Professor, editor e gráfico, a obra editorial de Paulo de Cantos (1892-1979) pode ser desconhecida do público em geral, mas não pelos designers gráficos e académicos da área. Os seus manuais, cartilhas ou postais ilustrados começaram a aparecer à venda nos alfarrabistas do Bairro Alto nos finais de 1990 e pouco interesse despertavam, mas agora são cada vez mais procurados. O trabalho de António Silveira Gomes e Cláudia Castelo tem contribuído para isso. Curadores da exposição Ver e Ler|Paulo de Cantos (1892-1979), patente no MUDE - Museu do Design até 6 de setembro, eles são também colecionadores da obra editorial de Paulo de Cantos (o acervo está digitalizado e acessível em cantosverso.org) e, em 2012, organizaram uma primeira exposição dedicada ao autor, Jornadas Cantianas, em parceria com o artista Alexandre Estrela (que representa Portugal na Bienal de Veneza deste ano com a obra RedSkyFalls), que é também colecionador das obras do autor. “A divulgação que temos feito desta obra chamou muita atenção para estes livros, que antes se encontravam nos alfarrabistas e agora são raridades e livros caríssimos de coleção. Portanto, na comunidade dos designers, de repente, começou a haver interesse", diz Cláudia Castelo. .Paulo de Cantos licenciou-se em Ciências na Universidade de Coimbra em 1915 e em 1919 tornou-se professor no Liceu Eça de Queirós na Póvoa de Varzim, chegado a reitor desse liceu em 1931. Em 1939 não seria reconduzido no cargo e, em 1943, mudar-se-ia para Lisboa, onde nasceu, instalando-se no Príncipe Real. Ali criaria, em 1949, o Centro de Profilaxia da Velhice e a Bibliarte. Neste percurso, entre 1917 e 1969, concebeu e criou livros com fins educativos pautados por uma “obra gráfica visualmente peculiar”, descrevem os curadores. Publicou cerca de 45 sobre os mais variados temas. Por exemplo, Aviação (ao alcance de todos), de 1917, Animais de Portugal (1929) - com fichas colecionáveis de animais desenhados em zincogravura utilizando o método estigmográfico, ou seja, construção da imagem a partir de pontos -, Matemática Alegre (1933), O “Homem Máquina” - Como somos por dentro (1936), Espírito Artes/Espírito Ciência (1938) , Astrarium (1940 e 1942), Luís Mistério/Camões Certeza! (1951) ou Sal Azar?/Sol!Az!!Ar!!! (1961).Muitas destas obras são livros "bi-rosto", com duas capas e duas entradas de leitura. Revelam “destreza em congregar sistemas projetuais, grelhas e matrizes”, dizem os curadores, assim como em “combinar heurísticas, escrita rápida, acrósticos, mnemónicas “, de uma forma não convencional que descrevem como “estilo gráfico amador”. .Bárbara Coutinho, diretora do MUDE, destaca precisamente os livros "bi-rosto" de Paulo de Cantos, “onde a leitura abandona a linha reta para se tornar um jogo onde o fim é, muitas vezes, um novo começo”, sublinhando como “o seu trabalho revela um pioneirismo extraordinário no conceito livro-objeto como dispositivo de ensino, cujo dinamismo hoje contrasta com a rigidez de muitos manuais do ensino básico e secundário”, lê-se no texto que assina na folha de sala da exposição.Os livros serviram como manuais auxiliares nas aulas dadas por Paulo de Cantos, em pleno Estado Novo – ele considerava que os compêndios existentes eram mal concebidos, diz António Silveira Gomes – e o conteúdo dos mesmos espelha o ensino da época. “Refletem perspetivas colonialistas, racistas ou sexistas que não podem deixar de ser assinaladas”, considera Bárbara Coutinho, mas o que se procura valorizar é o design gráfico como “motor da literacia e ferramenta essencial na construção de um conhecimento mais livre e participativo”.Paulo de Cantos veicula “algumas das ideias da Política do Espírito e do Luso-Tropicalismo do Estado Novo”, dizem por sua vez os curadores, mas fazia-o “com doses de humor e displicência que não pertenciam ao cânone”. .António Silveira Gomes, cuja tese de doutoramento é sobre o autor, considera que “não se pode estudar figuras como a de Paulo de Cantos dissociando a forma do conteúdo daquela época. Por outro lado, é olhar para a mestria gráfica que ele tinha e a maneira como que ele trabalhava, usando métodos importados da Europa, progressistas, novos, que combinava com processos antiquados, e o lado curioso dessa combinação. Ou seja, um designer a querer ser modernista, furar o seu tempo, mas ao mesmo tempo não conseguir”. Os curadores olham para Paulo de Cantos como designer , porque “ele tem um pensamento de design do início ao fim”, sublinha Cláudia Castelo, considerando que isso está bem patente na exposição que reúne obras de variadas origens, como da Biblioteca da Póvoa de Varzim, da Biblioteca da Liga dos Combatentes da Grande Guerra (onde ele foi bibliotecário) ou da família de um ex-aluno de Paulo de Cantos, da Póvoa de Varzim, que tinha um conjunto de livros do autor. . São exibidos facsímiles de alguns livros (para permitir o seu manuseamento pelos visitantes) e outros elementos, como uma réplica da escultura antropomórfica para estudo do corpo humano concebida por Paulo de Cantos nos anos 1930 para fins educativos. Alexandre Estrela também emprestou obras e a sua participação foi mais longe ao fazer uma réplica de um quadro de duas faces de Paulo de Cantos, em que nesta reprodução uma das faces é de Cantos e a outra do próprio artista. Na parte designada de “Academia Cantiana”, os curadores quiseram destacar um aspeto que consideram importante na atividade de Paulo de Cantos. “Apesar de ser uma pessoa com uma personalidade particular, no fundo o trabalho dele só fazia sentido numa comunidade. Ou seja, enquanto foi professor ele produzia estes livros e tinha um público-alvo, que eram os estudantes e a comunidade escolar”. Mas quando vem para Lisboa e funda o Centro de Profilaxia da Velhice (no âmbito da qual desenvolve a iniciativa Livre Universidade Cosmopolita), e a Bibliarte, o público muda e a obra adapta-se. A exposição inclui um conjunto de visitas guiadas aos domingos, com a obra de Paulo de Cantos a ser abordada por diferentes especialistas. No dia 26 de julho, às 15 horas, Mário Moura, professor e crítico de design, falará sobre a obra de Paulo de Cantos sob o mote "Design e Poder". No dia 9 de agosto, Jéssica Parente, investigadora e designer falará sobre "Design Computacional e Visualização da Informação". .Museu Calouste Gulbenkian reabre e recupera o espírito do projeto original.Exposição em Lisboa celebra os 30 anos da CPLP com obras de artistas lusófonos