Fado das Horas e Sodade. Madonna em português em Lisboa

Madonna volta a Lisboa para, no Coliseu, homenagear a cidade que lhe deu nova vida artística. Teve Dino d'Santiago, Gaspar Varela, as Batukadeiras e uma série de músicos lusófonos, num espetáculo que é uma mistura de comício político, celebração religiosa e festa mundana.

Ainda faltam alguns minutos para o início do concerto, terça-feira à noite, e à medida que vai enchendo, a por vezes tão enorme sala do Coliseu dos Recreios, em Lisboa, parece tornar-se cada vez mais pequena. Afinal, não é todos os dias que se vê uma das maiores estrelas pop do mundo assim tão perto, literalmente "olhos nos olhos", como a própria Madonna fará questão de sublinhar, quando mais tarde subir ao palco. Este não é, portanto, um concerto como os outros. Sente-se isso na rua, multidão multinacional que ordeiramente forma duas filas para entrar no coliseu, mas especialmente na sala, onde os níveis de ansiedade se vão acalmando ao som de um quarteto composto pela comitiva lusófona de Madonna, os percussionistas Carlos Mil-Homens e Miroca Paris, o guitarrista Gaspar Varela e a trompetista Jéssica Pina, que se despediu ao som de uma versão instrumental de Like a Virgin, por todos cantada em coro.

Quando as luzes se apagaram e pela primeira vez se ouviu a voz de Madonna, a falar no tal espetáculo "olhos nos olhos", "sem telemóveis pelo meio", o silêncio foi total, tal como na coreografia inicial, feita por um bailarino, apenas ao som de uma máquina de escrever, enquanto eram projetadas numa tela algumas frases do escritor e ativista afro-americano James Baldwin. "A arte está aqui para provar que toda a segurança é uma ilusão", lê-se a dada altura no palco, como que antecipando as quase três horas de espetáculo prestes a iniciar.

Mais que um mero concerto pop, a atuação de Madonna está mais próxima do conceito de musical, em que as canções, os cenários e as coreografias servem para fazer passar uma mensagem política. De apoio às minorias, à luta pela liberdade, ao feminismo, à emancipação individual de cada um. Em suma, ao direito de se ser feliz. E músicas como as que compõem o último disco Madame X são a banda sonora perfeita para tal tipo de evangelização, como ontem se viu em Lisboa logo no arranque do concerto, ao som de God Control, com Madonna a alertar o público - "this is your wake up call" - para a urgência de uma "new democracy".

A primeira grande explosão da noite dá-se no entanto com Human Nature, tema do álbum Bedtime Stories, de 1994, no qual Madonna divide o protagonismo com a trompetista portuguesa Jéssica Pina, antes de terminar a cantar à capela, acompanhada de um coro de mulheres negras, que inclui as filhas Esther, Stella e Mercy: "I´m not your bicth, don't hang your shit on me".

No palco sucedem-se as mudanças de cenário, escadarias, varandas, passadiços e todo o tipo de estruturas, por onde sobem e descem bailarinos e músicos. Por trás de um biombo Madonna muda ali mesmo, deixando apenas à vista as pernas, abertas. "Dizem que os olhos são os olhos da alma, mas há outra parte do corpo que deixa ver a alma muito melhor", provoca, antes de dizer um sonoro "caralho", a única asneira que sabe em português, confessa.

"Em quem pensam quando falo em pilas pequenas?" A resposta do público foi automática e algures, em Washington, o presidente dos Estados Unidos deve ter ficado com as orelhas a arder. "Não tenho conhecimento empírico sobre esse assunto, mas sei que o tamanho realmente importa", adianta. Strike a Pose, ouve-se entretanto, antecipando mais uma explosão do público, por esta altura já todo de pé, apesar das cadeiras, para dançar ao som de Vogue, o clássico de 1990. O regresso a Madame X acontece com I Don´t Search I Find, que serve para Madonna explicar quem é este novo alter-ego: "é dançarina, professora, chefe de Estado, prisioneira, estudante, mãe, criança, freira. É uma rainha, mas também é uma prostituta. Quem é que vocês preferem que eu seja, a rainha ou a prostituta?"

Sozinha em palco, Madonna tira então uma polaroid de si própria, "a única fotografia que vai haver desta noite", sublinha, recordando novamente tratar-se de um concerto sem telemóveis (os aparelhos são guardados numas bolsas, apenas abertas à saída). Como aconteceu nos restantes concertos da digressão de Madame X, Madonna leiloa ali mesmo a fotografia. Na primeira noite rendeu cinco mil euros, pagos por um fã brasileiro, e ontem outros mil, desembolsados por Juan, que veio de propósito de Espanha para a ver.

Donald Trump, "o psicopata que inventou uma guerra", volta novamente à baila, em jeito de introdução para American Life, o tema de abertura do álbum com o mesmo nome, editado em 2003. O ambiente está no entanto prestes a mudar, como se percebe quando irrompe pela sala a Orquestra de Batukadeiras de Cabo Verde. Já em palco, sentadas num semicírculo à volta de Madonna, interpretam com ela o tema Batuka, num dos momentos mais comoventes da noite, que termina com todas de mãos dadas.

Madonna chega-se então para a frente do palco, para contar ao público a história da sua relação com Lisboa, das pessoas que aqui conheceu e de como a cidade a inspirou. O discurso é muitas vezes interrompido por declarações de amor vindas do público, nas mais variadas línguas e sotaques. Madonna aproveita e também faz uma declaração de amor, à "grande amiga Celeste Rodrigues", que homenageia cantando um fado, acompanhada apenas pela guitarra portuguesa de Gaspar Varela, bisneto da fadista. "Outra grande mulher, a Celeste", desabafa, antes de voltar a Madame X, com Killers Who Are Partying: "O mundo é selvagem, o caminho é solitário", volta a cantar em português.

Abrem-se entretanto as cortinas e o cenário está agora transformado numa típica casa de fados lisboeta. "Bem-vindos ao meu clube de fados, onde se bebe amarguinha". Ouve-se La Isla Bonita, que se funde com Sodade. Madonna chama então ao palco o "rei do Funaná", Dino D' Santiago, com quem interpreta a meias uma arrepiante versão do clássico de Cesária Évora. Na plateia, todos cantam e alguns fãs cabo-verdianos não conseguem conter as lágrimas. "Tinha muita vontade de cantar esta canção para um público que soubesse a letra", confessa no final.

A temperatura volta a aquecer com Medellin, noutro dueto, este virtual, com o cantor colombiano Maluma, durante o qual a cantora desce até à plateia, para dançar no meio do público. Voltará mais tarde, desta vez acompanhada pelo filho, David, para se sentar na primeira fila, a descansar um pouco, ao lado de Ben, um jovem enfermeiro alemão, vestido com um soutien em forma de cone, idêntico ao que Madonna usou em 1990, durante a Blond Ambition Tour. "O que tens aí dentro"? Pergunta, enquanto divide uma cerveja com o fã, que lhe responde que "é apenas um par de meias". "Veem? O tamanho realmente importa", atira antes de regressar ao palco, para interpretar Extreme Occident, outro tema do novo disco, no qual também canta em português - "Aquilo que mais magoa é que eu não estava perdida".

Segue-se novo regresso ao passado, desta vez ao som de Frozen, a balada incluída no álbum Ray of Light, de 1998. Madonna interpreta a canção atrás de uma tela semitransparente, onde aparece projetada uma coreografia que tem como protagonista a filha mais velha, Maria de Lourdes. Após este momento mais intimista, a temática política regressa com Come Alive e Future, dois dos temas mais panfletários de Madame X, com a cantora americana a aproveitar a ocasião para fazer um discurso sobre "o valor da liberdade", exortando todos os presentes a serem, tal como ela própria, "lutadores da liberdade".

A artista avisa que já só falta uma música, mas ninguém arreda pé após a animada festa disco de Crave - não faltou sequer uma bola de espelhos gigante, a fazer lembrar os velhos tempos do Studio 54, em Nova Iorque, onde Madonna começou a cantar. Todos sabem que ainda falta um dos momentos mais aguardados da noite e quando se ouvem os primeiros acordes do clássico Like a Prayer o Coliseu explode como ainda não tinha acontecido até então. Por todo o lado se canta e dança ao som do coro gospel que acompanha Madonna em palco.

Agora sim, podia acabar, mas não, ainda faltava algo. Ouvem-se novamente as teclas da máquina de escrever: "os artistas existem para perturbar a paz", aparece desenhado nas paredes do coliseu, numa nova citação de James Baldwin que parece resumir na perfeição toda a carreira de Madonna.

No ecrã surge então a imagem de Emma González, a jovem ativista anti-armas americana, que em 2018 sobreviveu a um massacre na sua escola da Flórida. São dela as palavras ouvidas no início de I Rise, a faixa-manifesto que encerra Madame X - o disco e o concerto. De punho cerrado e braço levantado, Madonna entoa as últimas palavras de ordem, acompanhada de todos os músicos, bailarinos e cantoras: "Yeah, we gonna rise up. Yeah, we gonna get up. Yes, we can, we can get it together". Depois, desaparece no meio do público, como se fosse apenas mais um de nós. De facto, isto é mais que um simples concerto.

(Vídeo: Ricardo Gomes)

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