A arte do telemóvel de Steven Soderbergh

Já chegou ao mercado de home-cinema, sem passar pelos cinemas, Distúrbio/Unsane, de Steven Soderbergh, com uma "transtornada" Claire Foy na pele de uma mulher perseguida por um tarado. Trata-se de um dos acontecimentos deste final de verão, filmado, imagine-se, com um iPhone 7

Há uma personagem feminina aqui que se oferece como objeto de medo. Chama-se Sawyer e o medo dela vai ser o nosso. Imaginamo-nos no lugar dela: alguém que chega a um hospital e, de repente, é internada contra vontade sua. Internada na psiquiatria, na ala mais dura. Pesadelo dos grandes? Maior se pensarmos que o homem que a atormentava com mensagens e assédio constante conseguiu infiltrar-se e é o enfermeiro que administra a medicação.

"Tirem-me deste filme", pensa ela (interpretada com uma extrema pujança por Claire Foy, a rainha da televisão, da série The Crown), mas também pensamos nós que tudo pode estar na sua cabeça. A loucura pode ter destas coisas, embora a paranóia, às vezes, possa ser ser real.

Unsane, que passou na seleção oficial do Festival de Berlim, é o tal filme de Steven Soderbergh feito com o seu dinheiro e inteiramente filmado com um smartphone (tal como Tangerine, de Sean Baker). Mas mais do que uma proeza técnica, estamos na presença de um vibrante espetáculo de emoções fortes, um thriller com um humor safado que nos deixa sem respiração e sem tons de dramalhão, apenas puro e bom prazer de culpa. Aliás, os ângulos aproximados da câmara do telemóvel sugerem um grau de paranóia que é uma delícia à parte, conforme se pode constatar por estas imagens.

Se há cineastas que jogam pelo seguro, Soderbergh prefere jogar pelo inseguro nesta parábola sobre o medo na nossa cabaça e de como a sociedade nos impinge noções clínicas de sanidade standardizada. Distúrbio, que estranhamente não teve ordens da Fox para estrear nos cinemas nacionais, é também Soderbergh a divertir-se, ao mesmo tempo que ao colocar uma mulher acossada por um "stalker" está a fazer um um discurso sobre esta época dos abusos e dos direitos femininos. Dir-se-ia que Soderbergh é sempre um cineasta de tema certeiro (em Sexo, Mentiras e Vídeo falava de forma frontal do desejo feminino e em Erin Brockovich fazia um tratado sobre sabedoria feminina...). Filmes dos nosso tempos, portanto.

Referir ainda que Matt Damon, ator fetiche de Soderbergh, tem um dos melhores "cameos" dos últimos tempos. Ele é apenas um dos muitos trunfos de uma obra que fazia todo o sentido ser vista numa sala de cinema, de preferência cheia, sobretudo para ficarmos contaminados pelos risos nervosos do companheiro da cadeira ao lado. Felizmente, o MOTELx deste ano possibilita a experiência com a exibição do filme na sala do São Jorge, a única forma de podermos ver em grande este objeto não identificável feito com um iPhone que tem mais cinema do que a maioria daquilo que o género do terror americano tem para oferecer. O que é novo aqui não é a imagem do telefone, nem por sombras. É antes uma convulsiva brincadeira com géneros e sub-géneros, do filme de hospital ao thriller de alucinação.

3 estrelas

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