Estreias. Cinema revisita memórias dramáticas da América

Foi um dos grandes acontecimentos do último Festival de Cannes: "BlacKkKlansman", de Spike Lee, um fresco sobre o racismo nos EUA, chega esta semana às salas portuguesas

A imagem do cinema americano como uma colecção de super-heróis alimentados a efeitos especiais continua a ser muito poderosa. E enganosa. Na verdade, muitas vezes são os próprios agentes directa ou indirectamente ligados à produção dos EUA que gastam rios de dinheiro a promover os seus "blockbusters" (melhores ou piores, não é isso que está em causa), ao mesmo tempo que investem pouco ou nada em filmes realmente diferentes.

Esta semana, temos dois significativos exemplos da fascinante variedade da produção "made in USA". Aliás, um deles, o novo filme de Spike Lee, fica, desde já, como um dos acontecimentos maiores de todo o ano cinematográfico.

BLACKKKLANSMAN - Distinguido com o Grande Prémio de Cannes, o filme de Spike Lee baseia-se no caso verídico de Ron Stallworth, o primeiro detective afro-americano da polícia de Colorado Springs que, em 1979, se "inscreveu" no Ku Klux Klan. Aquilo que começa por ser uma crónica sobre uma América "distante", ferida por muitas componentes racistas, acaba por se transfigurar num épico cujas linhas de força ressurgem no nosso tempo presente, quer dizer, nos cenários do país a que preside Donald Trump. O modo como Lee integra tais elementos numa narrativa plena de subtileza e invenção faz também de BlacKkKlansman um novo e admirável capítulo de uma filmografia em que encontramos títulos tão marcantes como Não Dês Bronca (1989), Malcolm X (1992) ou Verão Escaldante (1999).

MULHER QUE SEGUE À FRENTE - Eis um filme capaz de ilustrar a urgência com que muitas actrizes (americanas e não só) têm procurado personagens genuinamente femininas, distantes de clichés dramáticos ou de género: Jessica Chastain interpreta Caroline Weldon (1844-1921), pintora que retratou os índios Sioux e, em particular, e lendário Touro Sentado. Realizado pela britânica Susanna White, este é um filme obviamente desequilibrado na sua estrutura dramática, mas com o mérito de sublinhar a importância de revisitar a história do Oeste americano também para lá dos seus lugares-comuns. Nesta perspectiva, pode dizer-se que o filme consegue estabelecer uma curiosa linha de contacto com os "westerns" críticos dos anos 60/70, nomeadamente os de Sam Peckinpah.

Registe-se ainda a estreia de duas produções luso-brasileiras - Joaquim, de Marcelo Gomes, e Vazante, de Daniela Thomas -, evocando histórias dos séculos XVIII e XIX, respectivamente. Isto sem esquecer que, na Cinemateca, continua a decorrer a primeira parte da grande retrospectiva de Jean-Marie Straub e Danièle Huillet.

Ler mais

Premium

Ruy Castro

À falta do Nobel, o Ig Nobel

Uma das frustrações brasileiras históricas é a de que, até hoje, o Brasil não ganhou um Prémio Nobel. Não por falta de quem o merecesse - se fizesse direitinho o seu dever de casa, a Academia Sueca, que distribui o prémio desde 1901, teria descoberto qualidades no nosso Alberto Santos-Dumont, que foi o verdadeiro inventor do avião, em João Guimarães Rosa, autor do romance Grande Sertão: Veredas, escrito num misto de português e sânscrito arcaico, e, naturalmente, no querido Garrincha, nem que tivessem de providenciar uma categoria especial para ele.

Premium

João Taborda da Gama

Le pénis

Não gosto de fascistas e tenho pouco a dizer sobre pilas, mas abomino qualquer forma de censura de uns ou de outras. Proibir a vista dos pénis de Mapplethorpe é tão condenável como proibir a vinda de Le Pen à Web Summit. A minha geração não viveu qualquer censura, nem a de direita nem a que se lhe seguiu de esquerda. Fomos apenas confrontados com alguns relâmpagos de censura, mais caricatos do que reais, a última ceia do Herman, o Evangelho de Saramago. E as discussões mais recentes - o cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na Nova, a conferência com negacionista das alterações climáticas na Universidade do Porto - demonstram o óbvio: por um lado, o ato de proibir o debate seja de quem for é a negação da liberdade sem mas ou ses, mas também a demonstração de que não há entre nós um instinto coletivo de defesa da liberdade de expressão independentemente de concordarmos com o seu conteúdo, e de este ser mais ou menos extremo.

Premium

Bernardo Pires de Lima

Em contagem decrescente

O brexit parece bloqueado após a reunião de Salzburgo. Líderes do processo endureceram posições e revelarem um tom mais próximo da rutura do que de um espírito negocial construtivo. A uma semana da convenção anual do partido conservador, será ​​​​​​​que esta dramatização serve os objetivos de Theresa May? E que fará a primeira-ministra até ao decisivo Conselho Europeu de novembro, caso ultrapasse esta guerrilha dentro do seu partido?

Premium

Catarina Carvalho

O populismo na campanha Marques Vidal

Há uma esperança: não teve efeito na opinião pública a polémica da escolha do novo procurador-geral da República. É, pelo menos, isso que dizem os estudos de opinião - o número dos que achavam que Joana Marques Vidal devia continuar PGR permaneceu inalterável entre o início do ano e estas últimas semanas. Isto retirando o facto, já de si notável, de que haja sondagens sobre este assunto.