O antigo ministro da Educação, Eduardo Marçal Grilo, publicou recentemente a investigação Educação e Liberdade, dedicada aos anos entre 1970 e 1978, após ter estudado as décadas anteriores em Salazar e a Educação no Estado Novo. O perfil de ambos os volumes é, sem dúvida, de História, apesar de logo no início do segundo livro o autor esclarecer que não é historiador. Afirma antes que sendo interessado na área da Educação e fazendo muitas leituras sobre o tema, percebeu enquanto preparava o primeiro livro que existiam algumas figuras-chave, como Carneiro Pacheco, Leite Pinto e Galvão Teles, que mereciam atenção para se compreender a história mais recente da Educação em Portugal, e era importante deixar registado todo esse percurso.Seria quase impossível que tendo encontrado leitores interessados nessa investigação não a continuasse num segundo livro por dois dos períodos mais “revolucionários” da nossa História mais recente no setor da Educação: o do fim do anterior regime, em que a revolução foi de metodologias e de evolução protagonizadas pelas grandes reformas no ensino do ministro Veiga Simão; e o da verdadeira revolução, a do caos educativo no pós-25 de Abril, onde os desmandos até ao fim de 1975 proporcionaram situações que o autor sintetiza nesta frase: “As coisas pelas quais alguns de nós tivemos de passar…”Sendo o objetivo desta dupla narrativa a história da Educação, não é de estranhar que recorra à investigação e ao registo de memórias numa estrutura semelhante nos dois livros e que, tendo inscrito algumas das figuras-chave do período anterior, também faça questão de retratar as que se seguiram neste segundo volume, guiando assim o leitor por mais de quatro décadas numa área primordial para o país através dos seus protagonistas. Uma investigação que faz falta, como Marçal Grilo faz questão de realçar: “A maioria dos portugueses não tem hoje uma noção correta da evolução da universidade nestas últimas décadas. Entre este tempo do segundo volume e o de hoje o que existe são dois mundos completamente diferentes. Já não é necessário andar com uma lupa à procura de doutorados como em 1978, quando tínhamos 2600 e agora produzimos quase três mil por ano.” Educação e Liberdade também se ocupa do último ministro da Educação antes do 25 de Abril, Veiga Simão, já nomeado por Marcelo Caetano e que é considerado pelo autor como o mais reformista das últimas décadas. Explica: “É o ministro que dá o grande salto e o único governante do marcelismo que leva até às últimas consequências uma renovação com a publicação de legislação muito avançada, que impôs contra tudo e contra todos. Era pouco amado em muitos setores do regime, no entanto a boa e especial relação com o presidente do Conselho permitiu a Veiga Simão marcar durante quatro anos um processo de reforma reconhecido e que mobilizou gente da esquerda à direita."A seguir aos capítulos sobre Veiga Simão, Marçal Grilo dedica-se ao período pós 25 de Abril de 1974 e ao ano que se seguiu, designadamente ao PREC (Período Revolucionário Em Curso). Uma época que viveu profundamente, como descreve: “Estava na Academia e no Técnico e vivi intensamente esse tempo. O que procurei foi descrevê-lo às novas gerações e esclarecer os muitos disparates que se dizem sobre essa época, baseado na minha própria experiência.” A opinião que transmite sobre o que viveu à época questiona também “a facilidade com que hoje se fala do 25 de Novembro de 1975”, reavivando a certeza de que “entre março e novembro de 1975, muitas foram as situações em que o país terá estado à beira de uma guerra civil”.Essa experiência pessoal também é refletida na terceira parte, a entre 1976 e 1978, intitulada A Renovação de Sottomayor Cardia. Que caracteriza como um “tufão” devido à sua atitude para “derrubar as estruturas erguidas durante o período revolucionário”, com especial incidência nas universidades de Coimbra, Lisboa, Porto e Técnica e Lisboa, e de quem diz: «Um ministro que está muito esquecido e a quem a universidade portuguesa muito deve. Fui diretor-geral nesse período e acompanhei toda a sua trajetória nos I e II governos constitucionais.»Ao fazer no final uma “viagem pela memória”, Marçal Grilo destaca uma lista de personalidades que o marcaram e o ministro Cardia tem um lugar de destaque entre todos, bem como no relato da atividade deste na renovação do ensino: “São pessoas com quem trabalhei, e no caso dele, que éramos da mesma idade, apreciei muito a sua inteligência, o ser culto e ter uma formação política fortíssima, além de muito determinado e corajoso, tanto intelectual como fisicamente, enfrentando os problemas de frente. Habituei-me muito a essa forma de estar, mesmo que a minha vida política se resuma a quatro anos, entre 1995 e 1999.” Entre as figuras que não deixa de registar estão “algumas grandes referências na minha vida, como os professores Gouveia Portela e Costa André; e uma outra, entre as maiores, a do engenheiro Manuel Rocha (LNEC), um grande cientista e investigador.”Recorda a falta de “autoridade do Estado” logo a seguir ao 25 de Abril e que “os saneamentos mancharam mesmo quem tinha feito a revolução”. Poderia ou deveria ter sido de outra forma é a questão que se coloca: “Olhando à distância, entende-se que seria muito difícil naquela altura segurar a pressão popular, embora devamos distinguir a ação de uns e de outros. Por exemplo, se o PCP agiu sempre de forma institucional, a maioria das organizações de extrema-esquerda que existiam nas universidades tiveram uma atuação arbitrária e caótica. Tive conhecimento do que se ia passando nos vários estabelecimentos e, quando fui diretor-geral nesses dois governos constitucionais, apanhei em muito os estilhaços do PREC e compreendi que muitas das situações mais não eram do que resultado dos desmandos dessa época. A autoridade do Estado fora pouca e enorme a dificuldade em a exercer, mesmo que no PREC que eu vivi tenha entendido que as forças armadas tinham um núcleo moderado forte e não os modelos dos países do Leste ou terceiro-mundistas que seduziam outros setores militares.” Após estes dois volumes, em que Marçal Grilo considera ter feito uma espécie de biografias sobre as ações e ideias de várias figuras da Educação e fixado historicamente quase meio século do setor, é obrigatório fazer um exercício sobre o que aconteceu desde então com a normalização da vida política do país. Como a de ter existido frequentemente uma política de terra queimada a cada novo ministro da Educação ou a cada governo de cor diferente que é prejudicial para a Educação? Marçal Grilo discorda parcialmente da existência dessa prática: “Acho um termo um pouco excessivo. Dou um exemplo: a minha grande prioridade foi a educação-pré-escolar e esta tem vindo a ser reforçada por todos os governos que se seguiram. O que tem faltado é um entendimento entre os dois grandes partidos, que teria permitido uma situação muito mais estabilizada no setor. Dou outro exemplo: quando estive no Governo (PS), o líder do PSD era primeiro Fernando Nogueira, depois seguiu-se Marcelo Rebelo de Sousa, a quem disse que só poderia executar um programa se tivesse o apoio ou uma não oposição social-democrata. Disse-lhe o que queria fazer, ele concordou, e foi assim que se avançou tanto no pré-escolar como na nova Lei do Financiamento ou na Lei de Bases. Não diria que cada governo quer desfazer o que o anterior fez, mas concordo que existe muitas vezes a ideia de destruir o que os de antes fizeram."Como questão final, está a possibilidade de um autor ser imparcial no relato de um período a que assistiu e em que participou? Para Marçal Grilo a resposta é sim: “Procurei ser objetivo tanto no primeiro como no segundo livro e foi uma investigação que não me custou fazer. Este livro poderia ser muito maior, ter mais narrativa sobre Veiga Simão, o PREC e Sottomaior Cardia, mas considero que os livros devem ter um limite de páginas para que sejam lidos por todos.” Quanto a um terceiro volume, Marçal Grilo dá a resposta que está na moda entre os candidatos à Presidência da República: “Estou a ponderar.” Se avançar, garante que será diferente..EDUCAÇÃO E LIBERDADEEduardo Marçal GriloClube do Autor276 páginas.OUTRAS NOVIDADES LITERÁRIAS.CEM ANOS DEPOISNão podendo ter uma morte heroica nos campos de batalha da II Guerra Mundial, Yukio Mishima viveu até 1970, ano em que se suicidou. Amanhã ocorre o centenário do seu nascimento e está de regresso às livrarias uma nova edição de Confissões de Uma Máscara, com prefácio de António Mega Ferreira, o romance que projetou o autor japonês e uma das suas obras mais autobiográficas, pois será sempre atribuído ao protagonista muito do perfil do escritor. Não será alheio a essa situação o facto de ser escrito na primeira pessoa e de muitos dos seus conflitos serem sinónimo dos de quem nasceu com o nome de Kimitake e nomeou como Kochan, o diminutivo do seu próprio nome, o “herói” do romance. Apesar de atualmente poder ser catalogado em categorias além da ficção e literatura japonesa, como a da sigla LGBT, Confissões de Uma Máscara é uma ficção tão bela como enxuta e pode resumir-se em poucas palavras: uma confissão que narra de forma excecional um jovem homossexual que mascara a sua sexualidade perante os que o rodeiam..CONFISSÕES DE UMA MÁSCARAYukio MishimaLivros do Brasil201 páginas .54 ANOS DEPOISO romance autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva Ainda Estou Aqui não passaria despercebido em Portugal pois existem muitos leitores de literatura brasileira, mas o empurrão dado pelo filme de Walter Salles fez com que se tornasse mais notado, ainda por cima tem sido premiado, bem como a atriz Fernanda Torres. É um relato entre muitos das vítimas da ditadura militar de 1964, só que Paiva é um ótimo escritor e dá à história de violência sobre os pais um realismo histórico e um retrato da opressão, descrevendo como poderá ter sido o assassinato do pai. A força deste livro está, no entanto, no que se segue com a mãe, Eunice, que sobreviveu à destruição da família e reinventou-se, sem deixar de lutar por várias causas. A única que não venceu foi a sua luta contra o Alzheimer. .AINDA ESTOU AQUIMarcelo Rubens PaivaD. Quixote271 páginas(Sai amanhã)