Exclusivo "Dirigir a Casa do Cinema Manoel de Oliveira é um grande privilégio e um trabalho inesgotável"

Assinalam-se hoje os 90 anos de Douro, Faina Fluvial, o primeiro filme de Manoel de Oliveira. Para celebrar a data, há um cine-concerto (19.00) no Auditório do Museu de Serralves, com duas bandas sonoras originais dos Sensible Soccers, que também dão música a O Pintor e a Cidade. Uma iniciativa que combina com a edição recente do livro Ditos e Escritos. O DN visitou a Casa do Cinema Manoel de Oliveira, à conversa com o seu diretor, António Preto, que respira memória e se confessa um espectador fascinado.

No livro Ditos e Escritos, de Manoel de Oliveira, encontra-se um texto onde ele diz que realizou Douro, Faina Fluvial "com aquelas certezas que a juventude nos dá". Em que medida essa juventude confiante, e os filmes que ele já tinha visto, com 22 anos, se refletem nesta primeira obra que comemora nove décadas?

O Manoel de Oliveira viu o Berlim: A Sinfonia de Uma Capital [1927], de Walter Ruttmann, e ficou muito impressionado porque, no fundo, era um filme onde havia uma manifestação, uma procura daquilo que poderia ser, à época, específico da arte cinematográfica. Há todo um modo atlético de filmar a cidade... Vale a pena lembrar que nessa altura Oliveira era alguém que se sentia fortemente atraído pela velocidade, pelo desporto, etc., e portanto decidiu fazer um filme inspirado no Berlim de Ruttmann. Trata-se de um filme experimental, que explora possibilidades de registar o movimento através de uma câmara - o que é uma evidência, já que o cinema lida com o movimento -, e a opção de filmar na zona da Ribeira tem também que ver com o facto de ser então uma zona muito movimentada, da faina, carga e descarga no cais da Ribeira, à circulação dos barcos e das pessoas, para além de ser uma das zonas mais características da cidade. A própria água é movimento naquele espaço, não é uma superfície estática. E mesmo a estrutura da ponte, um elemento icónico da arquitetura de ferro e símbolo da modernidade, a conviver, ao lado, com o fantasma ou os resquícios da antiga ponte das barcas - onde tinha havido um acidente provocado pela invasão das tropas napoleónicas - é algo que terá interessado a Manoel de Oliveira. Desde logo porque no seu cinema houve sempre uma vontade de filmar o visível e o invisível. Aliás, em O Pintor e a Cidade [1956] há novamente a evocação dessa ponte, quase como se o cinema tivesse essa capacidade de revelar camadas invisíveis da realidade. Mas há uma outra questão fulcral no Douro, Faina Fluvial: o confronto entre o homem e a máquina, ou entre um mundo tradicional e um mundo industrializado. O cinema é, ele próprio, uma máquina, e o Oliveira é oriundo de uma família industrial. Ou seja, enquanto alguém que começou a interessar-se pelas artes, relacionando-se por exemplo com Adolfo Casais Monteiro ou José Régio, é natural que se tenha interessado por uma "modalidade" que recorre à máquina enquanto mediação do olhar: a câmara de filmar é só mais uma máquina, tal como o automóvel.

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