Eis uma realidade muito antiga, tantas vezes esquecida: no universo dos desenhos animados, há uma longa tradição europeia que não pode ser reduzida a uma mera “derivação” dos estúdios americanos - para nos ficarmos por um único exemplo, recordemos um projeto tão especial como A Paixão de Van Gogh (2017). Com a estreia de Stitch Head, entre nós chamado Frankie e os Monstros, podemos, uma vez mais, confirmar essa realidade.Nem tudo tem a chancela Disney ou Pixar. Acontece que as respetivas produções, cujas qualidades não estão em causa (mesmo se, a meu ver, talvez estejam a precisar de alguma renovação criativa) são acompanhadas por poderosas campanhas promocionais que nunca favorecem produtos como Frankie e os Monstros. Para que conste, esta é uma realização de um inglês, Steve Hudson, resultando de uma coprodução envolvendo Reino Unido, Alemanha, França e Luxemburgo - na sua base está uma história de Guy Bass, ilustrada por Pete Williamson (história que, depois do seu sucesso, se prolongou por vários volumes).Dir-se-ia que Frankenstein voltou a estar na moda. Isto porque o lançamento de Stitch Head (à letra: “Cabeça cosida”) aconteceu em alguns países europeus quase ao mesmo tempo do de Frankenstein, de Guillermo del Toro, na Netflix. Steve Hudson, também responsável pelo argumento, trabalha, afinal, sobre uma derivação de sedutora ambiguidade: o monstro, de nome Stitch Head, com a voz de Asa Butterfield (protagonizou A Invenção de Hugo, em 2011, sob a direção de Martin Scorsese), é uma inocente criança (?), dominada pela tristeza de não ser verdadeiramente acarinhada pelo cientista que lhe deu vida.É uma solidão que se multiplica pelos cenários do castelo assombrado em que vive: Stitch Head é apenas um dos monstros gerados pelo génio científico do seu criador. Afinal, todos vivem em estado de pânico: têm medo dos humanos... Estamos perante uma genuína parábola, à maneira clássica, sobre as diferenças e a possibilidade de as relações humanas superarem as suas barreiras, tema recorrente, por exemplo, no universo de Tim Burton (lembremos o seu Frankenweenie, de 2012) e também no delicioso Monstros e Companhia (produção Disney/Pixar de 2001).Tudo se baralha um pouco com a personagem do diretor de um circo que tenta apropriar-se dos monstros para mera exploração comercial, nem sempre favorecendo o equilíbrio espetacular do filme. Seja como for, esta é uma descoberta gratificante, a provar que há uma distância muito curta entre o monstro literário de Mary Shelley (surgido em 1818) e a animação cinematográfica. .'Valor Sentimental'. A magia do cinema está nos rostos.'Living the Land'. Nostalgia e dor em paisagens chinesas