Antes de Camilo, Herculano, Garrett e Júlio Dinis, é Eça quem vai demonstrar qual o potencial da aliança entre tecnologia e o livro tradicional.
Antes de Camilo, Herculano, Garrett e Júlio Dinis, é Eça quem vai demonstrar qual o potencial da aliança entre tecnologia e o livro tradicional.Foto: D.R.

Eça confronta-se com o leitor tecnológico

A ignorância sobre centenas de referências com que o leitor atual de 'Os Maias' se defronta no romance tem agora uma mãozinha eletrónica para ser ultrapassada através de códigos QR.  
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138 anos após a publicação de Os Maias de Eça de Queiroz e quando se pensava que seria impossível reinventar as edições sucessivas deste romance, a editora Quetzal decidiu avançar com uma nova fórmula para seduzir os leitores: a inclusão das novas tecnologias nas páginas em papel através dos códigos QR. A justificação para esta novidade eletrónica incluída numa obra centenária é oferecida numa cinta sobre a capa, na qual se escreve: “Edição especial com códigos QR para explicar referências, lugares, datas e figuras históricas do romance. Página a página.” E que referências são estas? Entre muitas outras: “O que era um mantelete? Ou um boudoir? E o Duque de Saldanha? Onde ficavam o Aterro, o Jockey ou o Hotel Bragança?” Ou seja, evitam-se o que poderiam ser as habituais notas de rodapé para colocar centenas de códigos QR no mesmo lugar, ficando as 709 páginas do romance que foi publicado em 1888 em dois volumes polvilhado de quadrados que levam o leitor até ao universo virtual da maior enciclopédia atual.

Quanto mais não fosse, esta novidade permite um julgamento sobre o que os responsáveis da edição consideram ser as falhas culturais dos leitores, o seu esquecimento de protagonistas da cultura e da sociedade antigos e a ignorância sobre factos históricos. A maioria dessas situações bem merecerá um QR, como é o caso das expressões Geórgicas ou Belle Helène, mas quando o leitor desconhece quem foi Pilatos ou onde fica a estação de Santa Apolónia e recorre aos QR, então pode perguntar-se o que estará a fazer embrenhado nesta prosa farfalhuda e culta de Eça? Uma resposta poderá ser a que se encontra no texto da contracapa: “Retrato implacável, cómico e trágico de um tempo, de uma classe, de um país e de uma cidade, Os Maias está cheio de referência culturais, políticas, gastronómicas, históricas, geográficas ou do quotidiano de Lisboa no século XIX.” Sim, Os Maias é isso tudo e muito mais e o leitor mais ignorante também terá a partir de agora o direito a ler de forma integral um romance escrito por um autor que, apontavam os rivais e detratores, só conhecia Portugal e as suas gentes na sua vida adulta através de um vislumbre de passagens breves pelo país e fazendo um retrato mais completo devido à intensa leitura da imprensa da época mal se libertou das estadas administrativas em Évora e Leiria e abalou para o estrangeiro.

O editor da Quetzal, Francisco José Viegas, acredita no projeto. Tanto que após Os Maias está já prevista uma continuação de cinco novos volumes que completam esta prospeção do mercado no formato papel+QR: Camilo Castelo Branco e o clássico Amor de Perdição (fevereiro de 2027), mais tarde A Queda de Um Anjo; Almeida Garrett com Viagens na Minha Terra, Alexandre Herculano no Eurico, o Presbítero, e As Pupilas do Senhor Reitor de Júlio Dinis. Após enumerar esta meia-dúzia de obras-primas na literatura portuguesa, diz: “Se correr bem, haverá mais títulos”.

A crença na necessidade destes Maias é grande em José Viegas, como justifica: “Muitas expressões no romance pertencem a outra época e já não se usam. Quando o leitor não as conhece, o que faz é passar à frente e perde características importantes. É o caso do primeiro QR, logo na primeira página, sobre a visita do Núncio Apostólico ao Ramalhete. O que é «Núncio»? Depois, continuam a surgir inúmeras dificuldades, que não o eram em 1880, e que são normais hoje devido à passagem do tempo; referências que os jovens desconhecem, os pais também, bem como muitos professores”. Conclui: “Ora, sendo um livro de leitura obrigatória e central no nosso cânone e memória cultural, esta inclusão dos códigos QR poderá permitir uma leitura completa do romance”. O editor dá como exemplo o seu caso: “Quando o li pela primeira vez, deparei-me com o nome Guizot. Achei que seria uma personagem divertida e só após a consulta de uma enciclopédia é que entendi que era um historiador.”

Para Francisco José Viegas, esta edição de Os Maias deve-se “à grande paixão por um grande livro e os códigos QR facilitam essa leitura, porque o leitor pode estar permanentemente a esclarecer dúvidas através da ligação a sites e assim saber em tempo real do que é que o Eça estava a falar. Se queríamos associar ao livro tradicional uma ferramenta que hoje é um instrumento de fácil acesso, os códigos QR representam bem essa função”. Acrescenta argumentos: “É um absurdo ler um livro e não saber a diferença entre, por exemplo, corregedor e juiz; desconhecer o que foi a Abrilada ou saber onde é o Hotel Lawrence. Ou ler sobre o Hino da Carta e não o conhecer, bem como a peça de Mendelssohn referida ou a Traviata. Até se pode revelar uma brincadeira de Eça ao referir a existência de um quadro de Rubens, que estava desaparecido à época, e que ele o coloca numa parede do Ramalhete. São muitas as referências da nossa história e os códigos QR podem facilitar a vida dos estudantes e dos que leem o romance por prazer. Afinal, Os Maias não é só uma paixão, também cumpre a função de nos lembrarmos de um dos escritores e criadores mais importantes da nossa língua.”

A nova edição traz também um bónus, um folheto com cem perguntas coligidas por André Canhoto Costa sobre factos e detalhes do romance, e que permite avaliar o conhecimento sobre Os Maias. A primeira questão é “Onde é que Carlos da Maia viu Maria Eduarda pela primeira vez?” As respostas estão à distância de um clique num código QR.

OS MAIAS

Eça de Queirós

Quetzal

709 páginas

QUEIROZ X QUEIRÓS

O escritor dizia ao amigo Ramalho Ortigão que o convite para escrever folhetins para a brasileira Gazeta de Notícias poderia ser uma boa oportunidade para publicar “talvez, depois um livro tolerável”. Assim aconteceu, como se pode ler na ótima e sintética nota final de Helena Cidade Moura a estas Cartas de Paris. Os artigos do escritor/jornalista foram impressos na Gazeta entre 1893 e 1897 e reuniram opiniões que a organizadora deste volume considera serem a reprodução no Brasil da “notícia da vida intensa da Europa” a partir do “seu centro de observação – Paris”, repletos de uma “confiança para contar e criticar o mundo em que vivia”. Acrescenta que esta componente de relato é um elemento muito importante na “criação do estilo adulto de Eça”. Esta edição reúne num único volume os dois anteriores, Ecos de Paris e Cartas Familiares e Bilhetes de Paris, que não foram revistos pelo escritor, como desejava, mas, considera Moura, “a prosa que deixou, longe de ser desleixada e frouxa, é nervosa e viva, cheia do valor da espontaneidade, simples e eficaz”.

Apesar do debate da grafia do apelido de Eça não fazer parte deste Cartas de Paris, é curioso notar que neste volume se utiliza “Queiroz” enquanto a versão utilizada na nova edição de Os Maias (à esquerda) é “Queirós”. Sendo a divergência fruto do Acordo Ortográfico de 1945, vê-se que após 81 anos ainda permanece uma disputa entre queirozianos e queirosianos.

CARTAS DE PARIS

Eça de Queiroz

Livros do Brasil

375 páginas

(sai dia 23)

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