Do reggae ao fado: a diversidade musical do FMM

Nesta sexta-feira, 29 de julho, Sines contou com um cartaz musicalmente diversificado. Pelo palco do Castelo passaram as Fado Bicha, Dulce Pontes, Niño de Elche, Crystal Murray e Queen Ifrica.

Fado Bicha e a representação queer no fado

As Fado Bicha chegaram para fazer Sines abanar. Esta sexta-feira ficou marcada para a dupla com o concerto no Festival Músicas no Mundo, mas também pela sua nova música Estourada, lançada poucas horas antes da atuação.

Uma música, ou melhor, um manifesto contra as touradas, que reflete também a origem ribatejana de Lila Fadista e o "terror desde criança" desta prática. "Estou muito curiosa para cantar esta música aqui. Uma cidade com um porto de onde saem barcos destes animais para serem comidos no estado apartheid de Israel", disse a fadista antes de a banda tocar a música.

A dupla Lila Fadista e João Caçado apresentou-se com um novo membro do grupo, Lari no teclado. Uma das primeiras músicas que tocaram foi Povo Pequenino, que fala da perplexidade ao ver uma terceira política neofascista em Portugal.

Mencionaram ainda que fez esta semana dois anos do assassinato de Bruno Candé, vítima de um crime de ódio racial. "Se algum de nós acha que não está nada relacionado com isso, está muito enganada. Nós não sabemos que nas várias guerras em África, as mulheres crianças dançavam danças africanas antes de serem executadas por soldados portugueses. Houve um programa de branqueamento da história de Portugal".

Também fez parte do concerto em Sines a música "Rapaz da Camisola Verde". As Fado Bicha pegaram no poema de Pedro Homem de Melo e adaptaram-no às suas vivências. "Há tão poucas pegadas de pessoas queers no fado. O poema de Pedro Homem de Melo esconde um pouco essa experiência."

Queer é um termo guarda-chuva em inglês para pessoas da comunidade LGBTI e signfica pessoa/s de minorias sexuais e de género.

Ainda sobre a pouca representação da comunidade LGBTI no fado, tocaram a música "Lila Fadista", que transmite o que podia ter sido uma bicha fadista a cantar em Lisboa de antigamente. "Vamos fingir que existiu."

A Crónica do Maxo Discreto levou uma pequena tradução em inglês. Lila perguntou ao público quem no recinto era um macho discreto, ou seja, homem que quer experimentar mas diz não ser gay. Quando alguém no público levantou a mão a resposta foi imediata " Tu não és macho discreto, graças a Deus".

Tiveram tempo para mais uma música do que estavam à espera. "Eu falei muito de violência, de apagamento e dor. Há uma palavra muito especial que contraria tudo isso que é orgulho." Levaram, assim, a Marcha de Orgulho até Sines.

Dulce Pontes pela primeira vez em Sines

Luzes vermelhas em palco com vestido da mesma cor, lançavam a introdução da "Canção do Mar". Quando as luzes mudaram para azul, a voz de Dulce Pontes foi acompanhada por milhares que sabiam a letra de cor.

Embora inicialmente se apresentasse com lenço em volta do pescoço com um casaco e ao piano, foi na música "Amapola" que tirou as duas peças de roupa, ficando de vestido e levando a plateia aos gritos.

"Isto é sobretudo vento, essa é a verdade", esclareceu a cantora, para o público não confundir com lágrimas.

Em fevereiro lançou o disco "Perfil", que mistura estilos como o fado, o folclore português, o jazz e as músicas de culturas latinas. Para Sines, deu vida ao novo álbum, mas também recordou músicas antigas. Não deixou de agradecer ao público a cada hipótese que tinha.

Acompanhada de guitarra portuguesa, tocou o poema de Sophia de Mello Breyner "Porque". "Ó Malhão, Malhão" juntou-se ao repertório, uma música que tão bem os portugueses conhecem. De um lado para outro, Dulce meteu a plateia a dançar e a cantar.

"Obrigada, amigos, eu amo-vos família", disse. A artista portuguesa fez a passagem para o seguinte concerto de Niño de Elche: "Agora vai entrar uma pessoa fantástica! Continuem a curtir muito".

Seguiu-se o concerto de Niño de Elche, com o seu flamenco, que mistura dança, improvisação, teatro e poesia. Em palco, tinha ao seu lado Raúl Cantizano nas guitarras, percussões e coros e Susana Hernández "Ylia" nos teclados, sintetizadores, coros, percussões. Tocou músicas dos álbuns Antología del cante flamenco heterodoxo e do Colombiana. Um concerto que ficou marcado por gritos de energia do artista ao microfone e talvez um microfone partido pelas vezes com que bateu com ele no chão.

Crystal Murray: O misticismo de Sines

Ao contrário dos outros artistas, o nome de Crystal Murray apareceu no ecrã em azul com apenas as suas iniciais CM a azul. "Espero que estejam a sentir-se sexy nos vossos corpos como eu me estou a sentir", atirou. Uma atuação que a própria descreveu como sexy, diversificada e cheia de energia.

Num momento mais emocional, embora não quisesse que assim o fosse, a cantora francesa revelou que tem casa em Sines. "Sinto-me muito abençoada por estar aqui! Obrigada Sines por todos estes anos." Mas não é só. O pai da artista, David Murray, já é um nome conhecido no festival, tendo atuado em Sines.

"Quando eu era mais nova, o meu pai tocava aqui no festival quase todos os anos. Eu vejo em 2002 David Murray e depois vejo 2022 Crystal Murray. Literalmente 20 anos. É algo muito bonito", disse numa conversa com o DN.

Questionando quem era o boss ao público, cantou a música com esse nome. Da setlist fizream parte músicas como Princess, Creeps e Nasty que receberam grande entusiasmo da audiência.

"Okay, como é que Sines? Posso ouvir-vos", perguntou recebendo logo resposta em forma de gritos. Para terminar, tocou a Hot Mess.

Lançou dois discos apenas e o mais recente, Twisted Bases, foi escrito em Sines. Na entrevista ao DN, a jovem artista afirmou que para ela existe algo muito místico na região. "Eu quando estava a escrever as músicas, estava literalmente a escrever dentro do castelo. Estava no meio do castelo e não estava cá mais ninguém."

No EP, Crystal focou-se bastante em si mesma, mas agora quer juntar música Pop com algo místico. "Algo que venha de dentro e o próximo álbum vai ser muito honesto."

Queen Ifrica: a Rainha do Reggae num castelo

"Alguns têm perguntado onde está a Queen Ifrica? Estou aqui". É a segunda vez que o Reggae pisa o palco de Sines e a é a primeira vez que Queen Ifrica, ou Ventrice Morgan, nome de batismo, vem ao festival. Um concerto que transportou para a realidade jamaicana.

No palco começou nos tambores misturada com a sua banda ao vivo composta por Nicketa Steer a fazer coros, Paul Yebuah nos teclados, Calvin Silvera na bateria, Andre Hall nos teclados e Ajani McKenzie no baixo.

Com uma mensagem de amor, a cantora jamaicana declarou que o amor é o que precisamos e que vai sempre ganhar. "Sempre vamos ser firmes na batalha da vida. Somos fortes", disse, mostrando ao público a música Battlefield.

A artista pediu ainda para não pararem de ir à Jamaica, mesmo com a violência que acontece no país. "Nós vamos resolver a situação por isso venham."

A mensagem de amor foi forte e intensa durante todo o concerto. Bob Marley é um dos heróis da artista. "Todos os que pensam no amor são os meus heróis. Não vou parar de dizer que o amor vai ganhar." E começou a música Times Like This.

Tocou dois temas sobre marijuana e pediu que a mesma fosse legalizada, à qual a resposta foram gritos de apoio. Seguiu-se uma música sobre Deus, onde o público "rezou" com a jamaicana.

Daddy, uma música sobre os predadores que existem na sociedade, também fez parte do concerto. Uma música que foi alvo de críticas na altura em que saiu. "Nós adoramos as nossas crianças",disse.

"Podemos cantar juntos?" ,perguntou. O recinto numa voz só repetiu a letra da música: "We don"t need no more trouble".

Dedicou uma das últimas canções às mulheres na audiência, chamando-as leoas. No final pediu ainda o fim do genocídio em África e no mundo.

Quando desceu do palco, passou pelo público dando a mão a alguns fãs na primeira fila.

"Estou ansiosa para voltar aqui outra vez e outra vez." Temos de esperar para ver o seu regresso.

Este sábado é o último dia do festival. Sobem ao palco do Castelo o português Pedro Mafama, a brasileira Ava Rocha, a cubana Omara Portuondo, a dupla Ladaniva da Arménia e França e o Seun Kuti juntamente com o grupo Egypt 80 da Nigério.

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