Graça Fonseca: "Não estava a criticar a comunicação social"

A ministra da Cultura esteve no México em representação de Portugal como país convidado da mais importante Feira do Livro da América Latina. Ao DN explicou a polémica afirmação sobre os jornais portugueses.

As primeiras notícias sobre a nomeação de Graça Fonseca para a pasta da Cultura previam que seria uma ocupação provisória até ao fim do mandato do XXI Governo de António Costa, mas ao DN a ministra é clara ao afirmar que pretende continuar no cargo se o PS ganhar as próximas eleições e o primeiro-ministro quiser: "Estou a trabalhar na perspetiva de continuar. Claro que sim."

É a ministra mais polémica entre os que entraram na última remodelação surpresa e é capaz de ser notícia tanto por causa de duas palavras apenas - "valores civilizacionais" - como por quatro segundos, aqueles em que no sábado revelou durante a estada no México que não lera os jornais portugueses nos "últimos quatro dias"e desse modo desconhecia os episódios mais recentes do dossier "touradas".

Ao DN, a ministra que tutela a comunicação social justificou a afirmação de Guadalajara referindo que "não estava obviamente a criticar a comunicação social mas a responder a uma pergunta sobre touradas". Considera que tal não acontecera "pela primeira vez no contexto da Feira de Guadalajara, onde queremos chamar a atenção para os livros" e conclui que "deduzir uma crítica do recurso à ironia e do facto de não dispor ali de jornais em papel é claramente exagerado".

A presença de Portugal enquanto país convidado da Feira do Livro de Guadalajara custou cerca de um milhão e oitocentos mil euros e foi inaugurada por Graça Fonseca. Será encerrada por António Costa, que passará o testemunho à Índia, o próximo país convidado.


A delegação portuguesa leva à Feira de Guadalajara 40 "escritores". Temos assim tantos e tão bons autores ou é para compor a fotografia?

A delegação não traz apenas escritores e ao falar-se dos que vieram ao México temos de compreender que os convites respeitam o modelo de organização desta presença de Portugal como país convidado. Que parte da escrita e da palavra para outras manifestações culturais importantes para o país e que se alimentam também da palavra para as suas formas de expressão. É o caso da exposição de Almada Negreiros, que é um bom exemplo de um criador que passou pelas diferentes formas artísticas, entre as quais a escrita.

Quanto aos 40 "escritores"...

Olhando para esta embaixada de escritores vemos que combina os mais consagrados e outros em vias de consolidação ou com alguma projeção internacional, o que mostra a reinvenção extraordinária dos autores portugueses que são muito apreciados fora do nosso país. Ou seja, pode dizer-se que temos mais de 40 e do que sei nem foi fácil chegar a esta lista final.

Quem visitar a mais importante livraria do centro de Guadalajara só encontra um título de José Saramago e mais nada de portugueses. Isto vai ser alterado com a presença nesta Feira do Livro de Guadalajara?

É o objetivo, que pode não acontecer no prazo de um ano, mas a internacionalização da cultura é uma aposta que deve ser feita de uma forma consolidada e a médio e longo prazo. Temos de dar apoio à tradução porque é fundamental e no caso da FIL ele verificou-se no caso específico dos autores que participam para que possam entrar nos mercados da América latina e se possível nos norte-americano e canadiano. Esta aposta é muito importante para daqui a dez anos se encontrarem mais livros de autores portugueses noutros países. Muitas vezes olha-se para a Cultura como se fosse uma situação específica e não comparável a outras áreas, mas se pensarmos o que foi feito no setor do vinho os resultados estão à vista pois já não estamos perante a inexistência dos nossos vinhos nas lojas de todo o mundo. E podemos comparar vinho e literatura porque são ambos de grande qualidade em Portugal, o que mostra que a estratégia tem de ser transversal e consistente. Temos de assumir que é a médio prazo que tal se vai concretizar e que a aprovação em 2017 de uma proposta para uma ação cultural externa que cruza diferentes áreas dos ministérios da Cultura, dos Negócios Estrangeiros e da Educação, vai nesse sentido.

"Transversal" é um slogan do primeiro-ministro e o seu parece ser o de médio e longo prazo. O seu mandato termina em menos de um ano, no entanto fala como se fosse sua intenção manter-se na pasta?

É preciso primeiro que as pessoas votem e que o próximo governo seja do PS, pois não estou a pensar mudar de partido. Também depende do primeiro-ministro, mas o que tenho dito é que fará sentido realizar este trabalho sob duas perspetivas: a de procurar resolver agora o que há por fazer e concretizar em 2019 o que já está em curso; quanto ao mandato que tenho, ele é claramente o de preparar o futuro.

O que quer dizer isso?

Quando digo que temos de pensar as políticas públicas de Cultura a dez ou vinte anos é porque acredito firmemente que em qualquer área os objetivos só se concretizam com este horizonte temporal. É o que qualquer entidade pública ou privada faz e deve ser o caso deste ministério também.

O Ministério da Cultura já vai no terceiro ministro neste Governo. Acha que se interromper esta convulsão no ministério e se o PS ganhar as eleições será possível poder lançar as bases que quer para o futuro?

Tem aí muitos "se", mas eu respondo... Independentemente do que venha a acontecer nas eleições e no Governo, de eu ser ministra ou não, há algo que eu farei sempre enquanto ocupar esta posição. Isto é, conseguir preparar já o que queremos fazer e o que seria desejável é que consigamos nos próximos oito meses construir uma estratégia que diga para onde é que vai a Cultura nos próximos dez ou vinte anos. É o caso do apoio às artes e aos autores, da internacionalização, do que queremos como modelo para a relação entre o público e o privado e qual o papel do mecenato. São várias áreas a ser pensadas e estruturadas, sendo que tudo isto deve ser feito independentemente das pessoas que estão hoje nos lugares - e em Portugal pensamos sempre muito nas pessoas. Já estou em funções políticas há vinte anos, já acabei muitos projetos e deixei outros por fechar por causa dos ciclos, mas procurei sempre que o que fica feito e planeado para ser concretizado, seja por mim ou por qualquer outra pessoa. É o meu objetivo e estou a trabalhar na perspetiva de continuar. Claro que sim.

Quer dizer que já existe um pacto com os outros partidos para avançar com essas estratégias?

Não, não há pacto com outros partidos, lá chegaremos a seu devido tempo após as eleições. A continuar como anteriormente, cada um dos partidos vai ter o seu programa de governo e apresentar-se aos eleitores com as suas propostas. O que falo não tem a ver com pactos, basta olharmos para a Cultura e vemos que existem aqui várias áreas e atores; há o teatro, o cinema, os museus, os direitos de autor, a comunicação social. A Cultura é um conjunto alargado e diversificado de áreas de atuação de políticas pública e todas elas enfrentam desafios muitos deles comuns, como é o caso daquilo que as novas gerações querem consumir na cultura. Que oferta conseguimos construir para trazer mais pessoas novas ao teatro ou a ver uma exposição? Isso é algo que temos de pensar já. É preciso começar a preparar os novos públicos que são transversais a diferentes áreas da cultura. Não é uma questão de pacto ou de opções com partidos, antes trabalhar com os vários setores e sentar à mesa para imaginar o cinema daqui a dez anos e o que vamos fazer. Esta é uma pergunta para a qual devíamos ter resposta.

Vai conseguir essas respostas sem ser a troco de subsídios?

Todas as áreas são subsidiadas. Na Cultura fala-se muito de subsídios e acabamos por desvirtuar essa linguagem, mas a Saúde também é subsidiada e a Educação e ninguém fala disso. Há muita perceção social dos subsídios em relação à Cultura, no entanto cada vez que se vai a um hospital público e quer-se ser bem atendido ninguém diz que o Estado está a subsidiar aquele hospital. É preciso desconstruir esse discurso, pois haverá sempre investimento público nas políticas culturais. É um papel decisivo e fundamental o do setor do Estado nas diversas áreas culturais, como tem sido até agora e devemos continuar até ir além do famoso 1% para a Cultura. Se quisermos atrair mais privados para fazerem parcerias culturais é importante trazê-los pela parte financeira mas também porque estamos a alargar os públicos. O Estado tem de ser o pioneiro a dizer o que é importante e dar um sinal de que está a apoiar.

Então o Museu Nacional de Arte Antiga vai ter direito à sua autonomia financeira?

Um dos projetos que está sobre a mesa é o da autonomia dos museus, mas tenho dito que é importante calibrar expetativas porque o que estamos a trabalhar - e os diretores dos museus sabem-no - é num regime que não implica alterações ao quadro legal. Podemos caminhar para um modelo diferente, e esta é uma das áreas em que ter pensamento estratégico a médio e longo prazo é importante, olhar bem a organização e gestão dos museus e dos monumentos nacionais. Neste momento não vamos mudar a lei, apenas fazer uma alteração legislativa que permita aos responsáveis terem disponibilidade para gerir receitas e despesas com autonomia face à Direção Geral que hoje em dia não têm. O Museu Nacional de Arte Antiga é um bom exemplo de como por vezes se pode reclamar da falta de verbas mas também se pode ser criativo e pensar em formas diferentes de encontrar meios, como foi a aquisição por crowdfunding do quadro de Domingos Sequeira. Esse foi um bom teste para perspetivar formas alternativas de financiamento e, mais importante, alargar a rede porque com esse processo houve muitas pessoas que se mobilizaram e muitas delas sem relação direta com o museu.

Temos tido uma ausência de discurso em relação à cultura além de frases panfletárias sem concretização. Está a dizer que vai criar um discurso para a Cultura?

Não tenho essa perspetiva tão negativa, apesar de tudo o Governo tem tido um discurso claro sobre a Cultura, desde logo a começar pelo primeiro-ministro. Ao longo destes três anos e com tudo o que foi possível alargar no investimento público na Cultura não se pode ter essa visão tão negativa. Dito isto, acho que há algo que é muito importante e não é o criar discursos, embora sejam muito importantes hoje em dia porque sem uma boa comunicação não se percebe a forma como nos apresentamos numa área governativa. Temos de construir uma política em que se juntem os vários agentes e atores numa direção, mas não temos de concordar em tudo. Provavelmente numa área como o cinema, é um exemplo apenas e porque é a mais fragmentada, nunca vamos concordar em tudo nem os intervenientes aceitarão uma determinada abordagem. Mas temos pelo menos de concordar para onde é que queremos ir? Se o conseguirmos, encontraremos forma de arranjar equilíbrios e fazer com que todos se sintam um pouco parte desta estratégia.

Neste Governo poucas pessoas cunharam uma frase como a sua dos "valores civilizacionais". Essa frase não uniu, desuniu. Arrepende-se de a ter dito ou é mesmo a sua opinião?

Antes de mais é preciso perceber que não é só a minha posição, também é a do Governo. É importante realçar que a proposta que estamos a discutir estava entregue bastante antes de eu tomar posse e o que causa tanta celeuma é algo que esteve bastante tempo à disposição de todos. Por outro lado, não vamos concordar todos sempre e eu sei que vou ter posições e pontos de vista onde não vai ser possível que todos os artistas das diferentes áreas apoiadas pela DG Artes e todos os interessados se revejam e nem entre eles próprios haverá entendimento. Isso faz parte do processo, mas há uma coisa nessa frase que é muito importante: cada um saber onde é que está. Porque de alguma maneira sinto-me bastante confortável nesta posição - que é a do Governo - e que é partilhada. É muito importante cada vez mais as pessoas saberem o que é que cada um de nós defende e porquê? Das coisas mais dramáticas que temos assistido nos últimos é a não tomada de posição. Pelo menos as pessoas sabem que na minha perspetiva todas as políticas públicas têm na sua base valores civilizacionais, sempre foi assim na história. Quem disser o contrário, ou está a mentir ou não sabe o que são políticas públicas.

Já alguma vez foi a uma tourada?

Não.

Mas o primeiro ministro já foi.

Naturalmente, mas se me pergunta se já estive de estar presente em momentos de representação institucional aos quais não iria como cidadã, respondo que sim. Quem anda em funções públicas e governativas certamente o terá feito, faz parte.

A questão dos valores civilizacionais também pode ser utilizada na literatura?

Sim.

Estamos a produzir boa ou má literatura?

Não sou a melhor avaliadora de qualidade, já aprendi que nas artes há outra frase: os gostos não se discutem. Se eu disser o nome de alguém, aí sim poderia ser acusada de estar a fazer um consulado do gosto, uma coisa que não estou nem me passa pela cabeça fazer. Evidentemente que tenho as minhas preferências, mas essas qualquer pessoa tem. Pessoais, não como ministra. Considero que a literatura que estamos a fazer é muito boa e o espelho da evolução social, económica e política e, na verdade, civilizacional. Hoje os nossos autores têm, naturalmente, uma abordagem na forma como fazem ficção, contam uma história ou fazem uma biografia, de uma forma diferente do que há vinte anos. Mas se há algo que me parece muito estável, é termos uma qualidade de escrita muito boa ao longo de várias gerações. Há um aspeto importante a realçar, que é a perceção de olhar-se para as novas gerações como desinteressados e não querendo estar ligados à forma como a sociedade se organiza e como participam na Cultura, mas em Portugal temos pessoas muito novas a surgirem com qualidade e destaque nacional e internacional na literatura, no cinema, no bailado ou nas artes visuais. É uma dimensão de que nos podemos orgulhar, mas temos de puxar mais por ela. Não podemos manter essa característica muito portuguesa de que precisamos que os outros nos reconheçam primeiro fora do país.

Disse em Guadalajara que é preciso mais intervenção política por parte dos escritores. Estão muito moles?

É em relação aos artistas em geral. O que quis dizer é que os atores da cultura nem sempre se preocupam com o impacto político, económico e social. O impacto político das manifestações culturais e do posicionamentos de escritores, programadores e realizadores, ao longo da história de diferentes países foram momentos decisivos para alterar o rumo das circunstâncias e isso é algo que temos de recordar. Precisamos que quem cria ou programa não perca essa dimensão de que tem poder para contribuir para mudanças, especialmente numa era em que vivemos populismos e restrições de liberdade. Almada Negreiros é um bom exemplo pois nas alturas mais difíceis teve um papel fundamental.

A embaixada portuguesa ao México não tem comparação com iniciativas recentes, designadamente em relação a lusofonia...

O próximo ano é fértil em ações culturais externas e a partir de Guadalajara temos melhores condições para trabalhar a forma de colocar os nossos autores no grande mercado da lusofonia.

Tem preferência por alguma das áreas que tutela?

Como diz o primeiro-ministro hoje o politicamente correto é ser incorreto politicamente, portanto vou fazê-lo. Há áreas enquanto cidadã de que me sinto mais próxima e entusiasmam-me mais, mas neste momento todas as áreas têm a mesma prioridade.

O livro vai morrer?

O livro vai continuar independentemente dos ministros da Cultura.

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