Apresentado na secção de ante-estreias do Festival de Cannes de 2025, Magalhães é um filme centrado numa figura lendária da história portuguesa, Fernão de Magalhães (c.1480-1521), navegador pioneiro das viagens de circum-navegação. Com uma assumida inversão simbólica — como se escreve no dossier que acompanhou o filme em Cannes: “Isto não é o mito de Magalhães, mas a verdade da sua viagem.”Que verdade, então? Não a epopeia narrada por Stefan Zweig no seu Fernão de Magalhães (ed. Relógio D’Água). Esta é uma proposta que reflete a sensibilidade de uma pós-modernidade cuja exigência de verdade (histórica, antes do mais) tem pontuado, de formas muito diversas, a evolução dos filmes a partir da decomposição das suas estruturas clássicas de produção. Recordando apenas a dimensão mais popular do cinema, foi de Hollywood que vieram os primeiros sinais de tal processo através do “revisionismo” ideológico de alguns westerns das décadas de 1960/70 (John Ford, Sam Peckinpah, etc.).Magalhães reflete a plurinacionalidade de todo esse cinema, já que tem chancela de uma empresa portuguesa, Rosa Filmes, associada a entidades de Espanha, França e Filipinas. O realizador, Lav Diaz, é filipino (nascido em Columbio, província de Cotabato, em 1958) e tem-se afirmado através de filmes que, de facto, discutem formas tradicionais de representação das pequenas ou grandes histórias de que se faz a história coletiva — lembremos a saga de uma comunidade pobre das Filipinas em A Estação do Diabo (2018).Recusando as marcas do mito, duas componentes essenciais definem a construção narrativa do filme. Primeiro, a transfiguração política de Magalhães (interpretado pelo mexicano Gael García Bernal) que, depois do rei D. Manuel I não aceitar viabilizar a sua proposta para descobrir uma nova via mercantil (de circum-navegação, precisamente), encontrou no reino espanhol o apoio para a sua viagem. Depois, a viragem ideológica e moral dessa viagem, fundamentada num princípio de união de civilizações através difusão da fé cristã, mas, na prática, pontuada pelo assassinato de muitos elementos das populações indígenas.Seguindo uma lógica austera de encenação por episódios — “quadros vivos” que, talvez com alguma ironia, possuem qualquer coisa de vinhetas de banda desenhada —, Lav Diaz concretiza, assim, a sua mensagem de desencanto e pessimismo. Ou como a pureza civilizacional surge assombrada pelas memórias da sua violência.