Da Argentina chegou-nos, no último ano, uma surpreendente obra em duas partes chamada Trenque Lauquen. Um filme assinado por Laura Citarella, que mistura géneros de uma forma estranha e sedutora, atraindo-nos pelo mistério romanesco do desaparecimento de uma mulher. Lembrámo-nos dele a propósito de Os Delinquentes. Porquê? Porque este filme de Rodrigo Moreno vem reiterar, com evidência criativa, a impressão de um cinema argentino perfeitamente confortável na desobediência da “normalidade” narrativa. É um cinema capaz de agarrar numa ideia engraçada e dar-lhe respiração de grande ecrã. .Eis o ponto de partida extravagante de Los Delincuentes: Morán, um funcionário de um banco de Buenos Aires, decide roubar dinheiro da própria instituição empregadora, com o único objetivo de não ter que trabalhar mais na vida. E não o faz à socapa. Sendo ele um dos responsáveis pelo transporte de grandes quantidades de numerário para o cofre, limita-se a fazer as contas na calculadora, para tirar exatamente a quantia necessária, e a exibir-se diante da câmara de segurança com a mochila onde esconderá o dinheiro para não dar nas vistas à saída do edifício... Não acaba aqui: ele encontra-se com um colega, Román (repare-se no anagrama dos nomes), e impõe-lhe que guarde a mala com os maços de notas durante três anos e meio, que é também o tempo calculado de prisão para quem confessa o crime e demonstra bom comportamento. Depois desse sacrifício pessoal, os dois estarão livres das grades do trabalho. .Com um olhar metódico sobre a presença discreta de Morán, que permite apenas intuir o que lhe vai na cabeça, Rodrigo Moreno insere-nos num ambiente que gera a primeira noção de aprisionamento. Já na rua, à porta do edifício, onde Morán, uma colega e o chefe fumam cada um o seu cigarro, a conversa vai dar ao tempo da ditadura, de que o chefe diz sentir falta porque “se podia fumar em todo o lado”. É a sua definição de liberdade. .E todo o filme vai construir-se através da perspetiva dessa maleável ideia de liberdade, que assume ainda outra forma quando a câmara de Moreno deixa Buenos Aires, durante umas largas sequências, para ir buscar inspiração de fábula e western a uma paisagem natural, onde o atormentado guardião do segredo, Román, deve esconder o dinheiro, e talvez descobrir outra coisa... .A inteligência, humor e encanto desta história vagarosa passa pelos mais diversos pormenores, seja o apontamento cómico do uso do mesmo ator (Germán De Silva) para interpretar o chefe no banco e o chefão mafioso na cadeia, qual figura de autoridade a que não se escapa, seja um longo poema (La Gran Salina, de Ricardo Zelarayán) lido sem parar dentro da prisão, ou os referidos anagramas com os nomes das personagens. Moreno pede-nos atenção aos detalhes do plano geral que é o filme – e esta espectadora, que viu Trenque Lauquen, não pode deixar de regozijar-se com a piada de ver a atriz Laura Paredes, que é a tal mulher desaparecida nesse filme, a interpretar em Os Delinquentes a investigadora implacável que quer descobrir o paradeiro do montante roubado. Lição a retirar: a vitalidade do cinema argentino hoje passa pela eloquência do que deixa de estar no seu devido lugar.