Como seria a história da arte portuguesa só com mulheres?

Para celebrar Maria Helena Vieira da Silva, Pedro Cabrita Reis escolheu obras de 60 artistas portuguesas e construiu a exposição A Metade do Céu. Um contributo apenas para o grande debate da condição feminina.

Uma escultura de Joana Vasconcelos ilumina o hall do museu. Mais à frente, um desdobrável de Leonor Antunes, a artista que representa Portugal na próxima Bienal de Veneza. Uma boneca em pano de Paula Rego. Um "autorretrato" de Salomé Lamas. Um quadro da pioneira Josefa de Óbidos. Uma escultura pouco vista de Helena Almeida. Traças colecionadas por Maria José Oliveira e que aqui se mostram pela primeira vez. Uma obra de Joana Bastos que anuncia: "I am a non commercial artist." Uma fotografia cortada ao meio - era da dupla Sara & André, mas ficou só Sara. Ao todo, estão aqui obras de 60 artistas, todas mulheres. E, pelo meio, os quadros de Maria Helena Vieira da Silva (1908-1992), a "anfitriã" (chamemos-lhe assim) desta exposição.

A Metade do Céu é uma das exposições com que o Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva celebra em 2019 os seus 25 anos de atividade e nasceu de um convite da diretora do museu, Marina Bairrão Ruivo, ao artista Pedro Cabrita Reis: "Pediram-me que eu fizesse o que me apetecesse", explica ele. "E eu no contexto de ser uma casa de uma artista portuguesa e no contexto de ser um ano em que estão relançados com outra energia os debates sobre as questões das mulheres, achei que não poderia ser mais oportuno fazer um projeto em que fizesse uma revisão do trabalho de um conjunto de [neste caso 60] mulheres."

O título foi retirado de uma frase de Mao Tsé-tung, que, "num encontro na China para discutir num plano filosófico as relações entre as mulheres e os homens no seio de uma sociedade que se pressupunha justa e diferente, se referiu à parte feminina da sociedade como aquela que suporta metade do céu", explica Cabrita Reis. "É uma expressão muito bonita, não é?"

A seu pedido, a equipa do museu começou por fazer um levantamento "de todos os registos que houvesse de mulheres artistas, independentemente do seu estatuto, da sua representação mediática, etc. E fizeram uma lista de, pasme-se, quase 700 mulheres artistas registadas na história de Portugal". Foi dessa lista inicial que Cabrita Reis escolheu as 60 aqui representadas. De várias épocas, de vários géneros, umas mais conhecidas do que outras, com obras que são pinturas, esculturas, instalações, fotografia, vídeo.

"Tive a preocupação de mostrar obras menos reconhecíveis, que não pertencessem àquilo que chamaríamos o maistream", explica o artista. "O público sabe identificar uma Helena Almeida, mas fomos buscar uma peça que não corresponde àquilo que é a expetativa normal. E esse foi um critério que se foi refletindo noutras escolhas." Apenas isso. "Nunca tive qualquer preocupação em estabelecer uma relação com a Vieira da Silva. Isso não estava nos parâmetros de escolha. O que me interessava era descobrir na trajetória da obra de cada artista uma peça que me interessasse particularmente, por razões até de índole subjetiva. Em última análise, ou se tem uma empatia com a obra ou não. Eu não sou um curador, por isso tenho o privilégio de me poder limitar a gostar, que é uma coisa que se está a perder. Hoje toda a gente quer tudo explicado. Mas devia-se incentivar um pouco mais a fruição do objeto de arte e manter a conversa sobre o objeto de arte num plano de silêncio interior. Pode-se explicar uma ou outra coisa mas no fim a questão é: gostas ou não gostas?"

O que une estas obras além de terem sido produzidas por artistas portuguesas? Isso é algo que não preocupa por demais Cabrita Reis. "Queria apenas que esta fosse uma exposição de artes plásticas, em que se intercruzam obras diferentes no tempo, nas autorias, na metodologia do pensamento das suas autoras, isso tem uma riqueza muito grande e é já matéria suficiente para podermos voltar à exposição mais do que uma, duas vezes para a voltar a ver."

Poder-se-ia, claro, fazer o debate sobre o papel da mulher na história da arte em Portugal ou sobre os condicionalismos a que, ao longo dos tempos, as mulheres estiveram sujeitas. Poder-se-ia discutir a possibilidade de encontrar uma especificidade feminina nestas obras. Mas Cabrita Reis não quer fazer nada disso, vê esta exposição apenas como um contributo, entre muitos, e convida os visitantes a virem e tirarem as suas conclusões. "Existe um debate de natureza política, sociológica, antropológica, filosófica e ideológica, que é uma vaga de fundo que parte dos muitos sítios. Uma exposição de artes plásticas nesse contexto é um aport a esse debate mais profundo, mas não tem de ser um fórum desse debate que está implícito na própria exposição", sublinha. "Estamos num ano em que estão exacerbadas, e legitimamente, todas as plataformas de debate em volta da mulher, mas essas plataformas acontecem na sociedade civil. Esta exposição é um contributo específico para esse debate e preenche tudo aquilo que pode dar através da revelação das obras. Pretende ser uma exposição de artes plásticas de obras de 60 autoras. Tudo o que haja para debater na circunstância de ser uma exposição só de mulheres está nas obras e deve ser debatido a partir das obras. Tudo o resto poderá ser interessante, mas é noutra agenda."

Sem ingenuidade, no entanto, o artista sabe que "uma exposição é um objeto construído e, nesse sentido, há sempre um conjunto de ligações não imediatamente percetíveis, secretas e/ou subjetivas. Mas a ideia é criar muitos discursos - não um, mas muitos. Esta exposição pretende abrir e não fechar, multiplicar e não reduzir, abranger e não excluir, acima de tudo".

Nas paredes do museu ficaram algumas de obras de Arpad Szenes e muitas de Maria Helena Vieira da Silva, "que pontuam e constroem a trajetória da exposição". Ela está representada de duas formas, explica Pedro Cabrita Reis: "Há um conjunto de obras que por dever institucional têm de estar expostas. Além disso, a fundação tem um acervo ao qual fui buscar obras que me interessa expor - e que são obras do início da carreira dela, não são a Vieira dos quadradinhos", diz.

Uma escultura de Ana Hatherly. Duas obras de Ana Vieira. Um néon de Ana Pérez-Quiroga. Uma escultura de Fernanda Fragateiro. Graça Morais. Sofia Areal. Adriana Molder. Susanne Themlitz. Ana Jotta. Sarah Afonso. Lourdes Castro. Menez. Por cima das portas, penduradas nas escadas. As obras de 60 mulheres artistas ocupam grande parte do museu inaugurado a 3 de novembro de 1995. Marina Bairrão Ruivo não tem dúvidas de que Arpad Szenes e Vieira da Silva teriam gostado de ver esta exposição: "O nosso desafio é mostrar às pessoas a obra destes artistas e a sua atualidade, e acho que conseguimos." O museu faz 25 anos e a sua diretora não podia estar mais otimista: "Enfrentamos os problemas financeiros que toda a gente enfrenta, mas temos uma localização fantástica, temos muitas ideias e temos obras de dois grandes artistas. O que mais podemos pedir?"

Exposição A Metade do Céu
Um projeto de Pedro Cabrita Reis
Museu Arpad Szenes - Vieira da Silva
Praça das Amoreiras, 56, Lisboa
De 21 de março a 23 de junho
Entrada: 5 euros

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