Clint Eastwood: o 'cowboy' que gosta de 'jazz'

É bem verdade que Clint Eastwood começou por triunfar através das personagens do velho Oeste. Mas a sua obra inclui um pouco de tudo, desde o drama passional até ao... musical! Estreia esta quinta-feira o seu novo filme: Correio de Droga.

Afinal, de que falamos quando falamos de Clint Eastwood? Do cowboy jovial e misterioso que, nos anos 60, veio à Europa para filmar Por Um Punhado de Dólares, sob a direção do italiano Sergio Leone, e se transformou numa grande estrela... americana? Ou do cineasta que, aos 88 anos, dirigiu o filme Correio de Droga (estreia portuguesa: 31 de janeiro) que, muito provavelmente, vai fazer reaparecer o seu nome nas nomeações para os Óscares?

Ao dirigir e interpretar Correio de Droga, sobre o caso verídico de um homem envolvido no tráfico de drogas, Eastwood veio, afinal, provar que as especulações sobre o final da sua carreira são, no mínimo, prematuras. Mais do que isso: persiste o seu gosto pela acumulação das tarefas de realização e interpretação, ele que, afinal, começou a fazer filmes eminentemente pessoais muito cedo na sua carreira.

Ironicamente, para muitos espectadores, a noção de que Eastwood (também) realizava filmes só se terá tornado clara quando, com Imperdoável, arrebatou os Óscares principais da produção de 1993 - incluindo melhor realizador e melhor filme do ano. Isto apesar de esse filme parecer confirmar que as aventuras do velho Oeste eram a paisagem essencial do seu trabalho.

Em boa verdade, Imperdoável era a 16.ª realização da sua filmografia, tendo assinado a primeira mais de duas décadas antes, em 1971. Chamou-se entre nós Destinos nas Trevas (título original: Play Misty for Me) e nada tinha que ver com a tradição do western: Eastwood surgia como um locutor de rádio envolvido numa estranha relação (pouco) amorosa com uma mulher.

Pode dizer-se que, desde essa data, a trajetória de Eastwood/ator se cruza constantemente com a de Eastwood/realizador, mesmo se uma das suas encarnações mais famosas - Harry Callahan, inspetor da polícia de São Francisco - começou com um filme dirigido por Don Siegel: o célebre Dirty Harry (entre nós: A Fúria da Razão) que, além do mais, foi pretexto para muitas polémicas sobre a segurança urbana nos EUA e os modos de intervenção das forças policiais.

O que talvez seja menos claro quando se evocam estas referências é o facto de os chamados "filmes de ação" (dos westerns aos policiais) serem francamente insuficientes para definir o universo temático de Eastwood. Desde logo porque há nele uma sensibilidade musical que o levou mesmo a compor algumas das músicas que se ouvem na banda sonora de vários dos seus filmes, incluindo o belíssimo tema para piano de Mystic River (2003), por certo um dos seus títulos mais ambiciosos e também mais perfeitos.

Além do mais, a sua paixão pelo universo de jazz e blues levou-o a realizar Bird (1988), notável e pungente retrato de Charlie Parker, e também a participar na série The Blues, concebida e produzida por Martin Scorsese (Eastwood realizou o episódio Piano Blues). Isto sem esquecer que Jersey Boys (2014), um dos seus filmes mais mal-amados (ou, pelo menos, comercialmente menos eficazes) é uma pérola de subtileza humana e sensibilidade musical, retratando o grupo The Four Seasons.

A última década do cinema de Eastwood tem incluído um pouco de tudo, revelando uma agilidade criativa que supera, e muito, a exuberância "juvenil" dos que são meros gestores dos milhões de dólares gastos nos efeitos especiais dos seus filmes. Por exemplo, com A Troca (2008) fez um drama convulsivo, centrado no desaparecimento de uma criança, que valeu a Angelina Jolie uma das melhores interpretações da sua carreira. Antes de Correio da Droga, arriscou mesmo fazer um filme sustentado por um realismo radical: 15:17 Destino Paris (2018) é a história verídica de três jovens soldados americanos em férias na Europa que, em 2015, ao viajarem num comboio entre Amesterdão e Paris, impedem um ataque terrorista. Apostado em obter uma sensação carnal de realismo, Eastwood acabou por escolher os três soldados como intérpretes das suas personagens... Afinal de contas, esta é também uma forma de experimentar os limites do cinema, sem recorrer a efeitos especiais.

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