Cinco filmes para amar Bertolucci

São cinco escolhas subjetivas de um cineasta que raramente foi consensual. Um cineasta mais romântico do que cínico, mais espontâneo do que calculado. Sabia muito e mudou-nos como espetadores, não importa de que geração. Morreu hoje.

O realizador italiano Bernardo Bertolucci morreu em Roma aos 77 anos, vítima de cancro. Bertolucci venceu o Óscar de melhor realizador com o filme O Último Imperador, de 1988, depois de ter sido indicado para o prémio em 1974 com controverso O Último Tango em Paris.

Poeta, produtor, guionista e cineasta era considerado um dos mestres do cinema italiano, tendo no entanto trabalhado bastante também em Hollywood. É, aliás, o único realizador italiano vencedor de um Óscar. Eis uma escolha de filmes para rever - porque no cinema nunca se morre.

1. O Último Tango em Paris (1972)

Em dias de luta pela igualdade de género e de explosão dos movimentos feministas como #mettoo, talvez seja "indecente" nomear este filme como um dos grandes da carreira de Bernardo. Mas "indecente" era uma das suas palavras de cabeceira - como não lembrar a sua descrição de Liv Tyler, anos mais tarde: "uma rapariga com um beleza indecente" (uma beleza roubada em Beleza Roubada, em 1996).

O Último Tango em Paris tinha uma "indecência" muito sua (mais recentemente, terão surgido indícios de que a atriz Maria Schneider poderá ser sido abusada nas filmagens...), mas o que fica é uma reformulação do género do erótico em cinema. Um clássico que repensa uma ideia de liberdade sexual ou de como nos podemos perder no outro.

2. 1900 (1976)

Épico de escala maior sobre a amizade de dois rapazes de classes opostas. Ao mesmo tempo, a Itália e todas as suas transformações sociais. Bernardo filmava com um fôlego total, um fôlego que não se perdia em academismos da época ou no "picar o ponto" das condescendências narrativas. Havia uma câmara apaixonada com o romantismo de se filmar o trabalhador, o operário, o agricultor.

Dir-se-à agora que não está datado. Como o melhor cinema, é intemporal. Fica para sempre no imaginário a cena no palheiro entre Robert De Niro e Dominique Sanda.

Bernardo provava aqui que no seio do "conceito" do fresco conseguia sempre pegar na alma do espetador através daquilo que é mais íntimo.

3. O Último Imperador (1987)

Talvez não seja um dos títulos mais consensuais, mesmo apesar da aclamação de Hollywood (vieram os Óscares), mesmo apesar do sucesso nas salas. Um épico faustoso sobre o último imperador chinês, Puyi e a chegada da Revolução chinesa.

Temos o Bertolluci a ter um prazer de cineasta a filmar com grandes meios e a reinventar a carga épica de paisagens como a Cidade Proibida e a Manchúria. Torna-se sempre apaixonante e nada pastelão porque há um cuidado poético nos planos e em todos os enquadramentos.

O Último Imperador ganhou estatuto de "inesquecível" também pelos dourados de Vittorio Storaro, na altura o maior diretor de fotografia do mundo, e pela melodia genial de Ryuichi Sakamoto e de David Byrne.

4. Um Chá no Deserto (1990)

Adaptar Paul Bowles com uma indolência provocatória e uma fé inabalada de uma atmosfera de perdição. Foi assim que Bernardo se atirou ao romance The Sheltering Sky, um dos seus filmes menos amados mas que continua a ganhar com o tempo. A história de um casal americano que no norte de África procura encontrar a solução para o seu marasmo conjugal e sexual.

Um projeto onde se prova que aquilo que lhe interessava em cinema era sempre o menos óbvio - à luz dos anos percebe-se que esta melancolia magoada tem um charme de "looser" muito próprio.

Mais uma vez, a dimensão da luz de Storaro provocava um estado de espírito perto do delírio, novamente com a extensão dos sons mágicos de Sakamoto.

5. Os Sonhadores (2003)

O testamento de Bertolucci para os jovens. Em The Dreamers como que filma a encenação romântica de todos os mitos de uma geração, a sua. A liberdade sexual, a fúria contestatária e a perturbante erosão do amor. Fazer esta história de um trio romântico entre as convulsões do Maio de 68 foi também uma celebração da sua própria ideologia de juventude.

Um filme marcado pela graça de uma tensão erótica que cristalizava o brilho de atores como Eva Green, Louis Garrel e Michael Pitt. Uma câmara com uma liberdade bela em encenar o desejo.

As más línguas diziam que já era um velho babado a mostrar sexo, as boas, aquelas que contam, talvez tenham percebido que era a mais doce evocação de uma das mais bela utopias da História.

Os Sonhadores não tem mesmo vergonha: é para românticos que não são demasiado blasés em sonhar.

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