Antero de Quental fala de fadas e diz que “umas são moças e belas”, outras “velhas de pasmar”. E informa-nos até que podem viver nos mais diversos sítios. Desenhar fadas é um desafio para a imaginação?Fiquei fascinada com o poema, com a experiência de Antero de Quental no Tesouro Poético da Infância e com o diálogo com as duas filhas adotivas, órfãs de Germano Meireles, Beatriz e Albertina. Era como se Antero contasse uma história ao adormecer as crianças. O próprio autor confessa que viveu nesse período os momentos mais felizes da sua vida. Quando me foi pedida a ilustração, procurei responder ao desafio através de uma aproximação imediata e intuitiva e criei um vocabulário de formas e de símbolos utilizando a colagem, a tinta e a aguarela. Ilustrou em tempos um livro em que João Grosso deu voz ao poema e que teve um estudo introdutório de Ana Maria Almeida Martins. Como foi a sua descoberta pessoal deste poema de Antero, publicado em 1883, numa altura em que o escritor tinha adotado as duas meninas? A voz acolhedora de João Grosso, torna o poema familiar, e o prefácio de Ana Maria Almeida Martins espelha com muita felicidade como um autor consagrado se torna tão próximo. Foi desafiante refletir sobre os mitos das fadas e sobre o poder que elas sempre representam para todas as crianças, inclusivamente para mim. A beleza e a fealdade andam de mãos dadas com o amor, o medo, a luz e a sombra. Foram o luar, as montanhas, as grutas verdes, os vestidos, os palácios, os sábios, as vinganças, as serpentes, as fadas que não são novas nem velhas nem bonitas nem feias, a noite e o sonho que inspiraram as ilustrações propositadamente de pequena dimensão e de caráter mais delicado.E o próprio Antero? O também autor de Causas da Decadência dos Povos Peninsulares é uma figura que a fascina?Antero, como o próprio Fernando Pessoa reconheceu, é um dos maiores poetas da língua portuguesa. A sua poesia lê-se hoje com enorme prazer, continuando a ter toda a razão de ser. Antero de Quental é uma figura inspiradora tanto pelo seu percurso de vida, pelos combates que empreendeu em prol da defesa da liberdade e do desenvolvimento do país, como pela obra literária que deixou. Perante o desafio colocado a minha preocupação foi a de que as ilustrações sublinhassem e mantivessem o sentido poético da obra. Procurei um diálogo entre o poema e as ilustrações. O que espera como reação de quem visitar esta exposição? Que volte por uns momentos à meninez e se encha de curiosidade sobre o mundo das fadas? Para quem visitar a exposição no Centro Nacional de Cultura desejaria sensibilizar para a importância do diálogo entre a literatura e as artes, neste caso concreto entre a poesia, a pintura, o desenho, sob uma visão e releitura do poema à luz da contemporaneidade. Para além das ilustrações a exposição também apresenta obras minhas mais recentes inspiradas em símbolos e imagens criadas à volta do poema, como por exemplo: a terra, as árvores, as montanhas, as pedras, as grutas, a sombra, o espelho, a noite, o sonho, a lua e a água. Este poema, em especial, apesar de ser dedicado a crianças, apela às grandes questões da vida e do mundo.Formou-se em Portugal como arquiteta, mas já viveu em Londres e agora vive em Amesterdão. Está a fazer o doutoramento. O que a leva a ter também uma faceta artística?Formei-me em arquitetura no Instituto Superior Técnico, fiz o mestrado na Faculdade de Arquitetura, tenho um master em Belas Artes da Central Saint Martins School, University of Arts London, e atualmente estou a finalizar o doutoramento em Arquitetura no Instituto Superior Técnico. Já residi em Londres onde tive oportunidade de expor alguns dos meus trabalhos de pintura, como por exemplo na Galeria Collyer Bristow. Recentemente esta mesma exposição esteve em Vila do Conde. Vivo agora em Amesterdão e tenho três filhos. Em todo este meu percurso a pintura acompanhou-me sempre e a ela dedico grande parte do meu tempo. A inovação e o encontro de várias manifestações artísticas motiva-me. E esta experiência com a poesia de Antero, graças à iniciativa da Tinta da China e de Bárbara Bullhosa, foi um modo de viver esse extraordinário encontro.