Manda a tradição que se pense nos festivais como corpos em crescimento. Conforme o seu número de edições, ora estão na infância, ora na adolescência, ou a sentir a vertigem da passagem à idade adulta... Assim acontece com a Festa do Cinema Italiano: chegada à 18ª edição, já não dá satisfações a ninguém, mas exerce a sua liberdade com dois dedos de testa e uma boa dose de memória. A partir desta quarta-feira, em Lisboa, o Cinema São Jorge, as salas UCI – El Corte Inglés, o Cine-Teatro Turim, e também a Cinemateca, acolhem o que de mais sonante se produziu em Itália neste e no último ano, sem ignorar a fartura da herança cinematográfica daquele país – como sempre, a Festa tenta estar ao alcance de todos, e por isso vai estender-se a mais de uma vintena de cidades (basta consultar o site).Mas falávamos de memória. Vem a propósito a expressão “mi ricordo, sì, io mi ricordo”, título de um documentário de Anna Maria Tatò e de um livro editado em português pela Teorema, Eu Lembro-me, Sim, Bem Me Lembro, ambos registos preciosos da divagação de Marcello Mastroianni (1924-1996) pelas suas histórias, reminiscências e confissões, durante os intervalos das filmagens de Viagem ao Princípio do Mundo (1997), de Manoel de Oliveira. É, pois, Mastroianni o homenageado da Festa. O seu centenário assinala-se através destes e outros filmes, desde os clássicos de Fellini (Oito e Meio, A Doce Vida) e Ettore Scola (Um Dia Inesquecível) à especificidade da sua relação com Portugal, que também trará de volta ao grande ecrã Afirma Pereira (1995), de Roberto Faenza. Neste caso, em sintonia com uma exposição fotográfica no São Jorge, que complementa o olhar sobre a proximidade do lendário ator italiano ao nosso país. E as comemorações não ficam por aqui: uma das principais antestreias deste ano, Marcello Mio, é assinada pelo francês Christophe Honoré e protagonizada por Chiara Mastroianni, a filha do gigante (e de Catherine Deneuve), que se move inspirada na impressionante parecença física com o pai, percorrendo os emblemáticos papéis dele, de fato masculino e cigarro na boca, como quem ensaia uma busca existencial. De resto, um belíssimo momento de “conversa familiar”, que combina com outro título do programa, Il Tempo che ci Vuole, de Francesca Comencini, aqui uma comovente ficção autobiográfica da filha do cineasta Luigi Comencini, que narra a sua infância e chegada à maioridade debaixo da mira de um pai apreciador da fronteira entre a imaginação e a realidade – ou como o cinema permanece um elo emocional.Habitués, sessões especiais e o “desconhecido” Antonio PietrangeliA Festa arranca esta quarta-feora, no São Jorge (21h30), em tom político. A Grande Ambição, de Andrea Segre (um dos convidados), surge como um biopic robusto em forma de lembrete esperançoso: trata-se da memória histórica de Enrico Berlinguer (1922-1984), secretário do Partido Comunista Italiano nos anos 1970/80, e uma figura muito acarinhada, como se percebe pelas imagens de arquivo do seu funeral, exibidas perto dos créditos finais, onde saltam à vista os rostos de Fellini, Scola, Mastroianni, Monica Vitti, Michelangelo Antonioni, entre várias personalidades políticas e uma multidão de mais de milhão e meio de pessoas...Como habitualmente, este é o festival que acolhe os novos filmes, por regra êxitos populares, de Paolo Genovese, Roberto Andò e Paolo Virzì – aí estão eles: LoucaMente, L’Abbaglio, Férias de Agosto –, e, para além de uma cuidada secção competitiva, não esquece sucessos de crítica, como Vermiglio, de Maura Delpero (a estrear no dia 17), nem produções internacionais, como O Regresso de Ulisses, de Uberto Pasolini, com um elenco encabeçado por Ralph Fiennes e Juliette Binoche.Nas sessões especiais, o destaque vai para Food for Profit – O Negócio da Comida, de Giulia Innocenzi e Pablo D’Ambrosi. Com um efeito de murro no estômago, este documentário de investigação traz um alerta muito preocupante sobre a(s) realidade(s) das indústrias agrícolas intensivas dentro dos países da União Europeia, e a própria dinâmica dos lóbis que sustenta a crueldade absoluta contra os animais, gerada pela lógica do lucro. Tem uma veia sensacionalista, sim, mas totalmente justificada – a realizadora/jornalista da dupla estará presente na sessão.Este ano há novos focos de programação, um no cinema suíço de língua italiana, outro nas “sombras” do colonialismo, solidariedade e liberdade; não faltam olhares sobre a ópera, propostas extra cinema, como o já famoso Cine-jantar, e até a apresentação de um livro, La Bella Confusione, que traz a Lisboa o escritor e argumentista Francesco Piccolo.De referir ainda que o festival dirigido por Stefano Savio não quebra o seu compromisso com os cinéfilos mais acicatados, na regular parceria com a Cinemateca: Antonio Pietrangeli (1919-1968) é o realizador a descobrir numa retrospetiva deliciosa, repleta de comédia italiana de excelência, e não só..Porto Femme: uma semana de cinema no feminino