transformar, que não foi suficientemente cuidada, e que é para alugar, e sobretudo para pôr os habitantes de Lisboa fora dela", diz Natália Luiza. É isso mesmo que se vê no palco, com cenografia de Marta Carreiras: no plano térreo encontram-se as várias divisões de um restaurante, enquanto em cima habitam personagens, algumas idosas, que recebem notificações de despejo enquanto nas varandas são colocados letreiros de agentes mobiliários.

Numa cidade que se reconhece pelo sons dos sinos e dos elétricos, das águas do Tejo, dos pratos e dos copos nos restaurantes e do frenesim das pessoas na rua, também se ouve fado (e convém aqui sublinhar o trabalho de Rui Rebelo, que criou a música original e o espaço sonoro) e as muitas personagens são facilmente identificáveis: os jovens com os olhos enfiados nos telefones, o paquistanês que vende flores, a velhota que está à espera do autocarro, os chineses que vêm comprar casas, o agente imobiliário com a sua lábia... "Se há coisa que eu não tenho medo, contrariamente à maioria dos criadores, é dos estereótipos", garante Natália Luiza. Também por lá andam Fernando Pessoa com os seus heterónimos, uma Severa dos tempos modernos e uma Maria José Povo que mais não é do que uma versão feminina do Zé Povinho.

"Este espetáculo é um grito dos dos lisboetas", diz Natália Luiza. É como se o Meridional estivessem a pedir às pessoas para levantarem os olhos dos seus telemóveis e olhassem à sua volta. E já que não o fazem normalmente, então que venham fazê-lo ao teatro. E, depois, que tomem alguma atitude. "Este não é um espetáculo pessimista. Falar das coisas não é pessimismo", considera a encenadora. "Pessimismo é quando se desiste, quando já não vale a pena dizer nada."

Histórias de LX
do Teatro Meridional
Dramaturgia e encenação: Natália Luiza
no Teatro São Luiz, Lisboa
De 5 a 16 de junho
de quarta a sábado às 21.00, domingo às17.30
Conversa com os artistas, domingo, 9 de junho, depois do espetáculo
Bilhetes: de 12 a 15 euros

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