Há uma frase do seu pai no filme a dizer que ouvir vezes sem conta um concerto gravado é como fazer amor com uma foto de Marilyn Monroe. Para o maestro Sergiu Celibidache a música devia ser ouvida numa sala de concertos. E recusava contratos para gravações. É a prova máxima do amor à música?Não creio que fosse uma escolha para ele, porque quando se sabe o que está a tentar fazer com a orquestra e, por extensão, com o público, está a convidar o público e cada músico a reagir ao som ao vivo, ao impacto do som na sua alma e à forma como reagem uns aos outros. Por exemplo, se uma flauta for tocada de uma determinada forma, como violinista, para tentar iniciar um diálogo, responderei da forma como ouvi a flauta nesse dia. Assim, talvez a flauta soe de forma diferente amanhã do que ontem e anteontem. Trata-se de estar realmente presente naquele momento, pois só se é capaz de reagir ao som que se ouve naquele instante. O que acontece com a mecânica da música gravada é que, infelizmente, no dia seguinte, e no outro, ouve-se exatamente o mesmo som que se ouviu no dia anterior. Assim, lentamente, sem se aperceber, está a matar a sua espontaneidade. E o que é a espontaneidade? É a verdadeira capacidade de estar vivo. É ouvir sem saber quais serão os próximos sons. Se começa a ver a melodia, entra num mundo mecânico e, aos poucos, torna-se incapaz de se conectar com o som que virá amanhã como uma experiência pura e nova, fresca. Com este filme está a despertar muita curiosidade sobre o seu pai. Ele morreu em 1996 e a única forma de ouvir a música dele hoje em dia é pelas poucas gravações que há. Como concilia isso com a tal espontaneidade?A ideia é que essas gravações sejam vistas como um documento. Voltando ao caso de Marilyn, basicamente está-se a olhar para a fotografia de uma pessoa, tem-se uma ideia da beleza, mas não se acredita que essa fotografia vai ganhar vida em 3D e transformar-se em algo real. O mesmo acontece com a gravação. Consigo ouvir a flauta, consigo ouvir o diálogo, o contexto. Tudo está em perspetiva. Mas não é música, é um documento. É a memória de um acontecimento. Como uma fotografia, que é a memória de uma pessoa, mas a duas dimensões. Eu convivo com CDs todos os dias. Mas não confundo isso com a experiência de vida, com a oportunidade de ir a uma sala de concerto.O maestro Celibidache brilhou em Berlim e apresentou-se em salas de concerto por todo o mundo. Mas no filme há aquele momento em que regressa a Bucareste em 1970, e no magnífico Ateneu interpreta Rapsódia Romena, de Enescu. Foi um momento muito especial para o maestro?Ele tentou vir antes. Não aceitaram as condições dele. Os comunistas romenos estavam com medo. Receavam que falasse demais. O meu pai não respeitava o regime. Por isso, veio muito mais tarde do que queria. Ele queria ajudar o mundo da música na Roménia. Ele queria muito participar, ajudar, tornar mais internacional. Deixaram-no vir em 1970, e depois em 1978 e 1979. O concerto na realidade com a Orquestra Enescu foi na segunda visita. Foi aqui que permiti que a ficção e a realidade se misturassem, para a construção da narrativa.Nessa época era uma celebridade mundial e muito apreciado pelos romenos. Ele ainda é um nome popular num país que é de grandes apreciadores de música clássica?Sim. Fiquei surpreendido com a repercussão que o filme teve. Algumas pessoas foram pelo filme em si, outras pelo nome. Ele está na consciência das pessoas. E notei algo ainda mais impactante. Muitos dos que compareceram, e sei disso porque participei em muitas sessões de perguntas e respostas e assisti a muitas exibições para sentir um pouco do ambiente e das reações, comentaram: “Lembro-me de ouvir o seu pai quando estávamos no comunismo. Era só Ceausescu. E depois uma pausa musical com o seu pai como símbolo na rádio”. Penso que isso representava para os romenos como oxigénio para lidar com esse regime opressivo. Era a esperança encarnada por um romeno que vivia no mundo livre. Assim, para eles, subconscientemente, acredito que se tornou uma esperança de que lhes fosse permitido ser livres um dia. No início, o distribuidor romeno disse que não íamos conseguir mais de 50.000 ou 60.000 espectadores. Que era impossível um filme destes conseguir mais. E eu pensei: “Bem, para mim, se não chegarmos aos 200.000, fico desiludido.” E já estamos nos 520.000. Continua a fazer sucesso nos cinemas. Tem sido um fenómeno aqui. Penso que, no fundo, é o símbolo de algo muito positivo na Roménia. Representa a bela Roménia. E também é admirado por ser alguém que não tinha medo de dizer o que pensava. . Este A gravata amarela é um filme seu sobre o seu pai. Mas a relação pai-filho também está muito presente no próprio filme, por causa da relação conflituosa entre o seu pai e o seu avô, que tinha muitos planos para o filho, até ser primeiro-ministro. Ter um filho músico não era algo com que lidasse com facilidade, mas no momento final do filme, tornou-se óbvio que o seu avô estava muito orgulhoso das conquistas do seu pai. É assim?É verdade. Essa é a parte mais emocionante. E sempre quis fazer um filme disso. Achei a história dele inacreditável, muito boa. Mas sempre pensei que não se tratava de música nem da Roménia. Tratava-se de seguir o coração e os sonhos. E, no final de contas, a relação, o facto de cada pessoa na vida, acredito, esperar ter a aprovação dos pais, da mãe ou do pai. Ele foi atrás do seu sonho. E o facto de o pai ter reconhecido isso torna o filme muito mais universal do que apenas um filme sobre um músico, que talvez interesse apenas a um nicho do mundo musical. Se for um filme sobre um romeno que fez sucesso, então será apenas sobre a Roménia. E senti que esta história tinha os ingredientes de algo com que a maioria de nós se pode identificar. É aquela admiração de olhar nos olhos dos nossos pais e saber que os deixámos orgulhosos. E, neste caso concreto, ele sai da Roménia completamente contra a opinião do pai. E depois, vem a Segunda Guerra Mundial e o nazismo na Europa, e depois vem o comunismo. Estão separados. Ele não pode voltar atrás para compensar o que fez. E isso é uma tragédia. Este é o elemento mais dramático de um filme emocionante e fantástico. Para mim, foi emocionante o facto de, no final, ele descobrir que o pai era o seu maior fã como maestro. .Bucareste celebra Enescu, o compositor “à frente do seu tempo” que pôs a Roménia no mapa da música clássica