Claude Lanzmann ou a "psicanálise" cinematográfica

Cineasta das memórias trágicas do Holocausto, Claude Lanzmann foi, acima de tudo, alguém que acreditou no poder da palavra - trata-se de dizer o que aconteceu e como aconteceu

Quem não conheça qualquer filme de Claude Lanzmann (1925-2018), poderá ser levado a pensar que a sua abordagem do Holocausto - envolvendo títulos tão importantes como Shoah (1985), Sobibór, 14 de Outubro 1943, 16 Horas (2001) ou O Último dos Injustos (2013) - corresponde a uma obsessão mediática muito típica dos nossos dias audiovisuais. Ou seja: a multiplicação infinita de imagens capazes de "testemunhar" os acontecimentos evocados.

Em boa verdade, os seus filmes serão a melhor maneira de combater tal obsessão (os três títulos citados estão mesmo editados em DVD). Importa contrariar essa ideia banalmente televisiva segundo a qual, quando se trata de revisitar os momentos mais trágicos da história da humanidade, tudo acontece através de uma "acumulação" de imagens.

Escusado será dizer que o conhecimento do Holocausto é indissociável de muitas imagens, a começar por aquelas que foram registadas pelos operadores dos exércitos aliados no momento da libertação dos sobreviventes dos campos de concentração. Seja como for, o trabalho de Lanzmann consiste em convocar pessoas que viveram o Holocausto (incluindo vítimas e carrascos) para dizerem o que aconteceu - e como aconteceu. Dito de outro modo: este é um cinema que não deixou de acreditar no poder da palavra, na verdade que a palavra pode transportar, ajudando também a integrar as imagens na consciência coletiva do nosso presente. Estamos, enfim, perante aquilo que apetece classificar como uma "psicanálise" cinematográfica.

Tudo isto, importa sublinhar, sem que Lanzmann se coloque na posição de "deus ex machina" da história. Aliás, no seu admirável Napalm (estreado em Cannes, em 2017, nesse mesmo ano exibido no DocLisboa), ele cruza de forma admirável as convulsões globais com a história individual. Rodado na Coreia do Norte dos nossos dias, o filme evoca a experiência do próprio Lanzmann, quando integrou a primeira delegação da Europa Ocidental a visitar aquele país, corria o ano de 1958 - no seu centro estão as memórias pudicas da sua relação efémera com uma enfermeira do Hospital da Cruz Vermelha, em Pyongyang.

Enfim, na obra de Lanzmann, todo o passado é um acontecimento presente, levando-nos a perguntar o que fazemos aqui. Onde? A ver um filme.

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