Estreia. Uma guerra muito fria vivida em tom polaco

Com o brilhante "Guerra Fria", redescobrimos as convulsões históricas das décadas de 1950/60 - é o representante da Polónia na corrida ao Óscar de melhor filme estrangeiro
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Para o melhor e para o pior, a nossa memória cinéfila da história do século XX está dominada pelas referências dos filmes de Hollywood. E são muitas, muitas vezes admiráveis (não se trata de favorecer qualquer anti-americanismo primário). Acontece que não podemos esquecer a diversidade e riqueza dessa mesma memória no interior das mais diversas cinematografias europeias - com a estreia de Guerra Fria, produção polaca assinada por Pawel Pawlikowski, aí temos mais uma bela ilustração de tal dinâmica.

O título do filme tem qualquer coisa de conciso, mas também amargamente irónico. Assim, a história das relações entre Zula (Joanna Kulig) e Wiktor (Tomasz Kot) começa por ser um romance discreto, ligeiramente perverso, nascido no universo das juventudes musicais comunistas, na década de 50. Dito de outro modo: a Guerra Fria entre o Bloco de Leste e o Ocidente não surge "ilustrada" pelas relações amorosas - são estas que, através das mais insólitas e inesperadas nuances afetivas, acabam por conter e, num certo sentido, ampliar o perturbante eco de um tempo de muitas convulsões políticas e militares.

É caso para dizer que, de facto, deparamos com a frieza que pode contaminar, porventura aniquilar, as mais genuínas relações humanas. Prolongando a austeridade do seu título anterior, Ida (2013), Pawlikowski consegue manter o fascínio desse equilíbrio instável: por um lado, penetramos no labirinto de uma intimidade que resiste a desmontar os seus enigmas; por outro lado, tudo se passa como se os mais singulares elementos psicológicos funcionassem como bisturis da história coletiva.

Enfim, convém não esquecer que Pawlikowski é herdeiro de toda uma tradição que envolve tanto a crueza épica de um cineasta como Andrzej Wajda (1926-2016), através de títulos como O Homem de Mármore (1977) e O Homem de Ferro (1981), como o realismo obsessivo de Krzysztof Kieslowski (1941-1996), em particular na sua série sobre os pecados mortais. Com o citado Ida, Pawlikowski já ganhou o Óscar de melhor filme estrangeiro; agora, está de novo na corrida, uma vez que Guerra Fria é, este ano, o representante oficial da Polónia a uma nomeação nessa mesma categoria.

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