Na cidade de Lisboa há muita terra que podia ser usada para construção utilizando técnicas antigas como a taipa ou adobe. A comprová-lo está a nova exposição do Centro de Arquitetura do MAC/CCB intitulada Terra Crua, que apresenta um caso de estudo sobre as terras da capital. Com curadoria de Madalena Vidigal, esta mostra permitiu aos arquitetos Nuno Vasconcelos e Tânia Teixeira, que ali estiveram em residência, recolherem terra de escavações em zonas de construção em Lisboa - como as do Plano Geral de Drenagem -, e mostrar como esse solo, em vez de ir parar a aterros, poderia ser transformado em materiais de construção segundo métodos tradicionais mais sustentáveis."Todos os dias saem centenas e centenas de camiões de terra escavada de Lisboa. Só para se ter uma ideia, no Plano de Drenagem foram escavadas à volta de 500 mil metros cúbicos de terra. Se fizermos as contas, a fila de camiões parados iria de Lisboa até à Galiza. Ou seja, uma fila contínua de camiões cheios de terra, só para uma obra de escavação", aponta Nuno Vasconcelos numa visita de imprensa à exposição que abre as portas ao público esta quinta-feira, dia 18 de junho.Para esta exposição foram utilizadas 50 toneladas de terra, entre cinco e seis camiões, recolhidas em Belém, Chelas, Camarate, Benfica, Telheiras e outras zonas da capital, que foram transformadas em protótipos de paredes e outros materiais de construção através das técnicas de adobe, taipa, terrapalha, terra vertida (betão de argila) e blocos de terra comprimida (BTC). . A terra das diferentes localizações, com as suas tonalidades distintas, e os componentes construtivos em que pode ser transformada, são mostrados numa mesa corrida na última sala das cinco que compõem esta mostra, e a diversidade é grande. "A partir desta mesa conseguimos perceber também que temos uma variedade incrível de solos em Lisboa, e esses solos podem ser utilizados sem grande alteração à sua composição. A maior parte deles foram utilizados diretamente, tudo que está aqui construído foi feito a partir destes solos", diz Nuno Vasconcelos.O que acontece atualmente a estas terras, acrescenta o arquiteto, é que "grande parte vai para aterros fora da cidade, e que normalmente são antigas pedreiras, que precisam de ser enchidas com material. Basicamente, é para tapar buracos. É um desperdício de recursos."O projeto Terra Crua vem propor uma outra utilização para essa terra, encarada não como desperdício, mas como recurso. "Esta investigação passa muito por potenciar essa utilização do material e dar a entender que a construção com terra não é apenas e só em contexto rural, a cidade, especialmente as cidades grandes, têm um potencial enorme, enquanto fornecedor, à semelhança do que se faz noutras cidades europeias, em que já há estruturas e logísticas montadas para a recuperação do material". . Tânia Teixeira até deixa uma sugestão à autarquia da capital. “No final, em outubro, quando tivermos que desmontar esta exposição, e temos aqui muita terra que tem imenso potencial, que talvez pudesse desbloquear este processo de sistematização da receção de terras, que são importantes para a construção com terra, num estaleiro municipal, por exemplo. E que estivessem depois disponíveis aos vários ateliers e projetos que estão interessados em construir com elas. Seria realmente um sonho”.Nesta mostra os visitantes podem tocar nos materiais e conhecer um pouco da ciência da terra - constituída por água, ar e partículas, cuja presença determina a densidade, resistência e comportamento térmico dos materiais de construção dela resultantes -, e também perceber os princípios na base deste tipo de construção.A boa terra para construção encontra-se a cerca de 30 metros de profundidade, explica Madalena Vidigal, apontando para amostras do Instituto Superior de Agronomia também ali expostas. A argila, um dos componentes, funciona como "aglutinante da terra, uma das colas", que expande ou retrai consoante a humidade, e por isso o controlo da água é muito importante neste tipo de construção. "Uma construção em terra tem que ter umas boas botas e um bom chapéu para ter durabilidade", sublinha a curadora. .A vulnerabilidade à água é mesmo o maior desafio da construção em terra, mas as vantagens também são muitas. "É um material 100% reciclável e continuamente reciclável sem grandes processos industriais. Ou seja, é possível utilizar exatamente a mesma terra, depois de ser demolida pode voltar a reerguer-se", diz Nuno Vasconcelos. Para além da vertente ecológica, há também "o nível de conforto e de qualidade do ar que se sente quando se entra numa casa em terra, com a regulação da humidade e da temperatura, graças ao teor de argila e às suas características", acrescenta Tânia Teixeira. A arquiteta considera que apesar deste tipo de construção ser "extremamente sensível à água", não é nada que não se consiga ultrapassar. "Se tivermos um bom desenho, um bom projeto, uma boa aplicação, isso não é um problema. Depois, requer manutenção. Mas há materiais que não requerem manutenção e depois têm um ponto de ruptura, tem que se deitar tudo fora. Este requer manutenção, que era uma chave da arquitetura portuguesa e de que hoje em dia ninguém quer ouvir falar".Madalena Vidigal explica de onde vem este seu interesse pela construção com terra. "Vem do desinteresse no final do curso de arquitetura. Quando comecei a contactar com a prática e a perceber que havia uma distância entre o arquiteto e os materiais e uma falta de relação entre aquilo que estamos a desenhar e aquilo que construímos. E numa pós-graduação que fiz encontrei a terra e senti que era um material que reunia um conjunto de componentes de valor ético, cultural, social e económico." . O território nacional apresenta grande diversidade de solos, saberes e práticas, e esta exposição permitiu-lhe fazer um mapeamento dos 90 profissionais que trabalham com o tema da terra, dispersos pelo país e que atuam sobretudo de forma individual."Em arquitetura, são poucas dezenas as pessoas que estão a trabalhar com terra em Portugal. E na academia há muito conhecimento, também acaba por ser um refúgio pela falta de procura. Há muitos profissionais que nunca conseguiram fazer uma obra em terra, querem muito, mas não conseguiram, porque não encontraram o cliente certo. Não reuniram as condições necessárias, há muitos desafios, muitos preconceitos", diz Madalena Vidigal. A construção com terra é residual, mas a produção de arquitetura contemporânea neste material está a crescer. Nesta mostra é possível ver um vídeo com seis projetos construídos em Portugal. Nuno Vasconcelos explica que em alguns ateliers, como no seu, DOING.pt, "há uma combinação de técnicas, em que se tenta aplicar também a construção em terra. É preciso entender as circunstâncias e tentar combinar a melhor solução."Tânia Teixeira, do CRU atelier, explica o que acontece no seu caso: "Temos mais obra na zona do Alentejo, apesar de termos mais para o norte também. Inclusive, recuperámos um apartamento aqui em Lisboa, em que usámos rebocos de terra. Ou seja, cada vez que temos um projeto, seja onde for, tentamos sempre que estas técnicas apareçam primeiro e só depois, quando temos que chegar a um compromisso, ou por orçamento, ou por desistência do próprio cliente, por variadas razões, é que começamos a deixar cair os princípios"."Podemos fazer muitas combinações, podemos até combinar com materiais convencionais. E não se precisa de fazer um projeto inteiramente de terra para introduzir terra. E isso é chave também para a sua utilização", frisa Madalena Vidigal.A terra pode ser usada para variadas finalidades na construção, como reboco e até para fazer tinta para interiores. Aliás, as paredes de cada uma das cinco salas da exposição estão pintadas com tinta produzida com terra de diferentes localidades. Por exemplo, as da primeira sala estão pintadas com terra de Belém, e a segunda sala com terra de Chelas. . Há, dizem estes arquitetos, muitas ideias feitas em torno da utilização deste material na construção. "Muitas vezes há este preconceito real que acaba por atrasar o crescimento e que passa pelo desconhecimento do próprio material, muitas vezes também por parte dos projetistas, mas especialmente pelas pessoas em geral, que consideram este material como de segunda categoria, como se fosse um retroceder na evolução da construção. O que estamos a tentar fazer é mostrar o contrário, que isto, no fundo, é uma evolução, e que é preciso recuperar muito do tempo que foi perdido quando se passou a métodos industrializados que colocaram a terra completamente de lado", diz Nuno Vasconcelos.Inovar as técnicas tradicionaisNa exposição explica-se que há 18 técnicas de construção em terra crua, e que apesar de se tratar de construção ancestral, também tem existido inovação. "Já há grande pré-fabricação de elementos em taipa, por exemplo, no centro da Europa, porque como tem uma estação seca mais curta e uma mão-de-obra muito mais cara, fizeram edifícios de larga escala construídos com taipa pré-fabricada. Há avanços tecnológicos nestas técnicas e, no fundo, é isto também que gostávamos que se realçasse. É uma técnica que vem do passado, mas que, como todas as coisas que vêm do passado, há sempre uma readaptação para a realidade contemporânea", sublinha Tânia Teixeira.Há três grandes grandes ateliers de arquitetura no centro da Europa a trabalhar com terra, um deles é o atelier francês Herzog & de Meuron, aponta Madalena Vidigal, que lembra que o vencedor do Prémio Pritzker de Arquitetura de 2022 foi o arquiteto Diébédo Francis Kéré, que trabalha muito com terra. E também o arquiteto chileno Smiljan Radić Clarke, laureado este ano com o 'Óscar' da Arquitetura, utiliza métodos tradicionais como a taipa e o adobe. Madalena Vidigal espera que esta exposição, patente até 11 de outubro, sirva acima de tudo para reduzir o preconceito em relação à terra como material de construção, e convida as pessoas a "aproximarem-se, a tocarem, a sentirem-se envolvidas. Estamos num centro de arquitetura, muito do público será arquiteto, e gostaríamos que houvesse esse interesse e se percebesse o potencial e o valor ético também associado à circularidade, à sustentabilidade"..Mario Cucinella, o arquiteto italiano que pôs os operários da nova fábrica da Ferrari a ver o verde das colinas.Arquitetos criam materiais de construção com entulho