Cinco filmes com Lisboa dentro

Nestes dias luminosos e de muito calor, recordamos a capital através de produções estrangeiras que procuraram as suas vistas e fôlego citadino

Lisboa está na moda, mas as declarações de amor do cinema não são de agora. Há uma cidade registada por Alain Tanner, Ray Milland, François Truffaut, Wim Wenders e Claude Chabrol, que embora ainda conserve o seu genuíno apelo histórico, já não tem a mesma respiração do passado (e podemos estar a falar de 2007...). A cada dia as ruas estão mais cheias de turistas, e aquela tasca onde dantes se comia bem dá hoje lugar ao sítio onde se experimenta o melhor brunch. O elétrico é cada vez mais uma relíquia, e os Tuk Tuk vieram para ficar. O que dizer do Fado? Esse, com a bênção de Santo António, continua de boa saúde. A capital portuguesa vai mudando, mas a sua alma não se há de perder.

Passemos os olhos por cinco produções estrangeiras que estiveram em Lisboa:

Lisboa (1956), Ray Milland

É o título mais imediato na relação com a paisagem, e o mínimo que se pode dizer é que, tratando-se de uma pequena produção, ainda assim a lente de Ray Milland (realizador e intérprete) honrou a cidade. Logo nos créditos de abertura escuta-se a versão inglesa de "Lisboa Antiga" cantada por Robie Lester. Depois, no filme propriamente dito, é a jovem Anita Guerreiro quem a canta com pujança de fadista - e nessa altura a câmara, respeitosa, fixa-se nela, dando apenas conta da admiração da atriz Maureen O"Hara, que pergunta a Milland o que é que estão a ouvir... Os dois são as estrelas hollywoodescas deste thriller simpático, cuja história anda à volta de um sequestro. E aqui qualquer pretexto narrativo é bom para que as personagens femininas, tendo Milland por cicerone, se movam dentro da atmosfera lisboeta, seja em restaurantes, ruas ou praças, passando também por Sintra. De resto, os planos da cidade registados em panorâmica dão conta dos traços desses anos 1950, onde vemos, por exemplo, a Praça de Londres ainda numa expressão urbana minimalista.

Angústia (1964), François Truffaut

Foi apenas parcialmente rodado em Lisboa, mas o charme dessas sequências não é coisa pouca no historial cinematográfico da cidade... François Truffaut, um dos nomes maiores da Nouvelle Vague, esteve na capital portuguesa em 1963, sob a tutela do produtor António da Cunha Telles, para filmar um caso amoroso protagonizado por Jean Desailly e a jovem Françoise Dorléac (figura trágica do cinema francês, que morreu aos 25 anos). A fita chama-se La peau douce e é um drama sobre a infidelidade, centrado num editor literário de meia-idade, casado, e numa hospedeira de bordo, que se envolvem numa viagem a Lisboa, onde ele vem dar uma palestra. A literatura será o ponto de partida para o romance, mas a cidade é a testemunha silenciosa da atração da pele. Entre o Hotel Tivoli e o bairro da Bica, há uma história secreta que é contada.

O Estado das Coisas (1982), Wim Wenders

Wim Wenders é um fã da cidade e visitante regular. Seria demasiado óbvio escolher para a lista Viagem a Lisboa (1994), que realizou a convite do produtor Paulo Branco, no ano em que esta foi Capital Europeia da Cultura. Por sua vez, O Estado das Coisas foi o primeiro contacto do cineasta alemão com a paisagem portuguesa - sobretudo com Sintra, à qual se referiu como o "paraíso perdido". E aí mesmo se instalou com a sua equipa para realizar esta que é uma das obras mais impressionantes da sua filmografia, precisamente sobre a suspensão da rodagem de um filme, que deixa as personagens a vaguear num hotel abandonado da Praia Grande, à espera do retomar dos trabalhos. Mas O Estado das Coisas passa também pelas ruas de Lisboa, e o grande Samuel Fuller, que aqui entra como ator, protagoniza uma longa cena no já desaparecido Texas Bar, que se tornou num dos locais preferidos do próprio Wenders nesse primeiro convívio com a luz lisboeta.

A Cidade Branca (1983), Alain Tanner

Se há filme que corresponde plenamente à ideia de uma "carta de amor" a Lisboa, esse filme é A Cidade Branca, do suíço Alain Tanner. A câmara segue Bruno Ganz pelas ruas antigas - e pouco turísticas - com a mesma curiosidade do próprio personagem, que traz consigo uma Super 8 e se dedica a fazer pequenos filmes enquanto deambula pela urbe. Ganz é um marinheiro que decide desembarcar em Lisboa, cansado da rotina no navio e tomado pelo desejo de uma aventura solitária. Vai-se deixando ficar durante um tempo, a receber a energia da cidade, a sua luz especial. E nessa atitude de flâneur, abandona-se aos pequenos mistérios do quotidiano, e chega a envolver-se com uma empregada de bar (interpretada por Teresa madruga). Mas é a experiência íntima de Lisboa, essa dimensão impossível de comunicar, que torna este filme uma das mais belas incursões nos trilhos da cidade, captadas com um verdadeiro desígnio realista.

A Rapariga Cortada em Dois (2007), Claude Chabrol

A sugestão violenta do título só quer dizer isto: Gabrielle (Ludivine Sagnier) é uma mulher dividida entre dois homens. Vive em Lyon. Na casa de um dos amantes, ela vê e comenta uma fotografia emoldurada do elevador da Glória, mas quem acabará por a levar a conhecer Lisboa é o outro... Mais uma vez, a cidade tem aqui somente o magnetismo de uma passagem, em algumas sequências. E no entanto, este que é um dos últimos filmes do cineasta Claude Chabrol, consegue nesse pouco tempo deixar registada uma memória física dos lugares, muito precisa. Há uma cena inteira filmada dentro do elétrico que desce a Calçada da Estrela, mas o trajeto narrativo passa também, por exemplo, pela esplanada das Portas do Sol e pela Rua da Bica. Já no Chiado, mais precisamente na Rua Garrett, temos os protagonistas diante da montra da ourivesaria Aliança - fundada em 1909, encerrada em 2012 e vendida a uma daquelas marcas que estão um pouco por todo o lado.

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