Olhando para a celebridade hoje de Maximiliano, a pintura da sua execução feita por Édouard Manet em 1868, poucos meses depois da morte do imperador, confere-lhe uma dimensão histórica e simbólica maior do que a realidade?A pintura de Manet mostra a impressão que a execução de um arquiduque da Casa de Áustria causou na Europa. A sua pintura da execução não é uma representação historicamente precisa. Existem diversas versões da execução, e lembro-me de que várias delas foram reunidas numa exposição. Penso que isto demonstra, acima de tudo, a impressão, o impacto causado pela execução de um imperador da linhagem dos Habsburgo no México.Maximiliano tinha 34 anos quando foi executado em 1867. Poderia ter sido o herdeiro do Império Austríaco, governado pelo irmão Francisco José. Decidiu aceitar o trono do México porque houve mexicanos realmente que o queriam como imperador? Havia uma parte da população mexicana que desejava uma nova monarquia no México?Sim, uma fação do Partido Conservador, o partido católico, ofereceu a coroa do México a Maximiliano porque acreditava que, face à crescente influência dos Estados Unidos - que já se tinham apropriado de metade do território -, a única forma de o México sobreviver como nação seria através de uma aliança com uma potência europeia, mediante uma monarquia chefiada por um príncipe católico europeu. Este era o raciocínio do Partido Conservador. No entanto, o próprio Maximiliano recebeu um representante do presidente Benito Juárez, líder do Partido Liberal, que deixou claro que os mexicanos em geral não eram a favor de uma monarquia no México.Quando se fala de aliança com uma monarquia católica europeia, não se trata da Áustria, mas sim da França de Napoleão III, que era o patrono deste imperador exportado para o outro lado do Atlântico?Sim. Foram consideradas diversas possibilidades envolvendo vários príncipes católicos. Foi Maximiliano de Habsburgo quem, juntamente com a sua esposa Carlota, aceitou o cargo de Imperador do México. Mas a potência europeia que apoiou o império de Maximiliano foi, como bem disse, a França.A queda de Maximiliano tem que ver com o fim do apoio militar francês?Esta história que se desenrola no México explica-se, a meu ver, sobretudo por fatores que ocorreram fora do México. Entre outros, o início da Guerra Civil Americana permitiu à França intervir militarmente no México, na fronteira com os Estados Unidos, contrariando os princípios da Doutrina Monroe, que deixava claro que os Estados Unidos não aceitariam a intervenção militar europeia nas Américas. Além disso, Napoleão III demonstrava interesse pela América Latina desde a juventude. Queria também estreitar a sua relação com a Áustria, depois de ter apoiado a independência das províncias do norte de Itália, e aproveitou a oportunidade para apoiar Maximiliano de Habsburgo nessa ocasião. O próprio Maximiliano tinha uma relação tensa com o irmão, tinha perdido o Reino da Lombardia e o Veneto, e já tinha uma relação muito difícil com a sua mulher, Carlota. Estava aborrecido no Castelo de Miramar, nos arredores de Trieste. Era ambicioso, romântico, entusiasta pelos países tropicais, e aceitou o convite..Maximiliano tinha sido convidado pelo Partido Conservador, mas o imperador não era propriamente um conservador; era um homem até com algumas ideias liberais.Essa foi a grande ironia, e a grande contradição, que explica em parte porque fracassou no México. Devo dizer que muitos liberais moderados, sobretudo em Oaxaca, apoiaram Maximiliano; alguns concordaram em fazer parte do seu governo. E muitas comunidades indígenas no México também se sentiram atraídas por ele. Em Sonora, o povo Yaqui apoiava Maximiliano; da mesma forma, no norte de Jalisco, os povos Cora e Huichol também o apoiavam. E não é por acaso que Maximiliano foi executado juntamente com dois generais mexicanos, um dos quais era indígena, o general Tomás Mejía.Referiu Carlota, uma princesa belga, mas também refere no livro um encontro inicial com uma princesa portuguesa, Maria Amélia, filha de D. Pedro que foi Imperador do Brasil e rei de Portugal. Maria Amélia, se não morresse tão jovem, no Funchal, poderia ter sido uma possível Imperatriz do México?Bem, sim, acredito que sim. Como filha do imperador do Brasil, imaginava-se capaz de se tornar imperatriz de algum país das Américas. A relação entre Maria Amélia e Maximiliano foi breve, mas intensa. Maria Amélia morreu tragicamente jovem, de tuberculose, e Maximiliano guardou a sua memória com carinho para o resto da vida.Maximiliano conheceu-a em Lisboa, mas também visitou a Madeira mais tarde, quando ela já tinha falecido. Maximiliano visitou igualmente o Brasil antes de ir para o México, não foi?Isso mesmo. Viajou para o Brasil com a sua esposa, Carlota. Carlota ficou na Madeira, onde fizeram uma escala, e Maximiliano seguiu para o Brasil, onde foi muito feliz e confirmou o seu fascínio por países tropicais exóticos.Há algo no seu livro que me surpreendeu: a adoção, por Maximiliano, de um neto de Iturbide, o efémero primeiro imperador mexicano. Existe alguma nostalgia imperial no México?Bem, não creio que haja qualquer nostalgia pela monarquia no México nos dias de hoje. O Brasil realizou um referendo há alguns anos sobre a possibilidade de restaurar a monarquia; no México, não. Existiram dois impérios mexicanos, como sabe, o de Agustín de Iturbide e o de Maximiliano, e ambos os imperadores foram executados. Maximiliano e Carlota não tiveram filhos e, para garantir a continuidade do império, decidiram adotar o neto do imperador Agustín de Iturbide, chamado Agustín de Iturbide y Green, que foi brevemente príncipe herdeiro e depois se exilou. Viveu nos Estados Unidos - a sua mãe era americana -, regressou ao México, teve problemas com Porfirio Díaz, que era então presidente do México, e regressou aos Estados Unidos, onde também morreu sem deixar descendência.Referiu Benito Juárez e também Porfirio Díaz, e curiosamente Porfirio Díaz é seu antepassado...Isso mesmo, meu trisavô.Estas duas figuras podem ser considerados os vencedores da guerra que derrubou o efémero império de Maximiliano?Sim: Benito Juárez como presidente da república, e Porfirio Díaz como o general mais popular da república, são os vencedores sobre o império de Maximiliano e os protagonistas da história imediata do México após o triunfo da república. Tanto Juárez como Díaz concorreram às eleições de 1867, que Juárez venceu, e voltaram a concorrer às eleições de 1871, após as quais Porfirio Díaz se insurgiu contra Juárez.Estes dois homens que derrotaram Maximiliano e foram presidentes da república são hoje figuras indispensáveis na história mexicana.São talvez as duas figuras mais importantes da história mexicana. Porfirio Díaz é mais um vilão na história oficial do México, enquanto Benito Juárez é o nosso herói nacional. Mas os dois foram amigos e aliados e líderes do Partido Liberal no México.