As concertinas que viajaram mar dentro

Danças Ocultas apresentam no seu novo registo, Dentro Desse Mar, com produção de Jaques Morelenbaum, um cheiro intenso de Brasil. A descobrir esta linguagem universal

As quatro concertinas mais desconcertantes da música portuguesa regressam esta sexta-feira, 28 de setembro, com o seu novo registo, Dentro Desse Mar , onde embarcam numa aventura, agora com a produção do brasileiro Jaques Morelenbaum.

Fazendo um uso extraordinário das concertinas, compondo em conjunto, como no trabalho de uma oficina, a elegância do sopro que surpreendeu crítica e público em 1996, com o álbum homónimo, que nos mostrava quatro cadeiras desenhadas na capa e uma imensa vontade de rasgar com o som que tradicionalmente se associa a este instrumento, estes rapazes de Águeda voltam a apostar noutros músicos, vozes e instrumentos que dialogam consigo.

Ao quinto álbum de originais, a que se soma um EP em parceria com Dom La Nena, duas coletâneas e um álbum ao vivo com a Orquestra Filarmonia das Beiras, Artur Fernandes, Filipe Cal, Filipe Ricardo e Francisco Miguel juntam às concertinas outras vozes e instrumentos para melhor fazer ouvir a sua respiração, como logo se anuncia em Azáfama, o tema de abertura.

Os quatro das Danças Ocultas explicam esta escolha para abrir o álbum por ser uma música que transmite a "energia" que colocaram "na criação e gravação dos temas deste disco" e também "por revelar um novo caminho para Danças Ocultas".

Há Brasil a rodos, ou não houvesse Morelenbaum com o seu violoncelo e na produção, como já se disse, e um álbum quase todo ele gravado nos estúdios Casa do Mato, no Rio de Janeiro, mas também há Zélia Duncan na voz em As Viajantes, Dora Morelenbaum, a filha de Jaques, a cantar em Dessa ilha, que tem letra de Arnaldo Antunes, dos Tribalistas. Há uma tradição que nunca se deixa acantonar no tradicionalismo mais conservador, como se ouve em O Teu Olhar, cantada por Carminho, ela que também já cruzou várias vezes o seu fado com o um certo tropicalismo brasileiro.

O enorme oceano que separa Portugal e o Brasil parece apenas uma simples gota, quando se ouve este trabalho de artesãos que resgata a concertina e as suas composições para uma conversa em que a linguagem universal é a música, como transparece em Búzios ou Azaf.

Talvez não se encontre aqui a absoluta surpresa de quem descobriu estas danças com Folia, no primeiro álbum (1996), ou bailou em Contradança, do segundo trabalho, Ar (1998), mas a sedução destes sons encantam-nos tanto como o que se descobre dentro deste mar.

Recorde um breve concerto de fevereiro de 2018, no qual também falam do seu trabalho:

Danças Ocultas, Dentro Desse Mar
(Sony Music Portugal)
CD, 13,90€. Também disponível nas plataformas de streaming.

Ler mais

Exclusivos

Premium

Ricardo Paes Mamede

Legalização da canábis, um debate sóbrio 

O debate público em Portugal sobre a legalização da canábis é frequentemente tratado com displicência. Uns arrumam rapidamente o assunto como irrelevante; outros acusam os proponentes de usarem o tema como mera bandeira política. Tais atitudes fazem pouco sentido, por dois motivos. Primeiro, a discussão sobre o enquadramento legal da canábis está hoje em curso em vários pontos do mundo, não faltando bons motivos para tal. Segundo, Portugal tem bons motivos e está em boas condições para fazer esse caminho. Resta saber se há vontade.

Premium

nuno camarneiro

É Natal, é Natal

A criança puxa a mãe pela manga na direcção do corredor dos brinquedos. - Olha, mamã! Anda por aqui, anda! A mãe resiste. - Primeiro vamos ao pão, depois logo se vê... - Mas, oh, mamã! A senhora veste roupas cansadas e sapatos com gelhas e calos, as mãos são de empregada de limpeza ou operária, o rosto é um retrato de tristeza. Olho para o cesto das compras e vejo latas de atum, um quilo de arroz e dois pacotes de leite, tudo de marca branca. A menina deixa-se levar contrariada, os olhos fixados nas cores e nos brilhos que se afastam. - Depois vamos, não vamos, mamã? - Depois logo se vê, filhinha, depois logo se vê...