David Bowie não passou por aqui 

<em>Stardust </em>revisita a época em que David Bowie criou a personagem de Ziggy Stardust, infelizmente aplicando os clichés de uma banal biografia televisiva.
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Cinco anos depois do falecimento de David Bowie (a 10 de janeiro de 2016, contava 69 anos), como fazer um filme sobre David Bowie... sem as canções de David Bowie? Admitamos que poderá haver uma resposta minimamente interessante a tal pergunta. Em qualquer caso, não é a que encontramos no filme Stardust - O Nascer de uma Estrela (coprodução Reino Unido/Canadá). Os gestores da herança do criador de Heroes e Let's Dance mostraram-se desagradados com o projeto, na prática proibindo a utilização de qualquer canção de Bowie. Vemo-lo a cantar, mas apenas temas de Jacques Brel ou The Yardbirds...

Johnny Flynn, intérprete de Bowie, está longe de ser um cantor banal - possui, aliás, uma sugestiva discografia em que o rock se cruza com heranças folk (ouça-se, por exemplo, o seu primeiro álbum, A Larum, lançado em 2008). O certo é que a sua performance está longe de conseguir salvar um filme que, para mais, tenta "reconstruir" a época decisiva em que Bowie teve uma primeira, e pouco feliz, passagem por palcos dos EUA (1971), ao mesmo tempo que ia concebendo a personagem de Ziggy Stardust.

Claro que a questão está longe de se reduzir à presença ou ausência das canções. Em 1998, Todd Haynes teve um problema em parte semelhante com Velvet Goldmine (o próprio Bowie não aprovou o projeto inicial) e, no entanto, o resultado cinematográfico não deixou de ser magnífico. Acontece que o filme realizado por Gabriel Range se submete àquela moda muito televisiva (explorada por muitos talk shows) segundo a qual não pode haver perfil biográfico que não se enraíze na superação de algum trauma, algures entre o pitoresco e o patético...

Vemos, assim, este esforçado Bowie a arrastar a "herança" do seu meio irmão Terry (Derek Moran), esquizofrénico, num jogo de grosseiros flashbacks apostados em encenar a música como umas palavras cruzadas entre a "doença" e a "arte"... Tudo encenado através de clichés dramáticos que nem sequer conseguem valorizar o esforço de Johnny Flynn para emprestar alguma consistência à sua personagem.

dnot@dn.pt

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