Reciclar os clássicos. É essa a tendência das produções Disney nos últimos anos. Talvez em relação a outros filmes do estúdio se possa dizer antes "revisitar", mas no caso do novo O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos a palavra "reciclar" aplica-se na perfeição. Assinado por Lasse Hallström e Joe Johnston, este regresso ao universo do conto de E.T.A. Hoffmann e ao bailado de Marius Petipa (a partir de Tchaikovsky) é, em primeiro lugar, uma adaptação do clássico de Natal aos ares do nosso tempo - o que não significa de todo que deixe de ser a narrativa de folhos de época que é. Assim, este intento de tornar o filme um espelho das causas de hoje, testemunha-se sobretudo na variedade do elenco onde vamos descobrir um soldado Quebra-Nozes (Jayden Fowora-Knight) e uma Princesa bailarina (Misty Copeland) negros..Isto já não devia ser um assunto, mas é um ponto a favor dos valores do estúdio, que fez questão de os sublinhar nas entrevistas rápidas dadas na antestreia do filme em Los Angeles. Além disso, também é curioso perceber que a protagonista, Clara (Mackenzie Foy), corresponde mais à leitura contemporânea da mulher de armas do que ao padrão da menina dócil dos contos de fadas. E desta forma, bem composto de caras conhecidas - Keira Knightley, Hellen Mirren, Morgan Freeman - O Quebra-Nozes e os Quatros Reinos arranca para o mercado do período natalício com a segurança de quem vem oferecer algo de novo. Só que não..O filme começa por nos mostrar Clara em casa na véspera de Natal, quando o pai distribui os presentes que a mãe, recentemente falecida, deixou para os três filhos. A oferta que lhe calha é uma enigmática peça dourada, em forma oval, com uma fechadura para aceder ao interior... mas a chave não está incluída no presente. Qual será a vontade da sua mãe? Doravante, a prioridade da heroína é encontrar essa chave. Para isso vai contar com a ajuda do padrinho (Freeman), que num passe de mágica a conduz até à paisagem de fantasia dos tais Quatro Reinos. Aí conhece um conjunto de personagens mais ou menos extravagantes - o Quebra-Nozes, a Mãe Ruiva (Mirren), a Fada do Açúcar (Knightley) - que vão fazer de tudo, ora para a auxiliar na busca da chave, ora para impedir que esta lhe chegue às mãos..A julgar pela força do elenco e da base literária, O Quebra-Nozes e os Quatros Reinos tinha ingredientes para ser, pelo menos, uma experiência de encanto e aventura, dentro de um classicismo com muitas provas dadas pela marca Disney. Mas Lasse Hallström e Joe Johnston preferiram apostar quase tudo em cenários digitais barrocos, cansativos para os olhos, e muito pouco no coração da história. O que acontece é então um desfile de imagens desalmadas e "açucaradas" - à semelhança da fada de Knightley - que, em vez de tocarem as notas certas da nostalgia e espírito de época, caem numa abordagem pífia, sem a consistência dos trabalhos dos estúdios do Rato Mickey. Dito isto, apreciamos o esforço, mas não o resultado..A grande esperança para o título de "filme Disney de Natal" vai agora para O Regresso de Mary Poppins, que chega às salas de cinema portuguesas a 20 de dezembro..*(Medíocre)