Exclusivo Deborah Kerr, a atriz entre o espírito e a carne 

O centenário é só em setembro, mas a Cinemateca antecipa uma homenagem à atriz britânica que foi "o grande amor" de Cary Grant, Burt Lancaster e Robert Mitchum. O ciclo Deborah Kerr - Até à Eternidade começa na quinta-feira.

Foi a imagem do beijo tórrido partilhado com Burt Lancaster numa praia havaiana que a imortalizou. Ela, esposa adúltera de um comandante, ele, um sargento, os corpos deitados na areia molhada, sujeitos ao embate da maré. O filme, Até à Eternidade (1953), que representou um ponto de viragem na carreira de Deborah Kerr (1921-2007), dá título ao ciclo que a Cinemateca agora lhe dedica. Mas a atriz britânica (cresceu em Inglaterra, embora tenha nascido na Escócia) deixou muito mais ao cinema do que uma cena de franca sugestão erótica. É provando isso mesmo que os nove filmes escolhidos para antecipar o seu centenário - assinala-se a 30 de setembro - não incluem o momento icónico captado por Fred Zinnemann. Há o antes e o depois de From Here to Eternity, entre o Reino Unido e Hollywood.

Dona de uma elegância fria, talvez consequência da sua formação em ballet clássico, nas décadas de 1950/60 Kerr trabalhou com alguns dos melhores realizadores da indústria americana, de George Cukor a Vincente Minnelli. Este último, com Chá e Simpatia (1956), provocou a revelação no ecrã de uma perfeita sensibilidade feminina: a mulher que consola romanticamente um jovem avesso à cultura do machismo (Kerr a repetir o seu desempenho da Broadway), numa altura em que a homossexualidade era ainda tema tabu. E foram papéis como esse que atestaram a sua capacidade sui generis de explorar uma linha de tensão entre a beleza física e os jogos de repressão íntima, ou, se quisermos, entre o corpo e a alma. É por isso que títulos como O Espírito e a Carne (1957) lhe assentam tão bem. Neste filme de John Huston em que interpreta uma freira presa numa ilha do Pacífico Sul com um fuzileiro (Robert Mitchum), durante a Segunda Guerra Mundial, está o exemplo dos dilemas da fé que caracterizam algumas das suas personagens. Já Mitchum, mulherengo incorrigível que teve por ela uma paixão platónica, nomeou-a como a sua atriz favorita de todos os tempos.

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