Resultante de uma coprodução entre França, Letónia e Alemanha, Minotaur, o novo filme do russo Andrey Zvyagintsev apresenta-se como um admirável objecto híbrido — aliás, como toda a sua obra, uma coleção de retratos humanos que transcende qualquer noção fechada de “tema” ou “estilo”. O seu impacto multiplica-se pelo facto de termos esperado um novo filme de Zvyagintsev durante quase uma década — o anterior, Loveless – Sem Amor, foi também revelado em Cannes, em 2017, onde ganhou o Prémio do Júri.Tudo começa em 2022, num tom de crónica destes tempos atribulados. Gleb (Dmitriy Mazurov), executivo de uma empresa de sucesso numa cidade de província, vê-se confrontado com um problema profissional inesperado: está à beira de perder uma parte considerável dos seus homens, mobilizados para a guerra na Ucrânia. Subitamente, a instabilidade laboral vai ser contaminada por um cruel elemento dramático que, em termos cinematográficos, poderemos classificar de melodramático: a sua mulher, Galina (Iris Lebedeva), mantém uma relação secreta com um homem que Gleb procura identificar...De forma muito livre, desde logo pelas diferenças de contexto social, Minotaur inspira-se em A Mulher Infiel (1969), título clássico de Claude Chabrol cujo par central era interpretado por Michel Bouquet e Stéphane Audran. O espectador que conheça o filme de Chabrol poderá supor, e com todo o fundamento, que Minotaur se desenvolve através de uma estrutura em que a insípida banalidade de um quotidiano “feliz” vai sendo decomposta pela emergência de formas brutais de violência. Dito de outro modo: Zvyagintsev continua a ser um retratista de clivagens humanas e sociais assombradas pelo fantasma de um mal absoluto. E não será preciso forçar qualquer leitura “simbólica” para acrescentar que Minotaur é também um espelho desencantado do momento histórico da atual sociedade russa.De tensões dramáticas e melodramáticas fará sentido falar a propósito dos novos trabalhos de realização de Pedro Almodóvar e Ira Sachs (também na competição), respetivamente Amarga Navidad e The Man I Love. Infelizmente, em ambos os casos prevalece uma lógica de autocitação, linear e redundante, como se os realizadores se sentissem obrigados a afirmar-se, não exatamente pelas histórias que contam, antes pelo efeito de assinatura que podem repetir. . No caso de Almodóvar, reencontramos um jogo de espelhos real/ficção, polarizado pela personagem de um cineasta que está a escrever um novo argumento. Dir-se-á que se trata de um prolongamento da ficção autobiográfica de Dor e Glória (2019), filme incomparavelmente mais interessante, mas a teia de contrastes afetivos surge, agora, como um jogo que se esgota no esquematismo de algumas ambiguidades. Quanto a Ira Sachs, encena o calvário de Jimmy George, figura emblemática das margens do teatro novaiorquino em finais da década de 1980, tragicamente atingido pela doença; prevalece um esquematismo “psicológico” que o ator principal, Rami Malek, interpreta como se continuasse preso a variações sobre Bohemian Rhapsody (2018), o filme em que interpretou Freddie Mercury, líder dos Queen.