Estreia. Magia com hora marcada

Jack Black e Cate Blachett são a boa companhia de O Mistério da Casa do Relógio. É cinema para a família, mas tem mais sustos do que o habitual. Está agora nas salas

Será que num tempo governado por falsas magias cinematográficas ainda conseguimos vasculhar dentro de nós uma predisposição infantil? Pode ser essa a pergunta que se aloja num filme como O Mistério da Casa do Relógio, ainda que este não se preste a grandes filosofias. Não estamos perante nenhuma manifestação superior do cinema dito "familiar", mas temos aqui um respeitoso trabalho, com tanto de narrativa clássica juvenil (o romance homónimo de John Bellairs) quanto de modesta dinâmica de sustos. E por trás dessa mistura está Eli Roth, que tem dedicado a sua vertente de realização particularmente ao género do terror. Aqui estreia-se num registo mais empenhado em trazer alguma nostalgia a quem outrora se deslumbrou com imagens como a da bicicleta voadora de E.T. - O Extraterrestre (1982), de Spielberg (vemo-la nos créditos de abertura, no logotipo da Amblin, que é uma das produtoras deste filme).

Claro que não vamos entrar por aí, porque não tem comparação. Mas há uma crença na magia - semelhante à crença em extraterrestres -, como a concebíamos na infância, que não deixa cair O Mistério da Casa do Relógio num mero espalhafato de truques digitais. Aliás, é mesmo essa base de genuíno e barroco entretenimento, materializado em livros antigos de feitiçaria e objetos com vida, que o liberta da vaidade tecnológica das atuais grandes produções do tipo, zelosas do calibre da ação. Por sua vez, aqui é quase tudo castiço e sucinto, excluindo um ou outro momento da parte final, mais consonante com os desfechos rocambolescos dos filmes da nossa época.

No centro da história temos um menino que ficou órfão e é enviado para a mansão bizarra de um tio feiticeiro, interpretado por Jack Black - escolha perfeita para assegurar aquela expressão entre o divertido e o assustador. Com ele, Cate Blanchett forma uma dupla profissional, surgindo como a vizinha, também feiticeira, que, dir-se-ia, é a companhia diária do chá das cinco, embora não haja propriamente horários rígidos neste espaço doméstico repleto de mecanismos com ponteiros, rodas dentadas e pêndulos. A razão para a presença de tantos relógios é, precisamente, outro relógio que se esconde dentro das paredes da casa, tendo sido lá colocado pelo anterior proprietário, outro feiticeiro, com a diferença de ser... maligno. A ideia é que o conjunto dos tiquetaques abafe o outro. Mas à noite não há nada a fazer: a sua tenebrosa cadência faz-se ouvir, criando uma atmosfera de sobressalto. A missão é, portanto, descobrir o sítio exato onde ele está escondido.

Exibindo uns óculos de aviador na testa, e uma imensa curiosidade para palavras novas (ou para qualquer coisa nova), o pequeno herói tem a personalidade ideal para se deixar levar completamente na bizarria deste universo. E nós somos convidados a acompanhá-lo nessa aptidão infantil para o maravilhamento mais tradicional. Porque, sim, ainda é possível ficar-se encantado, por exemplo, com uma imagem em que o cosmos desce ao jardim da velha mansão e, cobertas do pó das estrelas, as personagens tocam nos planetas... Embora não seja só esse tipo de feitiço que Eli Roth providencia.

Na verdade, para quem achar que esta é só uma variação do Harry Potter, desengane-se. A esperteza de Roth está em conseguir fazer de O Mistério da Casa do Relógio uma espécie de filme de transição, entre o fantástico juvenil e o terror, com uma ou outra técnica de susto que não é comum nestas produções destinadas a um bom momento passado em família. Dito isto, também fazem falta filmes assim, de fronteira, que conservem o sortilégio de que é feito o cinema, segundo Méliès.

*** (Bom)

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