Frederick Wiseman filma a América profunda

Frederick Wiseman continua a filmar os lugares esquecidos do seu país: Monrovia, Indiana já está nas salas portuguesas e é mais um notável exemplo do trabalho de um dos mestres do documentarismo.

A América profunda. A expressão corre o risco de ser uma derivação mais ou menos pitoresca. Em qualquer caso, talvez nos faça recordar que a pluralidade interna dos EUA não se esgota no espectáculo arquitectónico de Manhattan, muito menos nos areais da Califórnia povoados de estrelas de Hollywood...

Pois bem, justifica-se que voltemos a convocá-la para falarmos de Monrovia, Indiana, mais um prodigioso trabalho documental de Frederick Wiseman. E sublinho: mais um. Estamos, de facto, perante um dos mestres da observação clínica do seu país, capaz de nos expor as lógicas internas de entidades tão distintas como um liceu (High School, 1968), um laboratório de investigação do mundo animal (Primate, 1974), um hospital para doenças terminais (Near Death, 1989), um espaço público (Central Park, 1990) ou um ginásio (Boxing Gym, 2010).

Há um método que Wiseman sempre aplica e que, de alguma maneira, tem vindo a ser apurado e depurado ao longo das décadas. A saber: não se trata de reunir sinais "sociológicos" do quotidiano para depois os "embrulhar" nos comentários de uma voz off supostamente detentora de uma verdade única e definitiva. Aliás, não há voz off nos filmes de Wiseman.

Trata-se, isso sim, de recolher cenas muito particulares, em tudo e por tudo opostas à ilusória velocidade dos clips televisivos. São situações em que a duração é importante, desse modo expondo a vida de uma comunidade como um puzzle de comportamentos e valores capaz de gerar algum tipo de coerência coletiva. Descobrimos, assim, as muitas facetas da pequena povoação de Monrovia, no estado do Indiana: conversas de café, um supermercado, uma barbearia, cerimónias religiosas, reuniões do conselho municipal, aulas de liceu, recolha de cereais...

Wiseman é o contrário de um observador sensacionalista. Dito de outro modo: no seu cinema, todas as sensações são importantes. De tal modo que mesmo as situações mais banais adquirem a espessura de momentos reveladores de um mundo que escapa, ponto por ponto, a todos os clichés éticos ou estéticos que sobre ele possamos ter construído.

Daí a dimensão visceralmente política do seu cinema: Monrovia, Indiana é um retrato de uma América que existe muito para além das manchetes da atualidade política. Nessa medida, perversamente ou não, não deixa de ser um sintoma da complexidade do país que tem Donald Trump como presidente. Ou ainda: o grande documentário está vivo. E recomenda-se.

Mais Notícias

Outros conteúdos GMG