Periodicamente, Francisco Moita Flores lança um novo romance, em que navega tanto pelas páginas da História como por acontecimentos políticos ou “reportagens” sobre a sociedade da época em que se situa. Quase sempre certo é a escolha do cenário nacional para essas narrativas que são sempre muito lidas, o que faz com que os leitores regressem a outros tempos e situações diferentes das suas contemporâneas, mesmo que a realidade atual do país rivalize com qualquer matéria para escrever ficção.O seu novo romance intitula-se Sangue e Silêncio no Poço dos Negros e situa-se no ano de 1969, quando Salazar está doente - após ter caído da cadeira - e é substituído por Marcello Caetano. A presença da PIDE como braço direito do regime é bastante referenciada e exibida em toda a sua conduta repressiva, afinal o caso do livro tem a ver com o assassínio de um elemento dessa força policial e parte da resposta está na edição do Diário de Notícias dessa madrugada. Através da leitura é possível refazer em muito o retrato dessa época portuguesa, como a crítica às novidades sociais – as tangas de Brigitte Bardot em comparação com os vestidos compridos das fadistas, os novos rumos musicais de José Afonso, os homens de cabelo comprido à Beatles -, bem como recordar todo um conjunto de comportamentos em muito patuscos que regiam a sociedade cinco anos antes do 25 de Abril. Para se medir o pulso ao novo romance de Moita Flores é suficiente a leitura do primeiro capítulo, apesar de a solução para o crime só estar no penúltimo: uma sessão de jogo de cartas com valores muito altos para a época. Sem exagerar, ao lerem-se estas oito páginas, até parece que se está a rever as cenas das apostas do filme Casino Royale do 007! .SANGUE E SILÊNCIO NO POÇO DOS NEGROSFrancisco Moita FloresCasa das Letras286 páginas Suspense à antigaRecuperado do início da década de 1960, o policial Matai-vos Uns aos Outros volta a estar disponível para os leitores. O romance ofereceu ao autor, Jorge Reis, o Prémio Camilo Castelo Branco e foi considerado por Óscar Lopes como o melhor policial português… e proibido pela censura. Tudo acontece quando um agente da Polícia Judiciária é destacado para uma povoação do interior para solucionar um crime e durante a semana que aí irá permanecer o autor elabora um retrato da localidade e das pessoas que lá habitam, replicando das particularidades sociais desse microcosmo no que era o Portugal de então, com todas as suas características, boas, más ou arbitrárias, através da investigação aos dez suspeitos que na noite anterior jantaram com o falecido. A convivência literária com um romance escrito há seis décadas e num género pouco comum em Portugal, torna o livro uma revisitação indispensável para os leitores, até porque além do já referido, também Aquilino Ribeiro e João Gaspar Simões elogiaram esta obra. .MATAI-VOS UNS AOS OUTROSJorge ReisParsifal175 páginasMais suspense à antiga Também passado em Portugal, principalmente na Albufeira da década de 1960, chega às livrarias o policial Águas Turvas, um dos que tornaram o autor Len Deighton conhecido como um dos mestres deste género – comparam-no a Ian Fleming e John le Carré. Bastante conhecedor dos tempos da II Guerra Mundial, tendo escrito e ilustrado vários volumes de história militar, Deighton situou este seu segundo romance em Portugal – país em que viveu grandes períodos até morrer este ano – e traz à narrativa a visão do estrangeiro sobre um Portugal governado por Salazar e que ainda tem alguns esqueletos dentro do armário devido à alegada neutralidade no conflito militar, bem como uma inesperada presença de um Partido Revolucionário Português. A justificação para os serviços secretos ingleses se deslocarem ao país tem a ver com um submarino alemão que ficou afundado no litoral algarvio e que contém os restos mortais da tripulação e um segredo ameaçador. Além de uma ambiência muito própria da mentalidade literária de espionagem dos autores daqueles anos, Águas Turvas tem a particularidade de fazer múltiplas referências a Portugal: a referida Albufeira, tão distante no tempo e diferente que até parece ser uma invenção do escritor, várias localidades fixadas com as cores de outras épocas, nomes e apelidos estranhos, descrições típicas deliciosas de quem nos olha de fora, mesmo que Deighton tenha apreendido bem o espírito nacional, como quando escreve: “Deus deu aos Portugueses um berço estreito para nascer e o mundo inteiro para morrer”. .ÁGUAS TURVASLen DeightonEdições ASA302 páginas Literacia policialPara muitos leitores adeptos de livros policiais há uma situação que detestam, a de os personagens não serem credíveis por ignorância dos autores sobre certas particularidades que fazem um bom/mau ladrão ou um mau/bom polícia. Essa ausência de literacia policial já fez com que alguns dos melhores escritores deste género se dedicassem a escrever volumes para explicar como o criminoso age, mata ou envenena e os investigadores atuam. Neste último caso, temos a escritora Val McDermid que escreveu um volume sobre ciência forense; no penúltimo, é a “especialista” Agatha Christie que mais se destacou, tanto que Kathryn Harkup fez um guia dos venenos que a escritora usou nos seus livros. Daí que seja bem-vindo um levantamento histórico, O sistema policial português, de José Lopes, um verdadeiro conhecedor das investigações policiais, pois fez parte da Polícia Judiciária e de outras forças nas últimas décadas. O autor explica métodos e terminologias, relata o aparecimento das polícias segundo várias geografias, narra o caso português desde os tempos da monarquia até à atualidade. Ou seja, na onda de investigadores e autores que olham para os bastidores internacionais dos romances policiais, também existe agora uma “enciclopédia” própria para cotejar a cultura literária deste género. .O SISTEMA POLICIAL PORTUGUÊSJosé LopesGuerra & Paz 127 páginasInvestigações de ouroO jornalista Ben Macintyre tem publicado, provavelmente, a melhor série de investigações sobre a espionagem na II Guerra Mundial e tem agora o nono volume traduzido para português, o Agente Zigzag. O leitor pode dizer que este género não lhe interessa, no entanto, o que acontece é que está a perder uma coleção de livros em que o mistério, o suspense e o policial se reúnem para contar uma boa história de espionagem e também uma ótima página de História. Desta vez, o autor retrata a mudança de um contestatário nazi do esforço de guerra dos aliados e de como se tornou num espião duplo que contribuiu para a derrota alemã. A narrativa resulta do cruzamento de documentação, de depoimentos e de arquivos com informações que trazem à atualidade um tempo de grande conflito no meio do século passado. Portugal não está ausente deste labirinto de contrainformação, como se pode ler: “Uma vez em Lisboa, poderia dirigir-se à casa na Rua de São Mamede, e apresentar-se ao senhor Fonseca”. Um espião que nessa deslocação à capital portuguesa teve a oportunidade de “beber um horrível brandy português”. Repleto de informações. O Agente ZigZag refaz um tempo de acontecimentos que hoje parecem ser apenas possíveis em romances de ficção. .AGENTE ZIGZAGBen MacintyreD.Quixote403 páginas .O que Salazar deixou por fazer.Reler os “clássicos”: Saramago e Miguéis