Berlusconi enredado no seu próprio mito

O cineasta italiano Paolo Sorrentino arrisca fazer um filme sobre Silvio Berlusconi para lá de qualquer cliché biográfico: Silvio e os Outros expõe a política e os seus fantasmas.

Nos tempos que correm, a abordagem das figuras políticas pelo cinema envolve um cruel desafio de linguagem: como tratar as personagens que, afinal, dominam o imaginário televisivo? Mais do que isso: como encenar personagens que esse imaginário tende a reduzir, todos os dias, a soundbytes mais ou menos sugestivos?

O novo filme do italiano Paolo Sorrentino, Silvio e os Outros, tem, obviamente, consciência dessa conjuntura. E como podia ser de outro modo? Afinal de contas, o Silvio do título é nada mais nada menos que Silvio Berlusconi, emanação emblemática de uma época (a nossa!) em que, de modo mais ou menos perverso, o poder político se gera, reproduz e sustenta através da paisagem televisiva.

Importa, por isso, chamar a atenção para dois aspetos que, direta ou indiretamente, podem afetar a perceção deste filme. Em primeiro lugar, não estamos perante um qualquer modelo de biografia "demonstrativa", nem que seja no registo banal e determinista do telefilme sobre uma "figura histórica". Além disso, na origem, este é um filme com mais de três horas (204 minutos), duração com que foi lançado, em duas partes, no mercado italiano; entre nós, como na maior parte dos países, temos acesso à chamada "versão internacional" (145 minutos), organizada para viabilizar a sua candidatura a representante da Itália como candidato a uma nomeação para o Óscar de melhor filme estrangeiro (ironicamente, tal representante acabou por ser Dogman, de Matteo Garrone).

Seja como for, e sem prejuízo de supormos que a versão longa original será a que mais e melhor pode ilustrar a visão de Sorrentino, estamos perante um objeto de estranha sedução e inteligência. Dir-se-á que reencontramos, aqui, esse delírio "felliniano" que marcava o filme mais famoso de Sorrentino, A Grande Beleza (2013), retrato assombrado de Roma, construído a partir do olhar desencantado de um veterano do jornalismo, que se apresentava como uma recriação moderna de A Doce Vida (1960), de Federico Fellini. O certo é que, desta vez, os excessos de retórica que limitavam A Grande Beleza dão lugar a uma austera exploração "psicológica" da personagem central.

Qual é, então, o Silvio Berlusconi que aqui encontramos? Não é, por certo, aquele que surgia em O Caimão (2006), de Nanni Moretti, genial panfleto político em que o então primeiro-ministro de Itália era encenado, antes de tudo o mais, como carrasco das mais ricas tradições cinematográficas do seu país. Para Sorrentino, Berlusconi existe, acima de tudo, como marioneta deslumbrada pelo seu próprio poder (político, sexual, simbólico).

Daí a peculiar ambiguidade que vai contaminando todas as cenas do filme: por um lado, assistimos ao levantamento realista (dir-se-ia hiper-realista) de um modo arrogante e castigador de exercer a política; por outro lado, tudo isso tende sempre para o delírio surreal, já que Berlusconi vive da exponenciação prática do seu mito, enredado que está numa teia de interesses e favores em que as prioridades são influenciar, dominar ou anular os outros -- uma vez mais, Toni Servillo, ator fetiche de Sorrentino, é exemplar na interpretação desse modo de ser e estar.

Nas décadas de 1960/70, através de cineastas como Elio Petri ou Dino Risi, a produção italiana explorou as possibilidades do então chamado "filme político". Na prática, problematizavam-se as tensões entre os interesses coletivos e as manobras dos bastidores políticos, quase sempre num registo devedor da tradição do policial. Talvez se possa considerar que, num certo sentido, Sorrentino se assume como herdeiro dessa tendência. Com essa vertente suplementar: o poder político deixou de ser uma mera gestão de interesses, transformando-se num palco assustador de fantasmas.

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