Doris Day: à sombra da boa rapariga

Neste ano do centenário da cantora e atriz norte-americana, a Cinemateca apresenta, em setembro, um ciclo de homenagem com algumas das suas comédias mais populares, mas também exemplos preciosos de uma menos explorada vertente dramática.

"A minha imagem pública é inabalavelmente a da virgem salutar americana, a girl next door despreocupada e cheia de felicidade. Uma imagem, garanto, mais fictícia do que qualquer um dos papéis que interpretei no cinema." As palavras de Doris Day ao seu biógrafo, A. E. Hotchner, ajudam a desmontar algo da definição perfeita - para alguns depreciativa - que sempre se colou à estrela americana, mesmo aquando da sua morte, em 2019, com a imprensa a resumi-la nesse símbolo absoluto do American way of life. Uma figura cuja feminilidade otimista, quando olhada de perto, encerra interessantíssimas contradições e nuances: está tudo nos filmes que a Cinemateca programou para os primeiros dias de setembro, assinalando o seu centenário.

A não correspondência entre os finais felizes dos filmes e a vida íntima de Doris Day (marcada por quatro casamentos) é uma coisa. A outra é o sentido duplo que conseguia fazer passar na tela, sem prejuízo de ambiguidades morais. Ela era, de uma só vez, casta e sexy, caseira e sofisticada, conservadora e moderna. Uma combinação que se testemunha, desde logo, num dos seus maiores sucessos, Pillow Talk (Conversa de Travesseiro, 1959), de Michael Gordon, em que Day, na pele de uma decoradora, assume a elegância dessa profissão, ao mesmo tempo que protela a ideia de casamento - a sua única companhia é a empregada doméstica, interpretada pela excelente Thelma Ritter, que chega todas as manhãs ressacada ao apartamento da patroa... O enredo do filme anda à volta de uma linha telefónica partilhada com um músico (Rock Hudson) cujas conversas melosas com outras mulheres irritam a protagonista: tanto pode ser porque, de facto, ela precisa de ter a linha desimpedida para os seus assuntos de trabalho, ou porque se ressente das aventuras românticas dos outros.

De resto, a postura da mulher americana prática, independente, mas destinada a enveredar pelo caminho do matrimónio mais cedo ou mais tarde, é o modelo próprio de Day, que nesta comédia de óbvia conotação sexual cairá nas garras aprazíveis de Hudson - ou ele nas dela. Foi a primeira das três vezes que formaram uma dupla amorosa no grande ecrã, valendo também a Doris a primeira e única nomeação para o Óscar de melhor atriz.

Para além de Pillow Talk, outro dos grandes êxitos de Doris Day que a Cinemateca recupera no presente ciclo é Calamity Jane, ou em português, Diabruras de Jane (1953), de David Butler, um dos vários musicais que protagonizou para a Warner Bros., e onde se revela tão ágil na cavalgada como na projeção da voz. Ao compor essa personagem titular, famosa aventureira do Velho Oeste com enérgicos modos de maria-rapaz, é como se Doris usasse o contexto do western para destoar da imagem emblemática da "boa rapariga", mostrando um verdadeiro perfil atlético, pouco feminino, que ainda assim é bastante conciliável com o refinamento do seu aparelho vocal. É ver como ela interpreta a canção Secret Love, de Sammy Fain (um hit da década de 1950, distinguido com o Óscar), domando a performance vigorosa de Calamity Jane com a sua própria sensibilidade de cantora. Não admira que fosse a sua personagem e filme prediletos.

Ama-me ou Esquece-me (1955), de Charles Vidor, é a prova dos seus dotes dramáticos. Este biopic da cantora Ruth Etting deu-lhe oportunidade não só de quebrar o estereótipo da mulher otimista, como de projetar a sua experiência de intérprete musical - trata-se da história do gangster (James Cagney) que lançou a carreira de Etting, a troco de uma relação possessiva. Escusado será dizer que todos os temas musicais têm na voz de Day uma força inequívoca.

Do ano seguinte, O Homem que Sabia Demais (1956), remake que Alfred Hitchcock assinou do seu filme homónimo de 1934, ditaria a eternidade numa canção: Que Sera, Sera. Num cenário de intriga internacional, é essa a música que serve de código entre mãe e filho, naquele que será o papel mais tremendo da carreira de Doris Day, ao lado de James Stewart, enquanto típico casal americano, com as suas chatices, que se vê na posse de informações que não desejava... Ninguém esquece a sequência no Albert Hall, onde a aflição dela culmina num grito fenomenal (brava!), nem a posterior interpretação de Que Sera, Sera na embaixada, que marca o reencontro com o seu menino. Eis, portanto, outra obra imperdível do ciclo.

Da década de 1960, as propostas andam à volta de duas comédias de Frank Tashlin com motivos de espionagem - Espia em Calcinhas de Renda (1966) e Um Perigo Chamado Capricho (1967) -, mas é de 1950 um dos seus filmes mais belos e pouco vistos, imediatamente anterior aos grandes sucessos, que merece ser aqui (re)descoberto. Falamos de uma realização de Michael Curtiz (o homem que a lançou no cinema em 1948, com Romance no Alto Mar) chamada Young Man With a Horn, título original que remete para o seu protagonista, mas cuja versão portuguesa, Duas Mulheres, Dois Destinos, dá conta do determinante elemento feminino. Esta é a história de um trompetista de jazz (inspirado na figura de Bix Beiderbecke) com o coração dividido: de um lado está a tentadora e amarga Lauren Bacall, do outro a calorosa e doce Doris Day. Opostos que funcionam como distintas sinfonias de vida, enredando numa teia amorosa a personagem interpretada por Kirk Douglas.

É neste filme que a ouvimos cantar magnificamente, com uma delicadeza jovem, The Very Thought of You, entre outros temas que marcam a cadência do melodrama de Curtiz. Ela ainda tinha qualquer coisa de folha em branco, passível de ser confundida com simplicidade. Esse equívoco está, aliás, muito bem condensado num comentário da personagem de Bacall: "A Jo é interessante, não é? Tão simples e descomplicada. Deve ser maravilhoso acordares e saberes por que porta vais passar. Ela é terrivelmente normal." Ao que o músico de Douglas responde: "Ela é também uma boa cantora."

Calendário de sessões:

Diabruras de Jane (dia 1, 15h30|dia 3, 19h30)

Espia em Calcinhas de Renda (dia 1, 19h30|dia 5, 15h30)

O Homem que Sabia Demais (dia 2, 15h30|dia 9, 21h30)

Pillow Talk (dia 5, 19h30|dia 7, 15h30)

Young Man With a Horn (dia 6, 15h30|dia 8, 19h30)

Um Perigo Chamado Capricho (dia 6, 19h30|dia 23, 15h30)

Ama-me ou Esquece-me (dia 7, 19h30|dia 9, 15h30)

dnot@dn.pt

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