Dead Can Dance com novo disco-manifesto em Lisboa

Os Dead Can Dance estão de regresso a Lisboa para dois concertos que revelam o último disco, Dionysus, e uma vasta carreira com uma mensagem muito mais ampla, como afirma ao DN o músico e compositor Brendan Perry.

Formaram-se na longínqua cidade de Melbourne, Austrália, no também cada vez mais distante início dos anos 80. Eram então pouco mais que adolescentes, mas isso não os impediu de fazer um álbum de estreia, homónimo, que os transformou num verdadeiro fenómeno de culto entre os fãs das franjas mais negras da música alternativa.

O "rock gótico" inicial, depressa começou no entanto a ser dissipado nos álbuns que se seguiram, em especial os aclamados Within the Realm of a Dying Sun (1987) e The Serpent's Egg (1988), nos quais começaram a despontar as mais díspares influências musicais, como a música clássica e as sonoridades tradicionais gregas ou do Médio Oriente. Ao longo de mais de 40 anos de carreira, a dupla composta pelo inglês Brendan Perry e pela australiana Lisa Gerrard já percorreu vários géneros, acrescentando sempre algo mais a um imenso e quase inclassificável legado musical, para o qual tudo serve de inspiração.

O último capítulo da vasta discografia do grupo, editado o ano passado, dá pelo nome de Dionysus e é uma oratória clássica dividida em dois atos, inspirada pelas tradições mediterrânicas em honra a esta divindade greco-romana, que também é um manifesto ecológico e social em honra de uma sociedade em vias de extinção, como defende Brendan Perry, nesta entrevista ao DN.

Porquê um disco dedicado a Dionísio? Sente alguma ligação especial a esta divindade clássica?

Este disco é uma combinação de várias coisas, pelas quais me tenho interessado nos últimos anos, como a ligação à natureza que ainda existe em certas zonas rurais da Europa, em especial à volta do Mediterrâneo. Também participei nalguns festivais pagãos europeus, que mantêm essa ligação bem viva, o que acabou por me recordar a terra da minha família, na Irlanda, onde passava férias, ou quando vivi com o povo maori, na Nova Zelândia, dois países onde a relação com a natureza ainda é muito forte. Outra influência muito forte foi o livro O Nascimento da Tragédia no Espírito da Música, de Nietzsche, que li há cerca de dois anos e no qual o autor explora a ideia de existirem duas correntes na cultura clássica grega, a apolínea, mais organizada e analítica, e a dionísia, muito mais caótica e ligada à natureza, que quando juntas são uma força criativa muito forte. Isso lembrou-me a nossa própria forma de trabalhar, entre mim e a Lisa (risos), mas acima de tudo abriu-me os olhos para a forma como as pessoas, hoje em dia, se relacionam com a natureza. Dionísio é uma divindade muito conectada com a natureza, com forças do cosmos que ainda hoje não compreendemos totalmente e que continua muito presente em certas tradições agrárias e rurais por essa Europa fora, embora muitas vezes as pessoas nem se apercebam disso. Foi isso que realmente me inspirou a fazer este disco.

Como um alerta para essa ligação com a natureza, cada vez mais ténue? Ou antes como uma celebração da mesma, que se mantém, apesar da sociedade tecnológica em que vivemos?

Como ambas. Essa ligação de facto ainda existe nalguns locais, mas está ameaçada por esta sociedade em que vivemos, demasiado urbanizada, que nos afasta cada vez mais dessa ligação à natureza. Isso é uma preocupação para mim, não só pelo futuro do planeta mas também da própria humanidade, que já vive num ambiente totalmente contrário à sua essência. É um alerta para o que perdemos, mas, por outro lado, também sinto este disco como uma celebração. Estudei muito sobre a mitologia de Dionísio e apercebi-me de que, apesar de dois milénios de cristianização e de toda a propaganda sobre o hedonismo de Baco, Dionísio continuou a ser celebrado no mundo rural europeu, em rituais agrários e festivais pagãos, que celebram a primavera, as colheitas e as plantações. Essa tensão entre o mundo moderno e o antigo, que teima em manter-se vivo, também me pareceu muito interessante de explorar sob a forma de música.

Trata-se, portanto, de um álbum conceptual, algo também já um pouco fora de moda, tendo em conta as atuais tendências da indústria musical, concorda?

Sim, sou obrigado a concordar, mas foi exatamente essa a nossa intenção. Vejo este disco como uma peça de música clássica pré-cinema, que cria imagens, nos conta histórias e desenha ambientes na mente de quem a ouve. Nós fazemos música apenas por paixão. Acreditamos na música como um meio de comunicação muito poderoso, mas para mim é muito mais do que isso. É uma forma de meditação, de cura e também de estar num constante processo de aprendizagem sobre outras culturas e tradições, como aconteceu neste disco. Por outro lado, tenho muita vontade de lutar contra essa atual compartimentação da música, em que tudo passou a ser medido pelo número de streamings. Isso significa a morte da arte como a conhecemos. Este álbum é para ser ouvido todo de uma vez e queria que apenas tivesse uma faixa, mas como tal não é possível, dividi-o em duas. Mesmo assim foi muito difícil convencer a editora a não compartimentar o disco em diversos momentos, como pretendiam, lá está, por causa dos streamings.

Usou diversos instrumentos muito antigos e raros neste disco, como é que os escolheu e como chegou até eles?

Tendo em conta o conceito do disco, decidi usar instrumentos das regiões onde ainda se celebram os rituais dionisíacos, como os Balcãs, a Grécia ou a Península Ibérica. Pesquisei nalgumas bibliotecas musicais e, como não conhecia a maioria deles, tive de aprender a tocá-los. Mas isso não é um problema, na verdade até é o que me dá mais prazer (risos).

Como é a vossa dinâmica de trabalho no grupo? Trabalha juntamente com a Lisa também a criar os conceitos ou apenas na parte musical?

Normalmente sou eu que decido o conceito e componho as bases musicais, já a pensar na voz da Lisa. Depois sentamo-nos os dois e avançamos juntos até chegarmos ao resultado final. Os nossos discos são sempre feitos em duas fases e por isso disse há pouco que a nossa dinâmica também muito que ver com esse conflito entre Apolo e Dionísio. Há um método muito estrito de composição, que depois é complementado por um lado também muito grande de improvisação e de impulso.

Alguns destes instrumentos não serão fáceis de tocar ao vivo, certo? O que podemos esperar destes dois concertos em Lisboa?

Sim, de facto não é nada fácil e foi também por isso que alargámos a banda para oito elementos. E vamos também tocar alguns samples desses instrumentos.

O espetáculo vai ser mais centrado neste último disco ou vão também revisitar os álbuns mais antigos?

Na verdade, deste último disco só vamos tocar o tema Dance of the Bacchantes, porque a nossa opção, para esta digressão, foi também recordar os temas mais antigos, dos anos 80 e 90, que muitos fãs nunca ouviram ao vivo. Estamos a tentar tocar pelo menos um tema de cada álbum em todos os concertos.

Onde é que se sente mais à vontade, no palco, a tocar? Ou no estúdio, a pesquisar e a criar música?

Gosto mais de estar no palco, sem dúvida. Não gosto é do que se passa entre os concertos, as viagens, o soundcheck, o dormir em hotéis diferentes todas as noites. E também me incomoda muito quando, por alguma razão, a banda não toca bem, torna-se literalmente doloroso para mim, a nível físico. Sou muito sensível a isso, até mesmo, como acontece na maioria das vezes, quando o público não repara (risos). Por outro lado também gosto muito do processo de composição, porque é sempre um momento de aprendizagem, que me expande a mente um pouco mais além.

Após 40 anos de carreira qual acha que é o legado musical dos Dead Can Dance, uma banda que já passou por géneros tão diferentes como a new age, o rock gótico ou até a world music?

Reconheço que será muito pequena, a percentagem dos nossos fãs que gosta de todos os géneros que já tocámos (risos). Acima de tudo temos um sentido universalista da arte e nesse sentido estamos constantemente em busca de pontos de contacto entre os diferentes universos musicais, à procura daquilo que os une e não do que os separa. Fazemos os álbuns quando e como queremos. Não temos qualquer obrigação contratual, portanto somos uma espécie de espíritos-livres, o que é cada vez mais raro na música. Nunca quisemos ter propriamente um estilo, mas sim uma voz própria, que nos permite filtrar todas as nossas influências musicais e celebrá-las da forma que bem entendermos. Se com isso conseguirmos abrir os horizontes de quem nos ouve, levando-os a ouvir algo diferente ou a querer conhecer outra cultura, tanto melhor. Esse é o único tipo de sucesso que procuramos atingir.

Dead Can Dance

Aula Magna, Lisboa.

23 e 24 de maio, quinta e sexta-feira, 21.00

€50 a €60

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