A dança e a cenografia andam de mãos dadas na carreira de Rafael Alvarez, conhecido pela forte componente visual da sua linguagem coreográfica. Junte-se a isso o seu interesse pelo Japão e nascem espetáculos como o MONO-NO-AWARE [a beleza invisível das coisas efémeras], uma peça de dança contemporânea que estreou em 2024 no Festival Transborda, em Almada, circulou pelo país e amanhã, dia 31 de janeiro, termina a sua carreira em Lisboa, na sala Valentim de Barros/Jardins do Bombarda. “Sim, o meu trabalho tem sempre essa presença forte de elementos visuais e da própria cenografia gerar a coreografia. Às vezes faço um trabalho inverso, parto dos elementos visuais ou do projeto de cenografia para construir o espetáculo. O trabalho visual e plástico nasce em conjunto com o trabalho coreográfico e de movimento”, explica Rafael Alvarez ao DN. O coreógrafo, intérprete e professor pensa o corpo como elemento cénico. . A palavra mono-no-aware, que dá nome ao espetáculo que estará em cena amanhã em Lisboa, é um termo nipónico. “É um conceito muito específico, mas ao mesmo tempo muito abstrato. Tem a ver com uma sensibilidade particular para tudo o que é efémero na nossa realidade. Seja a passagem do tempo nos objetos, nas coisas que nos rodeiam, na nossa vida, nos processos de juventude, de envelhecimento, de transformação do corpo. É uma sensibilidade e alguma coisa entre um sentimento nostálgico, um sentimento de saudade, e um sentimento de celebração deste estado transitório da nossa existência”, explica o coreógrafo. O MONO-NO-AWARE vem na sequência de obras anteriores do artista em torno da cultura japonesa. “Este espetáculo em concreto dá continuidade a uma investigação e diferentes criações artísticas que eu tenho vindo a desenvolver desde 2017, de ligação ao Japão. Muitas vezes nascem também no Japão, porque tenho tido o privilégio de poder fazer residências de criação e espetáculos naquele país.” . Rafael Alvarez, que estará em palco com Mariana Tengner Barros e Noeli Kikuchi , diz que lhe interessou neste conceito de mono-no-aware “esta dimensão da fragilidade que existe na nossa existência humana”. O convite é para uma “viagem poética e meditativa, através de uma paisagem minimalista e enigmática”. Para além da dimensão filosófica, o coreógrafo reconhece também no seu trabalho cenográfico “um olhar estético sobre o Japão”, que se reflete, explica, “num certo minimalismo, uma atenção ao detalhe, ao rigor, ao monocromatismo. Tudo isto continua a estar presente também neste espetáculo. Há também aqui com o mono-no-aware um jogo de palavras ”.Apesar de minimalista, o cenário “impõe-se”. “Temos uma cortina gigante que ocupa todo o palco. Fizemos um trabalho de colagem de várias mantas de emergência, aquelas mantas térmicas, é uma cortina térmica, dourada de um lado e prateada do outro, que com o trabalho dos intérpretes em cena, mas também com o desenho de luz do Nuno Patinho, vai construindo diferentes paisagens, quase que um caleidoscópio visual, porque às vezes parece-nos uma arriba fóssil, outras vezes vai transmitindo uma lógica temporal ou de pôr do sol ou de nascer do sol, ou de superfície lunar, outras vezes parece-nos uma grande onda”. Esta cenografia, acrescenta Rafael Alvarez, além de posicionar os três intérpretes em cena, “ vai também, quase com uma lógica hipnótica, transportando o público por diferentes paisagens. A cenografia neste espetáculo é, de alguma forma, o fator que prende o público.” .A este espetáculo seguir-se-ão outros. O coreógrafo já está a trabalhar em dois projetos que estão em fase de pré-produção. Um deles segue a linha do trabalho de ligação ao Japão. Será um solo e chama-se Yosomono “que quer dizer um lugar estrangeiro, esta ideia de um olhar estrangeiro”, e prevê-se que estreie em 2028 no Teatro São Luiz, em Lisboa. Marcará os dez anos desta investigação nipónica do coreógrafo e os 30 anos de carreira em dança. Este espetáculo, explica Rafael Alvarez, terá uma dimensão colaborativa com a comunidade que começará em 2027. Porque o trabalho desenvolvido por Rafael Alvarez não se esgota no palco e tem uma vertente pedagógica que o acompanha sempre. Além das aulas que dá em Lisboa e em Paris no âmbito do projeto “Dança Contemporânea +55 anos”, o coreógrafo desenvolve projetos com as comunidades nas várias localidades por onde passa. “O trabalho não acaba em palco e isso para mim cada vez é mais essencial, que o espetáculo não acabe em palco, que não seja efémero, e que deixe alguma coisa naquela região, naquela pequena comunidade”.Ainda este ano fará uma nova edição do projeto EKŌ TSUGI - Dança contemporânea e Ecologia em Movimento (tsugi em japonês significa reparar, ligar, unir), que promoveu pela primeira vez em 2024, e que descreve como "uma coisa entre uma plataforma criativa, uma residência coreográfica e um micro festival de dança na comunidade". . Rafael Alvarez propõe um diálogo criativo com o corpo entre património ambiental, rural e humano da aldeia do Coentral Grande, em Castanheira de Pera, e com o património cultural e arquitetónico do Palácio Nacional da Ajuda, em Lisboa. "Novamente com um grupo, na sua maioria, de maiores de 55 anos, de Lisboa e de Paris. Vamos associar também participantes de Coimbra e de outras regiões e de Castanheira de Pera, para voltarmos a olhar para a aldeia e experienciar também o património ambiental", explica.Decorrerá de 29 de setembro a 4 de outubro, trabalho de movimento e trabalho criativo, em partilha com o público..Diogo Infante e Alexandra Lencastre em versão do clássico ‘A Gaivota’ que fala para o público de hoje.‘Sr. Engenheiro’ estreia em Lisboa no dia das mentiras e sem medos