Francisco Louçã: "Manuel Resende era um poeta genial"

O ex-dirigente do Bloco de Esquerda conviveu muito noutros tempos da luta política com o poeta Manuel Resende. Perante a sua morte diz: "É uma perda pesada".

A amizade entre o poeta hoje falecido, Manuel Resende, e Francisco Louçã vem de longe, quando se conheceram na direção da Liga Comunista Internacionalista (LCI). Eram os tempos de 1974: "Ele foi o fundador da LCI (em dezembro de 1973), esteve no congresso de fundação do partido e foi um dos principais redatores dos textos políticos de referência da organização que depois deu origem ao Partido Socialista Revolucionário (PSR)".

Francisco Louçã recorda: "Conheci-o na direção e tinha reuniões semanais com ele", que se realizavam na "casa dele no Porto". Retrata o poeta dessas reuniões como um dos "jovens envolvidos na vaga da radicalização do final dos anos 1960" que contestavam a guerra colonial e "aspiravam um socialismo que não fosse subordinado à União Soviética e à China". O objetivo de Resende era, diz, "poder recuperar aquelas ideias do Maio de 68 e foi muito ativo nesse propósito".

Manuel Resende foi depois durante seis anos jornalista, relata Louçã: "Aí, sem a atividade política dos anos anteriores", tendo ido "viver para Bruxelas, cidade na qual o visitei várias vezes e onde era tradutor da União Europeia até se reformar e ter voltado a Portugal".

Em 2018, Louçã foi um dos que saudou a publicação pela editora Cotovia de um volume com a Poesia Reunida de Manuel Resende: "É um livro belíssimo e foi uma relativa surpresa para ele porque feita por alguns amigos em conjunto com a editora." Louçã confirma que Resende começou a desconfiar desse projeto porque "durante algum tempo os amigos andavam a pedir-lhe coisas, como opúsculos antigos e ignorados".

Considera que esse livro "foi uma grande alegria" para Manuel Resende, que era "um extraordinário poeta e também um tradutor genial". Explica: "Ele aprendeu grego pelo gosto de traduzir Kavafis, o que mostra o seu empenho numa tradução correta ao ir buscar às origens do grego certas expressões." Para Louçã, Manuel Resende "era um homem de grande cultura e é uma perda pesada para todos os seus amigos e para a poesia portuguesa também".

Entre as várias reações à morte de Manuel Resende está a do Presidente da República : "Foi um poeta de cunho surrealista, atento às vicissitudes políticas da História, lírico, sarcástico, empenhado, que publicou apenas três livros de poemas, entre 1983 e 2004, que muitos descobriram, na sua força e singularidade, com a edição, em 2018, de Poesia Reunida.

Entre as várias traduções de Manuel Resende estavam autores como Brecht, Kafka, Kavafis e Katherine Mansfield.

Iniciou a sua carreira literária com Natureza Morta com Desodorizante, a que se seguiu Em Qualquer Lugar e O Mundo Clamoroso, Ainda.

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