Miroca Paris no Capitólio no intervalo dos espetáculos com Madonna

O percussionista cabo-verdiano de Madonna aproveita a passagem por Lisboa para apresentar o primeiro disco a solo, D'Alma, que marca um regresso aos ritmos mais tradicionais do país natal.

Já lá vão mais de duas décadas desde que Miroca Paris chegou a Lisboa, vindo da ilha de São Vicente, para estudar na escola do Hot Clube. Tinha apenas 19 anos e quase de imediato começou a tocar em bares e a acompanhar artistas como Sara Tavares ou o tio Tito Paris. Em 2000, um inesperado convite para integrar, como percussionista, a banda de Cesária Évora mudou-lhe o destino.

Permaneceria com a "Diva dos Pés Descalços", até à morte desta, 11 anos depois, iniciando então uma prolífica carreira como músico de estúdio e de palco, que o levaria a colaborar com "quase 200 artistas" de diversas nacionalidades. Foi Cesária Évora quem, pela primeira vez, desafiou Miroca a compor e gravar a sua própria música. A estreia aconteceria finalmente em 2018, com a edição do aclamado D´Alma, um disco que marca o regresso ao violão, o instrumento com o qual cresceu em Cabo Verde.

O multi-instrumentista encontra-se atualmente em digressão com Madonna, que conheceu em Londres, em 2007, nos camarins de Cesária Évora e reencontrou mais recentemente em Lisboa, aquando da mudança da rainha da pop para a capital portuguesa. "Uma coincidência muito feliz", como afirma nesta entrevista ao DN, dias antes de subir ao palco do Coliseu com Madonna e do Capitólio em nome próprio, onde na sexta-feira apresenta a sua música, na companhia de Vaiss Dias (guitarra e cavaquinho), Cau Paris (bateria), Xico Santos (baixo), Jéssica Pina (trompete), Kalu Ferreira (teclas), Elmano Coelho (saxofone e flautas) e a ainda cantora cabo-verdiana Nancy Vieira como convidada.

Como aconteceu o encontro com Madonna, com quem está atualmente em digressão?
Lisboa tem que ver com isso, Cabo Verde também tem que ver com isso e a Cesária também tem um bocadinho. Pouca gente o sabe e nem a própria se devia lembrar, mas a primeira vez que me cruzei com a Madonna foi por volta de 2007, depois de um concerto da Cesária em Londres, no Elisabeth Hall. Ela fez questão de ir ao nosso camarim, para conhecer e cumprimentar a Cesária. A Madonna é uma fã enorme da Cesária Évora e já não é de agora.

Madonna faz inclusivamente uma versão do tema Sodade, nesta digressão...
Sim, sou eu que a acompanho à guitarra nesse momento do espetáculo, porque ela queria um estilo mais cabo-verdiano.

Foi por isso que acabou a tocar com Madonna nesta digressão?
Não sei, talvez, apenas sei que ela, já aqui em Lisboa, pediu sugestões para um percussionista e surgiu o meu nome, graças a Deus e ao trabalhão enorme que tive para chegar aqui [risos]. Mas ninguém lhe disse que eu tinha tocado com a Cesária, foi uma coincidência muito feliz.

Como e quando é que conheceu Madonna?
Foi durante a rodagem de um documentário sobre o disco Madame X, rodado no Panorâmico de Monsanto, onde acabei por tocar percussão ao lado dela. Semanas depois, convidou-me para rodar o videoclip de Medellín, o primeiro single do álbum, no qual também participou o colombiano Maluma. Correu tudo bem e, novamente, algumas semanas depois, recebi um email a convidarem-me para a tournée da Madonna. É esta a história. Foi uma oportunidade que surgiu, mas a coincidência de ter tocado com a Cesária, de quem a Madonna tanto gosta, é que acabou por selar a coisa, mas são sei, porque nunca falámos sobre isso. Sei é que a Madonna nunca falha nas escolhas que faz.

Como caracteriza Madonna, depois destes meses com ela na estrada?
É uma pessoa muito perspicaz a detetar talentos, como se percebe nesta enorme comitiva lusófona que anda com ela na estrada. Creio que foi a forma de ela mostrar a sua gratidão por Lisboa, pela forma como foi recebida e como aqui se inspirou para fazer este disco. É uma pessoa que trabalha muito, que se esforça para nunca cair na repetição, para estar constantemente a inovar-se.

E tem aproveitado a digressão com Madonna para também apresentar o seu disco pelos sítios onde passam, como vai fazer agora em Lisboa?
Exatamente, dei alguns concertos nos Estados Unidos e agora pretendo fazer o mesmo na Europa.

Quem é que vai assistir a esses concertos, a comunidade cabo-verdiana ou também alguns fãs de Madonna?
Há um bocadinho de tudo, até alguns fãs de Madonna, sim. Tive até alguns concertos em que não havia um único cabo-verdiano no público. Mas, tal como acontecia com Cesária Évora, não toco só para a diáspora, até porque a música cabo-verdiana já começa a ser muito conhecida no mundo, especialmente agora que a morna foi eleita Património Imaterial da Humanidade. Só é pena que a maioria das pessoas que mais contribuíram para isso já cá não esteja, para assistir a um momento tão importante para o povo de Cabo Verde. Mas nós estamos cá para dar continuidade a esse trabalho.

Quem é que o acompanha em palco nesses concertos?
Normalmente, é o Carlos Mil-Homens, que é o segundo percussionista de Madonna, e a trompetista Jéssica Pina, com quem já trabalho há muito tempo em Lisboa e que também faz parte da banda de Madame X. Mas aqui no concerto de Lisboa, por ser também a minha cidade, vou ter mais pessoas em palco.

Apesar de já ter mais de duas décadas de carreira, este disco em nome próprio tardou a surgir. Porquê só agora?
As coisas têm de acontecer naturalmente e depois de tantas experiências acumuladas ao longo destes 20 anos senti-me finalmente preparado para gravar um disco com o meu nome na capa. Não tinha de ser antes nem tinha de ser depois, mas sim exatamente naquele momento.

O que o fez sentir que tinha chegado esse momento?
Reconheço que o mais óbvio seria ter gravado enquanto andei em digressão com a Cesária Évora, mas durante esse tempo aproveitei para compor, não só para mim mas também para outros artistas, embora depois tenha aproveitado alguns desses temas para o disco. Foi só depois de a Cesária falecer que comecei a preparar-me mais a sério para ir para estúdio gravar a minha música. E mesmo depois disso ainda demorou alguns anos até o disco sair, porque sempre acompanhei muitos artistas pelo mundo fora, o que acabou por atrasar ainda mais todo o processo de lançamento do disco.

Como é que foi a experiência de acompanhar em palco, durante mais de dez anos, uma artista como Cesária Évora?
Em primeiro lugar, nunca imaginei que tal pudesse vir a acontecer. Tocava com a Sara Tavares na altura e, durante uma passagem da Cesária por Lisboa, o produtor dela entrou em contacto comigo, disse-me que precisavam de um percussionista e convidou-me para ingressar na banda. Tinha 20 anos na altura e nem um mês depois dessa conversa mudei-me de Lisboa para Paris, para começar a preparar a nova tournée da Cesária. Pensava que ia ficar um ano ou dois, mas permaneci na banda durante mais de dez anos. Foi uma experiência avassaladora, porque a Cesária era uma pessoa muito especial e ainda continua a ser, pelo menos para mim. A voz dela tem um efeito em mim que eu não consigo explicar. Passado tanto tempo, há coisas na Cesária que ainda continuo a processar.

Mas, ao mesmo tempo, continuou a tocar com Sara Tavares?
Sim, nos intervalos das digressões da Cesária. Nunca poderia deixar a Sara, porque quando cheguei a Portugal, com apenas 17 anos, foi ela que me foi buscar aos bares onde então tocava. Isso fez-me acreditar mais em mim e passar a ter os meus objetivos, enquanto músico, muito mais definidos. A Sara foi das artistas que mais me moldaram e a Cesária acabou por ser uma continuidade disso.

Também é um músico muito solicitado para sessões de estúdio, certo?
Isso é o que eu faço mais, ainda hoje. Acho que já toquei com quase 200 artistas, a maior parte do universo da lusofonia, mas também franceses, polacos, americanos e até israelitas.

Como foi o processo de criar um estilo próprio, para este disco, depois de tocar com tanta gente diferente?
Tive, naturalmente, de regressar às minhas referências iniciais de Cabo Verde, cuja música mais tradicional já é, por si própria, uma enorme mistura, tal como a nossa história, aliás [risos]. Fiz a base a partir daí e gradualmente fui acrescentando algumas outras cores, oriundas de outras latitudes por onde passei. O disco foi gravado em seis países diferentes...

Miroca Paris

Capitólio, Lisboa. 17 de janeiro, sexta-feira, 21.30. 20 €

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