Figuração da TV. Com palmas em pausa o rendimento extra tarda em regressar

Entre bater palmas e fazer figuração especial, os elementos que compõem as plateias de programas de televisão e participações em novelas podiam fazer até 300 euros por mês. Um rendimento interrompido devido à pandemia e que tarda em regressar

Albertina Miguel não está com o Manuel Luís Goucha desde 10 de março. Rogério Rosa espera o resultado de um segundo teste ao Covid-19 para voltar a pisar um cenário de uma novela da TVI, o segundo em quase quatro meses. Ela tem 69 anos, ele tem 67 e fazem figuração em programas de televisão há anos. Um rendimento extra que foram somando às reformas magras e que, há cerca de três meses, não cai na conta.

Albertina e Rogério fazem parte de um universo de milhares de pessoas que ou ainda estudam, ou trabalham ou estão desempregados, ou que estão reformados e fazem figuração. Um trabalho que, entre programas de televisão, novelas, filmes e publicidades, foi para intervalo por todos terem de ficar em casa desde o momento em que os canais suspenderam as plateias para evitar propagação do Covid-19.

"A mim faz-me muita falta voltar a ir aos programas porque, quando vou, estou com a cabeça entretida e, depois, o dinheiro ajuda-me a pagar os medicamentos, sou diabética, hipertensa e faz muita diferença", conta Albertina Miguel. Esta viúva, residente no Cacém, conta agora com a filha para suprir o encaixe em falta "num valor quase igual ao que recebia com a reforma". "Recebo 177 euros de reforma e tenho a pensão de viuvez, mas conseguia fazer quase tanto em figuração diariamente", explica esta mulher que está em estúdios há 16 anos, numa base quase diária, e que até recentemente "ia de manha à TVI [ao programa Você na TV] e à tarde à RTP1 [A Nossa Tarde, de Tânia Ribas de Oliveira]"

O recibo verde de Rogério Rosa costumava rondar "os 200 a 300 euros por mês", e só há cerca de uma semana é que voltou a figurar num set de filmagens. "Antes fazia novelas duas a três vezes por semana e ia aos programas da tarde, era o meu meu complemento a uma reforma baixa, e acabava por ganhar tanto de um lado como do outro, era ela por ela", diz ao DN.

Agora, Rogério começa vagarosamente a voltar ao trabalho. "Comecei por fazer uma participação na novela da SIC, Nazaré, onde fiz de um trabalhador numa fábrica de peixe, mas tive cuidados especiais: fui ao meu médico e pedi para fazer o teste à Covid-19 antes de ir para estúdio, deu negativo e trabalhei durante meio-dia", conta. Esta semana, prepara-se para regressar a uma outra produção de ficção: "Volto na sexta para as gravações de uma novela na TVI, mas vou fazer primeiro o teste na quarta, a [produtora] Plural exigiu. Só vou se der negativo."

A Valente Produções, um das maiores empresas de figuração em Portugal, diz estar a começar a ligar as máquinas nesta fase, ao "fim de quatro meses parados". "Se antes da pandemia contratava cerca de 400 pessoas por dia, atualmente se calhar falamos de dez, talvez 15", diz Valente, o dono desta empresa que integra "20 mil figurantes em Lisboa, oito a nove mil no Porto" e que também tem uma estrutura no Algarve. "Em novelas, por exemplo, de uma semana inteira de filmagens passámos para um dia, está tudo reduzido ao mínimo", acrescenta.

E se o pano começa agora a levantar-se neste setor da televisão, ele está a subir de forma muito lenta. "Estamos a preparar o regresso e estamos a falar preferencialmente com as pessoas cujo historial foi mais recatado nesta pandemia", diz Valente. "Não posso arriscar enviar um figurante que esteja contaminado com o novo Coronavírus", vinca o responsável da empresa. E como selecionam, afinal? "Estamos a escolher profissionais com os quais trabalhamos há anos e conhecemos bem", argumenta Valente. Mas há mais critérios: "Como temos pessoal em casa, eles começaram a fazer contactos telefónicos e fazem pesquisa pelas páginas do Facebook do historial dos últimos três meses". "Os mais cuidadosos são os primeiros a serem chamados", avisa.

Seis e sete euros por três horas de programa

Bater palmas num programa matutino pode ser pago, no limite, até aos dez euros, mas é raro. Muitas empresas praticam preços que rondam os seis e os sete euros por três horas de presença em estúdio. Valores que estão sujeitos a descontos decorrentes de uma colaboração extraordinária e que têm de esticar, como conta Albertina Miguel, para "ir ao cabeleireiro - porque temos de nos arranjar, ter brio e não deixar ninguém mal visto - e para usar nos transportes". Goucha, conta esta viúva, "tem sido um dos que tem defendido em direto que devíamos ser mais bem pagos".

Se o trabalho implicar uma presença numa cena, os valores podem chegar aos 25 euros por dia, com almoço incluído. Se se tratar de uma figuração especial, em que um anónimo passa a ser presença assídua numa determinada situação de ficção, o valor pode atingir os 70 a 75 euros, também com direito a refeição.

O regresso muito lento a este trabalho episódico começa a ser feito com novas regras e para os quais Valente diz que os figurantes estão preparados. Para lá dos testes à Covid-19 que estão a ser feitos, "ninguém pode estar em estúdio sem máscaras, há desinfeção frequente", explica o responsável.

No que diz respeito a refeições, "já nada é como antigamente", ressalva o empresário. "Se antes, havia regime de self service em que cada um se servia, agora as refeições são servidas em caixinhas que vão depois para o lixo e os figurantes estão separados das restantes equipas de produção", acrescenta. "Os cuidados estão super-controlados", conclui.

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