Uma cabine telefónica vermelha tipicamente londrina na Praça de Londres em Lisboa está recheada de livros desde clássicos portugueses do Eça de Queiroz a literatura infantil como a série Uma Aventura. .O conceito desta Cabine de Leitura é simples: doar, levar, ler e devolver. A primeira surgiu há 10 anos - uma ideia do ex-diretor municipal de Cultura na Câmara de Lisboa Carlos Moura-Carvalho..“Aqui no Areeiro, não há uma biblioteca municipal, a mais próxima é a Biblioteca do Palácio Galveias, e, portanto, achámos que seria bom criar uma micro-biblioteca gerida por cidadãos”, explica Carlos Moura-Carvalho em conversa com o DN, acrescentando que na altura fazia parte da Associação de Comerciantes e escreveu à Portugal Telecom a perguntar se poderia usar uma das suas cabines velhas para a Cabine de Leitura. .A escolha da típica cabine londrina foi devido à sua localização na Praça de Londres. Quando Carlos Moura-Carvalho foi escolher a cabine para o projeto percebeu que esta cabine de 1910 era a ideal. “Entretanto, já fizemos aqui obras e mudaram o chão. A cabine já saiu daqui e voltou. Ao longo destes 10 anos fizemos lançamento de livros, fizemos leituras encenadas, fizemos instalações artísticas, fizemos projetos de arquitetura do Instituto Superior Técnico, fizemos visitas de escolas”..Dentro da cabine de vidro e madeira, predominam os romance e os grandes clássicos da literatura portuguesa. Cada prateleira está dedicada a um género literário, incluindo banda desenhada e livros internacionais. A única coisa que a Cabine de Leitura não aceita são livros técnicos, porque não são escolhidos pelo público em geral. .Carlos Moura Carvalho, fundador da cabine da leitura.Carlos Pimentel/Global Imagens.Atualmente, existem 50 cabines de leitura espalhadas por Portugal produzidas pela Portugal Telecom. .Carlos Moura-Carvalho também recebe alguns livros de escritores em sua casa que depois vai colocar na Cabine de Leitura. Por exemplo, o livro O tempo sabe o que o amor não diz de Diana S. Rodrigues foi enviado para a casa do criador do projeto. .As escritoras Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães, autoras dos livros infantis Uma Aventura, são as madrinhas da Cabine de Leitura . As duas autoras foram escolhidas para atrair também um público mais jovem. “Era uma forma de dar o exemplo de escritoras para jovens e público infantil, que é muitas vezes uma literatura que é mais esquecida. Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães são das autoras mais conceituadas ainda hoje neste género”, acrescentou..A Cabine de Leitura está aberta consoante a disponibilidade dos 12 voluntários. Atualmente, a micro-biblioteca é aberta durante o dia por um voluntário, que fica por ali durante uma ou duas horas. Inicialmente, era aberta de manhã e só fechava ao final do dia, mas roubavam livros e partiam os vidros do espaço. “Passámos a fazer este sistema. E assim criamos também um projeto paralelo de cidadania. No fundo, estas pessoas são uma espécie de bibliotecários, que ajudam na manutenção deste espaço”, explicou. As idades destes voluntários variam entre os 30 e os 50 anos. “São pessoas que dão uma hora por dia para vir aqui, abrir a cabine, conversar com as pessoas”, acrescenta. .10 anos da Cabine de Leitura.Para assinalar os 10 anos desta Cabine de Leitura, o artista António Faria fez uma placa comemorativa que será inaugurada no dia 23 de abril, Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, na Praça de Londres. As autoras de Uma Aventura vão estar também presentes na inauguração da placa..Para Carlos Moura-Carvalho, 10 anos deste projeto é algo muito gratificante. “É muito interessante. De todos os projetos que eu fiz na vida, na área cultural, este é o mais gratificante e acaba por ser dos mais longos. Este é talvez um dos projetos mais simples, mas ao mesmo tempo dos mais gratificantes. Acho que ter espalhado este conceito de uma forma natural é muito giro e é muito positivo”, sublinhou..No entanto, Carlos Moura-Carvalho referiu que a Cabine de Leitura nunca teve apoio da Câmara. “Por exemplo, esta placa sou eu que vou pagar e se a porta avaria temos que andar a tentar arranjá-la. Já foi vandalizada e roubada várias vezes”, explica. .mariana.goncalves@dn.pt