Não é a primeira vez que Afonso Cruz leva o leitor ao engano nos seus romances, mas desta vez fá-lo de tal forma que nem as pequenas pistas deixadas num ou noutro parágrafo permitem desconfiar que o rumo da história não é bem aquela que é “vendida”, por exemplo, na contracapa de A Cozinheira do Ditador. Quem lê esse resumo acha que está perante uma empregada que tem por missão alimentar um ditador e encher a mesa de iguarias que ele goste. No entanto, existe também um levantar do véu: “Entre tachos e panelas, ela cozinha a sua vingança, que, como as mais belas vinganças literárias, se serve fria e metaforicamente”.Ora, utilize-se estas duas palavras para falar do livro. “Fria”, porque lê-se mais de metade do romance e o leitor ignora o objetivo e a razão da vingança da cozinheira. “Metaforicamente”, porque lê-se a metade em falta do romance e é entre as falsas versões apresentadas de uma relação que se irá entender, finalmente, a razão que levou a cozinheira ao desespero. Não se pode adiantar muito mais para evitar que o leitor saiba o que afinal se passa neste livro. Pergunta-se a Afonso Cruz se ao criar a estrutura para o romance a decisão de enganar o leitor surgiu de imediato. Responde: “O que fiz foi ir mostrando cada vez mais a história desta cozinheira, que não era a minha ideia inicial, porque não achava assim tão importante a sua vida anterior, aquela vida de opressão dentro da mansão do ditador. À medida que me fui apercebendo de que poderia ser uma lacuna o facto de não mostrar parte da vida anterior desta personagem e a forma como acabou por ser levada para aquela mansão, indo encontrar-se na condição que está e que faz questão de deixar registada num diário que escreve.”Questiona-se Afonso Cruz se esta história pretende ser um guia para acabar com relações infelizes, a que responde: “Há entre eles uma relação de opressão e de violência que espelha em muito as que existem na sociedade, retratada por uma narradora muito zangada com a vida, até porque tem todas as razões e mais algumas para esse comportamento. Não é só ela que representa o que acontece entre as pessoas que vivem juntas numa casa, pois o que pretendi foi através de realidades individuais cruzar os dois planos neste livro.”Essa coexistência de um duplo plano no romance fica subentendida logo no título, apesar de este em muito pouco ter a ver com a narrativa que falseia o papel dado tanto à cozinheira como ao ditador. Questiona-se o autor sobre o porquê de fingir durante tantas páginas que ambas as personagens são um outro tipo de pessoas. Afonso Cruz confirma a intenção: “Sim, há uma componente mais íntima que se vai desvendando ao longo do romance e que não surge logo de início. A cozinheira revela-se como uma mulher muito culta, que pensa, que reflete sobre a importância da comida, a estética dos pratos e os rituais. Ou seja, preocupa-se com todas as dimensões da cultura em torno da comida, no entanto também tem um lado em que faz as suas considerações sobre a prática da cozinha, numa atitude mais contemplativa. Não é por acaso que na capa existe uma faca que não é empunhada com o punho fechado mas com alguma delicadeza e sofisticação.”Este cenário da comida feita por uma “cozinheira muito erudita” terá exigido ao autor uma investigação especial? Explica: “Houve dois lados, o de beneficiar-me do meu prazer em cozinhar e de nos últimos anos ter escrito muito sobre comida, por exemplo em texto para peças de teatro, de onde nasceram os livros que envolviam comida como foi o caso de Princípio de Karenina e Como Cozinhar uma Criança.”Tendo referido que, tal como a cozinheira, também gosta de elaborar a sua comida, quer-se saber se A Cozinheira do Ditador tem alguma coisa de autobiográfico? Inicialmente garante que não, apesar de em seguida corrigir a resposta: “Há no sentido em que também tomo notas quando escrevo textos sobre comida.” Anotações feitas de modo diferente das da cozinheira: “Não são manuscritas, mas no telefone ou no laptop.” Esta forma de escrever os seus livros é, aliás, um processo antigo em Afonso Cruz: “Ando sempre com o escritório comigo, o que é bastante mais prático e ajuda-me porque não perco tempo a anotar em papel ou a interromper a leitura para teclar o que quero no computador. Agora é tudo muito mais fácil; se quero guardar uma página de um livro é só fotografá-la. Ao ser tudo mais imediato, é também mais eficiente, o que não quer dizer que pense o mesmo da Inteligência Artificial enquanto acessório para o escritor, pelo menos para já. Quando estamos a falar de produções artísticas, existe uma componente estética muito forte e ainda faltam grandes desenvolvimentos para que as coisas mudem, no entanto tem vindo a ficar muito mais perfeita. Portanto, é expectável que dentro de pouco tempo a Inteligência Artificial tenha capacidade para produzir textos artísticos que nos enganem e nos levem a pensar terem sido feitos por humanos.”Quase no fim do romance, Afonso Cruz recorre ao filósofo Merleau-Ponty para justificar certas reações do corpo relativamente à comida, que em muito têm a ver com as quezílias entre as duas personagens do livro. Diz: “A comida é hoje intrínseca ao comportamento do ser humano porque tanto podemos sentir agonia como prazer e desejo num alimento. Muitas das nossas primeiras experiências foram feitas através da boca mas é o estômago que decide o que é agradável, bem como o paladar ao transmitir para o cérebro as sensações. Aliás, entre os nossos sentidos, este é um dos mais estranhos pois precisamos de sentir a comida dentro do corpo e não vem de fora como no tato, o olfato, a audição e na visão.” . A COZINHEIRA DO DITADORAfonso CruzCompanhia das Letras288 páginas RECORDAR A PREVISÃOQuando Samuel P. Huntington publicou O Choque das Civilizações, antes da passagem do segundo para o terceiro milénio, recebeu opiniões de dois géneros: a favor e contra. Num dos lados estavam aqueles que viam então no caminhar da História o terreno próprio para que as grandes civilizações fossem incapazes de conviver e de se entender no planeta Terra e residia nesse confronto as grandes justificações para novos conflitos. Esta posição foi a que recolheu mais adeptos, mesmo que muitos tivessem considerado que não estaria para surgir qualquer grande braço de ferro entre religiões, políticas e filosofias diferentes. Mais de duas décadas depois, vale a pena reler este ensaio e tentar descortinar até onde a previsão de Huntington se concretizou ou não. .O CHOQUE DAS CIVILIZAÇÕESSamuel P. HuntingtonGradiva418 páginas