“Construiu-se uma mitografia à volta de Afonso Henriques que do guerreiro rebelde fez o escolhido de Deus”
FOTO: GERARDO SANTOS

“Construiu-se uma mitografia à volta de Afonso Henriques que do guerreiro rebelde fez o escolhido de Deus”

Luísa Antunes Paolinelli, professora da Universidade da Madeira, é uma das oradoras do Congresso Luso-Espanhol em Zamora, promovido pela Sociedade Histórica da Independência de Portugal.
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Qual a importância de D. Afonso Henriques se ter armado a si próprio cavaleiro em 1125, em Zamora?

É muito importante, porque, simbolicamente, representa a sua afirmação como sucessor de D. Teresa, que se considerava a si própria “rainha” desde 1117, e também constitui uma declaração dos seus direitos sobre o Condado Portucalense, território que herdara do pai e que agora a mãe governava. A ligação do jovem Afonso à terra e à sua Administração já existia, aliás, antes, como o comprova o facto de desde 1120 outorgar ou subscrever os diplomas de D. Teresa, com o futuro rei a ser preparado para o futuro. Nesse Dia de Pentecostes de 1125, a demonstração pública da sua legitimidade na cerimónia de investidura repete a de Afonso Raimundes, o primo, futuro Afonso VII, no ano anterior, na Catedral de Santiago - talvez até como resposta da própria D. Teresa, que reivindicou sempre ser uma das justas herdeiras de Afonso VI, talvez por vontade dos nobres portucalenses de marcarem uma posição face a Leão. Dá-se em terras de D. Teresa, em Zamora, por isso, pode considerar-se que a dimensão de rebeldia em relação à mãe, que alguns cronistas medievais irão explorar, se trata de uma construção posterior. Todavia, o que interessa muitas vezes não é exatamente como o facto se deu, mas como o acontecimento existe em texto, como a memória é reposta pelo imaginário e cria sentidos. Nos Anais de D. Afonso, Rei dos Portugueses, da autoria de um cónego regrante de Santa Cruz, escritos por volta de 1185, Afonso, “grande de corpo”, toma de cima do altar as armas, veste-se com a armadura, “como o Gigante”, e cinge-se a si próprio, “como é costume fazerem os reis”. Diz o autor que é como um leão e, como a sua cria, ruge na caça, prepara-se para a batalha. A descrição, como de um herói épico se tratasse, constrói, assim, o mito e o nosso capital identitário.

Estamos a falar de um jovem de origens nobres tanto da parte do pai, como da mãe. Isso explica as ambições que cedo revelou?

Obviamente. Podemos dizer que era feito da matéria dos reis. Seria difícil escapar a um destino de expectativas. Era provável que sentisse, desde sempre, a responsabilidade de responder ao que se esperava dele como guerreiro, como garante da consolidação do poder e do território, mas também como agente da sua expansão, mantendo os senhores por perto, administrando com justiça, sendo a espada ao serviço de Deus contra os mouros. Isto é o que lhe pede o pai no momento da morte, segundo a IV Crónica Breve de Santa Cruz. Tinha Afonso 2 anos e já lhe traçavam o futuro. Da parte da mãe, era neto de Afonso VI de Leão e Castela e rei da Galiza, o “imperador de toda a Hispânia”, bisneto de Fernando I de Leão, o Magno, e trineto de Afonso V de Leão, que morreu a lutar contra os mouros em Viseu. Da parte do pai, trineto de Roberto II, rei de França, e descendente de uma das famílias mais importantes da França, os Duques de Borgonha, tendo também como parente o poderoso abade Hugo de Cluny. Para os cronistas leoneses, galegos e portugueses importava mais salientar a ascendência da Hispânia e não a estrangeira, como é compreensível.

D. Afonso Henriques encarna, de certo modo, as reivindicações da população do Condado Portucalense, ou pelo menos da nobreza portucalense?

Sem dúvida. Durante toda a Administração do pai e depois da mãe, há uma forte agitação à volta das questões dos poderes e das influências políticas ligadas ao território. Afonso Henriques vai ter, logo de início, o apoio dos ricos-homens de Entre Douro e Minho, enquanto D. Teresa procurará alianças mais a Sul do Douro, por exemplo, em áreas ligadas à antiga monarquia leonesa, como Viseu. Há um sentimento que perpassa nos senhores, apoiantes de um ou outro, que é a pertença a determinado lugar bem definido que sentem como seu e que devem defender. No jogo dos interesses políticos locais, a agregação dos senhores em torno de Afonso Henriques é fundamental: tanto a nível do apoio militar, como da conquista de uma legitimidade política, de reconhecimento e de integração. O poder real vivia num equilíbrio nem sempre fácil com o poder feudal, mas o rei conseguiu ir gerindo essa relação. Um dos ensinamentos do pai no “testamento” da IV Crónica Breve é justamente dar atenção aos senhores que o rodeavam.

Como se explica o sucesso na afirmação de Portugal como reino independente? A resignação de Leão e a fraqueza dos reinos árabes a Sul?

São cenários diferentes. Com os cristãos, apesar das lutas e das batalhas, discutia-se, tratava-se, encontrava-se uma forma de entendimento. Às vezes, à força e depois de muitas vidas se perderem. O objetivo primordial não era, no entanto, matar, mas demonstrar superioridade e garantir a integridade das terras possuídas. Se possível, alargar fronteiras. Com a reunião dos nobres portugueses em torno de Afonso Henriques, a sua tenacidade, e as capacidades diplomáticas de quem o apoiava, conseguiu-se o acordo com Afonso VII de Leão, também ele preocupado com os conflitos fronteiras. Com os reinos árabes, a motivação era outra: era o combate ao infiel, ao herege, numa lógica de Cruzada. Afonso Henriques até beneficiará da ajuda dos cruzados em Lisboa. Fazer uma guerra santa é motivador, psicologicamente, e as tropas sentem que estão a cumprir um desígnio que os leva diretamente a Deus. Não podemos não considerar, também, as capacidades de estratega militar do rei, que as tinha de facto. Do outro lado, haveria fraquezas, mas só aparecem porque também existe força e liderança do lado de cá.

Era um grande guerreiro, mas também um diplomata? Afinal, conseguiu perto do final da vida que o papa o reconhecesse rei.

Segundo a IV Crónica Breve, às vezes de diplomata tinha pouco: substitui o bispo de Coimbra por um outro, talvez moçárabe, fazendo-o dizer missa sobre a ameaça da espada, não sai do Paço para receber o enviado do papa, que o viera repreender, exige receber uma carta do pontífice em quatro meses, caso contrário corta a cabeça ao sobrinho do enviado… Depois, acaba por ser reconhecido pelo grande serviço contra os mouros. Foram anos de diplomacia com grande custo financeiro, direto e indireto, para o reino e com a garantia política por parte de Afonso Henriques de submissão à Santa Sé, tanto através do tributo, como com a promessa de que não faria mais nomeações episcopais por sua espontânea vontade…

Na literatura portuguesa, ao longo dos séculos, este nosso primeiro rei surge como tema?

A literatura responde à necessidade dos homens que escrevem e às circunstâncias em que o fazem. Quando se trata de Afonso Henriques, a História transcende o simples registo do passado, porque nela se instaura uma subjetividade que é coletiva, identitária. Por isso, as narrativas à volta da sua figura vão sendo reescritas, recompostas, alimentando o mito. E o mito é tão necessário ao homem como as mais elementares questões vitais. Ao longo do tempo, foi-se construindo uma espécie de mitografia à volta de Afonso Henriques que, do guerreiro rebelde, fez o escolhido de Deus, sendo Portugal, por extensão, o reino ao serviço de uma ideia maior do que o seu território. Na literatura portuguesa, também se torna símbolo de um Portugal que se perdeu, uma exigência, uma chamada. Veja-se, por exemplo, a Mensagem, de Fernando Pessoa, em que é figura inaugural, um gesto “que foi além do ser”, em que o humano ultrapassa a ordem divina. Mas, também tem, noutros textos, uma dimensão de desilusão com o presente e de futuro de um Portugal a cumprir. E também há o Afonso Henriques de As Naus, de António Lobo Antunes, como figura irónica e desmistificadora. É um rei que é “o reino”, figura parental, e isso é desafiante.

Do seu contacto com alunos, sente que D. Afonso Henriques, sendo uma figura do conhecimento geral, é no fundo um desconhecido?

É, geralmente, conhecido por alguns episódios que a intriga narrativa deixou para a posteridade: a rebeldia em relação à mãe, o ter ficado ferido numa perna… Sentem pouca ligação. Mas, se conhecem o Afonso Henriques de Camões e de Pessoa, questionam, interessam-se. A literatura tem aqui um papel importante de reflexão e problematização. O que às vezes é preocupante é uma espécie de esquecimento do passado, de desvalorização da História, como se a originalidade se pudesse criar no presente sem o conhecimento dos antigos, no fundo, nossos “contemporâneos do futuro”. Afonso Henriques é, afinal, um contemporâneo que transportamos connosco.

Pessoalmente, o que lhe diz este rei de há 900 anos?

Acho que lhe sinto o peso com que nasceu de ser grande. Admiro também a sua solidez, a tenacidade, a capacidade de liderança e o deixar-se levar pelo impulso. Homem antes do mito. Ou talvez, por isso, mito que é feito da nossa extraordinária capacidade humana de irmos além.

Qual vai ser o tema da sua palestra na conferência deste fim de semana em Zamora?

Vou tratar da contínua reinvenção e reescrita da figura do nosso primeiro rei como herói fundador e da dimensão que tem na literatura como capital simbólico, cultural e de autonomia. A literatura é, no fundo, um empreendimento comum e as imagens que cria são-nos co-originais - isto é, dependem de autores e leitores. A pergunta é: de que Afonso Henriques precisamos agora?

A reconstituição teatralizada de episódios históricos, como vai acontecer agora com D.Afonso Henriques cavaleiro, ajuda a conhecer a História?

Se for bem feita, claro que sim. Envolve todos: os que fazem, os que participam, os que assistem. Pode ser um instrumento importante nas escolas, porque alia uma componente didática ao prazer de fruir, do jogo. No fundo, não se trata de um exercício arqueológico, que também é importante, mas um exercício de apreensão de um presente feito de substratos.

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