Fadiga, fadiga....

Mais um blockbuster da Marvel a chegar esta semana, Doutor Estranho e o Multiverso da Loucura, de Sam Raimi, cineasta que tenta dar algo diferente a este formato e não atinge o objetivo, apenas dá alguns sinais de luta com marcas de cinema divertido de terror. Desta vez, até há um Doutor Estranho zombie...

Depois da fadiga dos filmes da Marvel, onde cada novo título é apenas "mais um", como uma obrigação, este segundo Doutor Estranho traz outra fadiga: aquela relacionada com as gerigonças dos universos paralelos, o multiverso do título. Por muita paciência e vontade de entrar no jogo, a narrativa do filme descamba sempre na mais preguiçosa fórmula do "vale tudo" da fantasia e na qual as personagens vão de um universo temporal para o outro com justificações esfarrapadas. E é nesse aleatório que se sente a pequenez do empreendimento, é aí que a suposta capa de engenho de cruzamento de material da BD se torna apenas pretexto para tonteria infantil.

Pena também que a outra palavra do título, "loucura" esteja desta vez ainda mais domesticada, um pouco a servir como pano de fundo da tal "novela" que liga todos estes filmes, sendo que o último Homem-Aranha acaba por ser mencionado como ponto de partida. "Incidente" é assim que o feiticeiro bom Doutor Estranho descreve a reunião dos três homens-aranha da história anterior, aliás, todos este Marvel Cinematic Universe está literalmente ligado.

E neste novo capítulo encontramos Stephen Strange (um sempre impecável Benedict Cumberbacht) a tentar ajudar uma adolescente chamada America Chavez, alguém com um dom único: poder viajar de universo para universo. Uma jovem super-heroína ainda incapaz de controlar os seus poderes e já perseguida pela Scarlett Witch (Elizabeth Olsen), aqui em modo verdadeiramente vilanesco. Ao fim ao cabo, a bruxa que já foi dos Vingadores quer recuperar a fantasia de ser dona-de-casa e mãe de dois filhos. Se ela ficar com os poderes de America pode ficar com um controlo excessivo sobre todo o universo, algo que Strange tenta evitar a todo o custo, o mesmo que referir que tem de enfrentar vários Doutores Estranhos de outros universos. Parece insano e caótico? É insano e caótico, mesmo sem ser tão descabelado como prometia. De alguma forma, temos um realizador como Sam Raimi a tentar executar alguns dos seus truques de manga, como alguma estética de terror série B e um humor insubordinado. Do outro, temos a metodologia fechada da Marvel, onde a dependência dos efeitos digitais e das batalhas exageradas matam qualquer tipo de bom senso.

O que poderia ser uma parábola sobre o destino e as suas múltiplas fintas, é apenas um amontoar de lugares comuns e igual aos piores momentos dos filmes de super-heróis, ou seja, barulhento, trapalhão e com falta de paisagem real. Um excesso cansativo de atores e figurantes em croma a baralhar mais a epopeia geral pós-Avengers. As suas 2 horas cansam imenso. Cansam porque tudo é indiferenciado, mesmo apesar de uma escala que não engana: é blockbuster sem olhar a meios, um bulldozer endinheirado que leva tudo à frente, com a agravante de ser cabotino no tom e com humor involuntário que nos faz rir nos momentos mais "sérios". Kevin Feige, o manda-chuva da coisa, anda a dormir... Na essência, é um filme com muito problemas em agregar as múltiplas pontas da estrutura da intriga...

dnot@dn.pt

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