Germano Silva, o “homem-cidade” do Porto biografado por Mariana Correia Pinto
ESTELA SILVA/LUSA

Germano Silva, o “homem-cidade” do Porto biografado por Mariana Correia Pinto

Jornalista completa 95 anos com a biografia “Um dia vais ter tudo”, de Mariana Correia Pinto, disponível nas livrarias.
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Germano Silva, jornalista que cresceu pobre numa aldeia de Penafiel antes de se confundir com o último século da cidade do Porto, celebra esta terça-feira, 13 de outubro, 95 anos, com a biografia “Um dia vais ter tudo”, de Mariana Correia Pinto, disponível nas livrarias.

“Para mim, isto é o fundamental. Uma vida cinzenta como a minha, uma vida de luta pela sobrevivência. Não tive uma infância infeliz, foi difícil, e o vencer destas dificuldades… A Mariana conseguiu transformar isso tudo numa vida. O que eram espinhos, ela pôs rosas, fez um trabalho que considero exemplar do ponto de vista da escrita, do jornalismo. Conversámos muitas horas, e ela conseguiu dar exatamente o sentido do que foi a minha vida”, diz Germano Silva, em entrevista à agência Lusa.

A conversa com a Lusa junta biógrafa e biografado no piso superior da Livraria Académica, no Porto, do amigo de longa data Nuno Canavez, outra ‘figura’ da cidade com quem Germano cresceu.

Hoje, instalado numa sala que trata como segundo escritório, desfia histórias e entrelaça-as com os méritos da biografia, uma “reportagem”, como lhe chama, que começou por um desafio da editora, tendo sentido que a primeira opção seria sempre convidar Mariana Correia Pinto.

A autora, por seu lado, considerou o convite irrecusável, até porque, além de uma amizade que os ligava, o Porto e o jornalismo eram paixões em comum, fios que foram cruzando ao longo de dezenas de horas de entrevista, entre jantares, passeios e encontros.

Germano Silva e Mariana Correia Pinto
Germano Silva e Mariana Correia PintoESTELA SILVA/LUSA

Antes de ser um dos jornalistas mais reconhecidos da história do Jornal de Notícias, o periódico de sempre, e a partir do qual viu e ensinou a ver a cidade do Porto, tendo feito parte, inclusive, dos esforços - gorados - para o comprar, Germano Silva foi operário fabril, trabalhou no Hospital Santo António e muito lutou para melhorar a vida.

“As palavras de uma mãe podem construir uma casa”, pode ler-se no arranque do livro, dando o mote para o ângulo por que Mariana Correia Pinto quis contar esta história.

Para a autora, o livro “é a história deste menino”, que nasceu em São Martinho de Recezinhos (Penafiel), seguiu as palavras da mãe, e acabou a viver do jornalismo, a resolver homicídios e a registar, crónica atrás de crónica, o património humano da cidade do Porto, sem deixar de lado os mais vulneráveis.

“Isto é, no fundo, uma forma de contar o que é a nossa cidade e o país no último século, através de uma vida. O Germano… Há estas histórias que ele conta sempre, da infância, e houve outras que eu fui puxando. Eu fui também recuperando, relembrando, a história do último século do país. ‘Ó Germano, onde é que estavas quando o Humberto Delgado chegou ao Porto, em 1958?”, exemplifica.

Quando Umbelina, uma paixão que tinha dos seus tempos da fábrica, lhe diz que nunca namoraria um operário, essa visão marcou-lhe o percurso.

“Eu senti… Sei lá, o que um migrante sentirá quando lhes dizem que não entrarão, quando são excluídos”, comenta.

Para a biógrafa, “isto é o espelho de tanta coisa que se passa hoje”, de um lugar de rejeição em que hoje se colocam “os migrantes, as minorias de forma geral, as pessoas que vivem na rua, os pobres”, para quem a sociedade ainda reserva um olhar “absolutamente miserável”.

“A vida dele é a prova da possibilidade. Não é sobre a meritocracia, é uma palavra que eu odeio e abomino, mas é sobre a esperança. (...) Faz-nos acreditar. Faltam-nos referências para perceber que é possível, e eu acho que a vida do Germano também mostra que é possível, sem ideias de meritocracia”, acrescenta.

Dividido em três secções, “Raiz”, “Asas” e “Tudo”, o livro passa por algumas histórias famosas do homem que chegou ao jornalismo quando trabalhava no Hospital Santo António e ‘avisava’ outros repórteres de histórias, até que o Jornal de Notícias chamou a própria fonte - e por ali marcou um tempo, ao lado de figuras como Manuel António Pina e outras “lendas”, que hoje gostava que fossem mais lembradas, quando o jornalismo já é “totalmente diferente” e o espírito de redação, lamenta, se vai perdendo.

Figuras como o chefe de redação Manuel Ramos convivem com amigos e outras figuras que marcam o percurso do cronista no livro, que mostra um homem de esquerda, sem amarras, e de fé, sem Igreja, que até à morte só levará “dois cartões”: do FC Porto e do Sindicato dos Jornalistas.

De fora, numa aprendizagem que foram tendo ao longo das conversas, fica a mulher, a filha, a “vida aqui de casa”, uma forma de viver que lhe deixou o pai: “O meu pai reunia-nos muitas vezes, em casa", recorda Germano Silva. "E [dizia] assim: (...) ‘A vida aqui de casa é aqui em casa, entre nós. Nós vamos passar isto’. Deu-me esta vida”.

Para a jornalista do Público, trabalhar sobre tantas décadas de histórias, crónicas, reportagens, peripécias e experiências de vida “foi difícil”, porque “o Germano conta histórias maravilhosas”, numa vida “feita de feitos extraordinários, mas feita da coisa pequena”.

“Mas na coisa pequena vê-se o extraordinário. E daí eu ter também decidido dividir o livro em capítulos que são muito curtos, porque havia pequenas histórias que eu tinha mesmo de contar, e queria dar esse relevo. Por exemplo, o dia em que ele soube que era pobre, quando a professora lhe aponta o dedo e diz: ‘Está ali o Germano’, e ele vai usufruir da sopa. Isso é muito marcante”, conta.

A marca da avó e da infância, a vivência no Cruzinho, a II Guerra Mundial, a ditadura do Estado Novo, o jornalismo desportivo, o duque da Ribeira, as viagens à China e à Ásia, o 25 de Abril - dia mais feliz da sua vida a seguir ao do nascimento da filha -, e 30 anos de reforma sem ter chegado realmente a parar de trabalhar vão confluindo junto a outras “pequenas histórias como estas”.

ESTELA SILVA/LUSA

O “jornalismo de proximidade com as pessoas, de rua, da vida e da defesa das pessoas que não têm voz”, diz Germano Silva, uniu os dois jornalistas, e é também algo que, teme, está a perder-se na profissão, não deixando de lamentar o declínio da imprensa, incluindo o JN.

Para Mariana Correia Pinto, nascida no Porto, em 1986, este é o segundo livro, depois do retrato da freguesia de Campanhã em “Porto, Última Estação”, numa carreira que a jornalista tem desenvolvido no jornal Público desde 2009.

Em 2023, estreou-se no teatro com “Anónimo Não é Nome de Mulher”, assinando depois outro texto dramatúrgico, “Uma Rua de Cada vez”.

Para a frente, tem alguns convites e gostaria de experimentar a ficção e a literatura infantojuvenil, além do trabalho jornalístico que já lhe arrecadou grandes prémios, sobretudo em matérias de direitos humanos e de inclusão.

Além do livro, também a RTP2 estreia, pelas 16:00 de sábado, um documentário sobre a vida e obra de Germano Silva, intitulado “A Cidade e o Germano”, realizado por Adriano Nazareth.

Uma figura acarinhada na cidade, Germano é interpelado, na rua dos Mártires da Liberdade, por um fã, que o abraça e se mostra saudoso de ler coisas novas do autor, um cenário recorrente nas caminhadas e palestras que vai fazendo pela cidade, nas caixas de comentários de crónicas ou trabalhos em que participa. Mas não se vê, ou quis algum dia ver-se, como alguém que gostasse do “galarim”, ou seja, da ribalta.

“Eu sempre detestei o galarim. Fiz teatro amador, no velho Palácio de Cristal, mas quer dizer… a pantalha, aquela coisa… eu sempre fugi disso. Nunca quis essa coisa, e senti-me sempre o homem do fato cinzento - este [que trazia vestido] é azul -, o homem do fato cinzento que está no consultório médico lá num canto à espera da hora, e entra alguém e pergunta: ‘Está aqui alguém?’. Ninguém dá por aquele indivíduo que está ali. Eu quis sempre ser isto”, assegura.

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